por Lorenzo Leuck

O comunicador e ambientalista indígena Ailton Krenak ministrou a aula inaugural do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS , intitulada  “Povos Originários na América Latina: o dilema de integração”, terça-feira passada, 14 de março, no auditório do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados do Campus do Vale.

Krenak foi figural central na asserção da autonomia e do território das nações indígenas na Constituição de 1988 e a definiu esta como um contrato com os operadores do sistema financeiro, donos de terra e chefes de indústria, que cada vez mais tem sido esvaziado de sua validade.

Sua fala apontou como padrões culturais perpetuados em ambientes de extrema opressão irrompem no nosso modo de fazer política. Para os índios, as consequências disso são devastadoras. “A ausência de agentes políticos que nos representem faz com que muitos tenham que morrer para que poucos possam ficar num sítio” expôs, frisando que, ao enfrentarem os latifundiários sozinhos, estão travando uma guerra suicida.

O fato de que nossa formação histórica impôs um único estilo de vida a diferentes etnias, culturas e tradições é fundamental para entender esse cenário. De acordo com Krenak, “a alienação e ausência de identidade é uma pá de cal na sobrevivência desses povos”.

Em retrospecto à estratégia tomada pelo movimento indígena nos anos 80, ele constatou que a ideia vigente então era de estabelecer uma base comum que abrangesse a todos. “Fizemos a coisa mais moderninha da época”, disse sobre os conselhos criados no Brasil, na América Latina e no mundo. “Não é a toa que recebíamos apoio de países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra”, comentou.

Esse dilema de integração também ocorreu com outras nações indígenas. Atualmente Krenak diz acreditar que “Os povos podem se unir sem serem todos iguais. Cada um com sua autonomia, aspirando o mundo que quiser viver”. Alguns países como a Colômbia e o Equador seguiram nessa direção adaptando suas constituições a um viés plurinacional.

No Brasil isso não aconteceu. Krenak contou que aqui, populações “à margem do progresso e da civilização” são apenas o apêndice de uma nação monolítica, onde até ações afirmativas se dão pela assimilação da cultura dominante.

O que levantou a questão: Onde podemos nos apoiar para fazer uma crítica se isso se imprimiu na nossa mentalidade?

Como expõe, quem está na academia só poderá mudar a sociedade se fizer uma crítica epistemológica às nossas formas de conhecimento, meios tecnológicos, e principalmente a maneira como operamos patrimônio.

Pois, de geração a geração, os moldes coloniais seguem os mesmos: Desperdiçamos a chance de intervir na realidade do país e do povo dispondo de nossos espaços de maneira autoritária, repetidamente nos “recolonizando”.

Um exemplo dado por ele é o do machismo.

“Quando vemos um homem explorar sua companheira podemos concluir que essa é uma atitude machista.  Mas antes disso é uma atitude colonialista, enraizada no tempo que Manoel/Joaquim descansava em uma rede enquanto negras e índias caçavam e preparam sua comida”, suscitou o líder indígena.

Seguindo essa linha, ele dissertou que práticas como essa possibilitam que algumas famílias sejam donas do Brasil, e que se coloque em questão se a terra, a água e o ar são patrimônios.

“O pensamento colonial se prolifera como praga”, adverte Ailton Krenak, estendendo sua crítica à Globalização; não apenas uma ideia abstrata da academia, mas um fenômeno que se reproduz com uma faculdade inesgotável.

“Hoje as grandes corporações, o tempo inteiro ligadas e oniscientes, controlam tudo, desde a infraestrutura das cidades até os serviços públicos. Nossos governantes são apenas gerenciadores de pacotes atribuídos por elas”, declarou ele.

Como testemunha do maior desastre sócio-ambiental da história do Brasil, Ailton pôde comprovar isso da pior maneira possível; a lama tóxica da Samarco causou um dano irreparável não só ao Rio Doce, como também à população ribeirinha e a um povo que há séculos se sustém pela pesca em sua beirada, os Krenak.

No desfecho do encontro, o palestrante disse que discutir esse desgoverno é o ponto de partida para democratizar as instituições que administram o estado brasileiro. “Temos que ter pensamento crítico para não sermos presas fáceis a esse complexo sistema de dominação”, concluiu ele, destacando que integrar uma maneira mais eficaz de ser e estar na vida vem antes do que escrever um coletânea de artigos sobre descolonização.

# Interlúdio

Então, é isso.

Talvez não exatamente nessa ordem, e é claro que MUITA coisa deixei fora porque, bem, não pretendo testar a paciência de ninguém.

