Mbyá-Jeguatá: à procura de Nhanderu na Aldeia do Cantagalo

Jaime Vherá Guyrá é o cacique da Aldeia do Cantagalo (Foto: Mariana Bampi/Nonada)

Jaime Vherá Guyrá é o cacique da Aldeia do Cantagalo (Foto: Mariana Bampi/Nonada)

Jaime se senta na pedra cinza e olha para baixo, observando as casinhas em miniatura que pontuam uma grande área verde. Ele acabou de subir um dos morros que circundam a Aldeia do Cantagalo, em Viamão/RS, como faz toda semana, e agora contempla com calma seu povo: os mbyá guarani.

Jaime Vherá Guyrá é o cacique da aldeia, tem pouco mais de 30 anos e um olhar gentil. Há pouco tempo, ele teve a ideia de abrir visitas à aldeia para que os juruás (não-índios, em guarani), conheçam e valorizem a cultura mbyá. Depois de conversas com a comunidade,  o projeto foi lançado: a Mbyá-Jeguatá (caminhada dos guaranis) ocorre normalmente uma vez por mês, em períodos sem chuva, e é também uma fonte de renda para a comunidade, que precisa construir sua nova casa de reza.

Na visita à aldeia, os juruás tem contato direto com o modo de vida e a arte mbyá, assistindo a apresentações e conhecendo o artesanato próprio da etnia. O passeio gira em torno da caminhada por uma das trilhas da aldeia. Em silêncio, somos conduzidos pelo cacique, que nos conta sobre a relação dos guarani com a terra. “Estar na mata para nós é como estar dentro de uma farmácia. A terra é nossa mãe, então a gente cuida dela, e a gente fica muito insatisfeito porque os não-índios estão matando a nossa mãe, dando veneno para ela beber. A mata é uma vida para nós, para as crianças, uma energia que ela nos dá. Água corrente pra nós é como o sangue da nossa mãe que tá correndo. É por isso que a gente tem bastante respeito pela natureza, porque ela também tem seu espírito”.

Cerca de 50 famílias vivem na aldeia, reconhecida oficialmente há 35 anos (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Cerca de 50 famílias vivem na aldeia, reconhecida oficialmente há 35 anos (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Jaime parece conhecer cada palmo da mata em volta da aldeia, fruto das caminhadas que faz não só para os turistas, mas também com um sentido espiritual – uma tradição que herdou dos parentes. “Nossos antepassados faziam essa jeguatá com o objetivo de procurar um espaço melhor, onde nhanderu, que é nosso deus, mostrasse aquilo que eles precisavam”, conta. Hoje, o objetivo principal da jeguatá é arrecadar recursos para a comunidade. A principal necessidade é construir a casa de reza, que ainda não tem previsão de conclusão.Hoje em dia, tudo que a gente quer precisa ser através do recurso [financeiro]. Antigamente, recurso para nós era mata, terra livre. Hoje, o recurso vem através do dinheiro, então a jeguatá foi pensada pela comunidade para isso. A gente pretende que esse espaço seja valorizado, um espaço sagrado que a gente tem.”

A Aldeia do Cantagalo tem cerca de 280 hectares e abriga 50 famílias mbyá-guarani. Reconhecida há 35 anos, a área é uma das mais antigas da região metropolitana de Porto Alegre. A Escola Estadual Indígena Karaí Arandu é a maior construção da aldeia, formada ainda por pequenas casinhas, um posto de saúde que abre apenas uma vez por semana e a esperada opy, a nova casa de reza da aldeia, ainda nos primeiros passos de construção.

Os alunos, tanto crianças quanto adultos incluídos na EJA, aprendem disciplinas próprias do currículo já conhecido pelos juruás, além de aulas sobre a cultura e o idioma guarani. “Para os não-índios, parece que a escola é quem educa as crianças. Mas aqui as crianças vão educadas para lá. A escola é um espaço que traz o conhecimento da cultura diferente, dos não-índios e de outros povos também. Não é uma escola de educação, é de conhecimento mesmo. Ela dá a oportunidade de ter o estudo que todo mundo tem”, explica Jaime.

A escola é a maior construção da aldeia, com salas de aula, biblioteca e computadores (Foto: Mariana Bampi/Nonada)

A escola é a maior construção da aldeia, com salas de aula, biblioteca e computadores (Foto: Mariana Bampi/Nonada)

A estrutura é composta por salas de aula, biblioteca e uma sala de computadores. A parede de uma das salas ostenta um mapa desenhado pelas crianças, com o títutlo Orema kova’e roguero vy’a (aquilo que deixa os mbyá felizes). Na área externa do prédio, vários trabalhos dos alunos estão expostos, desenhos com padrões próprios do artesanato e cartazes sobre a seca no Nordeste e os direitos dos indígenas. Em um dos cartazes, se lê: “Nós guarani mbyá não comemoramos dia do índio porque todo dia é dia de índio. Só os homens brancos que comemoram”. Mas a maior diversão parece ser o campinho de futebol ao lado, onde a bola corre pela grama em dias ensolarados.

As crianças mbyá têm a natureza como sua própria casa e são incentivadas a conhecer outras culturas desde pequenas. Um dos objetivos da jeguatá é oportunizar o intercâmbio dos juruás com a cultura guarani, que o cacique considera invisibilizada pela mídia. “Os não-índios ouvem ou veem no jornal uma realidade que é bem complicada. A cultura guarani aparece muito pouco, o próprio jornalista não se oferece para mostrar a cultura diferente ou até questões como a PEC 215. Eu acho que a rádio, a televisão, os jornais, tinham que falar sobre os nossos direitos. Mas eles não veem dessa forma”, lamenta.

A Proposta de Emenda Constitucional 215, em tramitação na Câmara dos Deputados, pretende alterar a Constituição para transferir ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação no Brasil. “A demarcação de terras está parada. As próprias leis dizem que a gente tem o direito, mas o próprio governo não está a fim de fazer isso. Para a gente não passar fome, o governo tem que dar uma olhada nessa demarcação de terras, oferecer a mata que eles nos tiraram”, diz o cacique, que também cobra uma maior atuação na Funai na comunidade.

O artesanato é a principal fonte de renda das famílias da aldeia (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

O artesanato é a principal fonte de renda das famílias da aldeia (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Além das jeguatás, a maior parte da renda das famílias depende do artesanato. As técnicas são repassadas de geração a geração, também ensinadas na escola. “Temos artesanato que é feito para venda e outro que não é, é para nosso próprio uso, tipo para usar na casa de reza, por exemplo”, explica Jaime. Na aldeia, há uma divisão de gênero no fazer do artesanato: os homens fazem miniaturas de animais em madeira, enquanto as mulheres fazem os chocalhos (com porongo e sementes), os cestos (feitos de cipós e taquaras) e os colares e pulseiras. Na prática, porém, o retorno não tem compensado. Antigamente, o artesanato era reconhecido como um trabalho indígena, hoje em dia ele é pouco valorizado. A gente vende no brique, mas muitas famílias nem saem mais da aldeia porque as vendas têm sido muito baixas”.  

Se está difícil encontrar a arte mbyá na cidade grande, Jaime tem a solução: quem visitar o Cantagalo pode encontrar todas as peças nas próprias casas dos guarani. A próxima jeguatá deve ocorrer no fim do inverno, com transporte saindo do centro de Porto Alegre.

As visitas custam cerca de 30 reais, com transporte incluso. Para mais informações, acompanhe a página da iniciativa ou entre em contato pelo email jaimevheraguyra@gmail.combanner-indie-interna

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Foto: Anselmo Cunha/Nonada

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Foto: Mariana Bampi/Nonada

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