Ainda assim, acho que tá bem resumido. O que não quer dizer que terminamos por aqui. Nossa editora disse que o formato ideal para a matéria era uma entrevista bate-bola, pingue pongue. E eu botei fé, temos que trazer conteúdo exclusivo pro nosso público.

Já estava tudo arranjado, me aproximei do amontoado de gente envolta do Krenak para falar com Carmen, nossa fonte. Ela me apontou Elisa, uma estudante do PPGAS que iria levar ele e uma galera até o templo budista de Viamão. Quando me convidaram aceitei sem pensar duas vezes.

Uma colega deles, provavelmente do intercâmbio, chegou e quis ir também. Falaram que não tinha mais espaço, mas ela insistiu dizendo que podia ir no porta malas.

Me senti ameaçado. Não havia absolutamente nada que pudesse fazer caso quisessem me tirar do esquema. Comecei a pensar em argumentos para defender minha posição. Eu estava lá como um jornalista, prestando um serviço de utilidade pública, isso devia valer alguma coisa.

Logo saímos do auditório, minha primeira interação com Krenak não gerou muitos resultados. Fomos até o carro de Elisa, no estacionamento do Vale. Eu pensava que era brincadeira o lance do porta-malas, mas não. A guria era pequena e o porta malas era grande.

A caminho do templo, a moça sentada ao meu lado no carro lembrou que dois dias antes do rompimento das barragens de Mariana, Krenak estava na UFRGS e cantou para o Rio Doce.

“Incrível como as corporações conseguiram sumir com isso. Nossas famílias ainda estão pasmas. Acabou a água, acabou o peixe.”

Mais de um milhão de pessoas afetadas. Hospitais e escolas tendo que ser abastecidos por caminhões pipa. Diretor da empresa impune.

Krenak leu para nós o esboço de um texto que estava escrevendo, chamado O insuportável abraço do progresso. Boa parte não deu pra ouvir por causa do barulho do engarrafamento. Pelo que pude entender, a ideia principal era que esse desastre não foi um caso isolado.

A partir da colonização portuguesa, o vale do Rio Doce, região repleta de paisagens naturais e recursos minérios, se tornou o alvo práticas de desvio e guerra contra os povos nativos.

Isso se estendeu por muito tempo, até que em algum ponto do século XIX,  a primeira leva da imigração alemã se assentou lá, mas acabou morrendo por causa da febre amarela. Esse fato causou grande constrangimento à corte brasileira, que tentou remediar oferecendo terras mais ao sul. Inteirada nessa história, Elisa apontou que os próximos alemães foram parar em São Leopoldo, onde expulsaram guaranis e começaram oficialmente sua imigração no país. Outros países da Europa fizeram o mesmo.

Essa “nova era”, resultou em mais expedições científicas, na criação de órgãos higienistas, postos de controle, e no famoso SPI. O arrendamento de terras indígenas por posseiros e funcionários públicos virou algo de praxe.

O estabelecimento dessa prática chegou ao absurdo de durante a ditadura, um coronel “trocar” terras demarcadas por um sítio do exército, onde passariam a confinar índios que “saíam da linha”  para formar um batalhão. Com a redemocratização, veio a era das grandes empresas comandadas pelo capital estrangeiro, que com o aval do governo, extraem recursos sem qualquer responsabilidade sócio-ambiental.

Chegando no templo fiquei feliz em encontrar Dona Iracema e Seu João, conhecidas lideranças Kaingang do Morro Santana. Representantes da comunidade Guarani de Viamão, assim como famílias e jovens, provavelmente em retiro, também estavam presentes. Percebi uma troca cultural muito intensa acontecendo, principalmente entre as crianças.

Conversa no Templo

Conversa no templo budista reuniu também lideranças kaingang e guarani (Foto: Lorenzo Leuck/Nonada)

“Vivemos há 500 anos em uma situação de grande desequilíbrio. Como conseguimos dar seqüência a isso é algo completamente incompreensível”,  afirmou Lama Padma Samten em encontro realizado dia 15 deste mês no Centro de Estudos Budistas Bodisatva, que reuniu lideranças Kaingang e Guarani com uma das principais referências do movimento indígena do Brasil, Ailton Krenak.

Na sua fala o sacerdote, mestre em física quântica pela UFRGS, constou que em meio a nossa vida “aparentemente normal”, se encontra uma violência muito antiga e uma resiliência extraordinária. Esta última capaz de manter, mesmo ante a uma cultura globalizada (e completamente orientada pelo paradigma econômico), conhecimentos  não apenas no nível material, da natureza, como na inseparatibilidade de todas as dimensões.

Durante o evento, foi projetado o vídeo do consagrado discurso de Krenak no Congresso Nacional em 1987. Isso sensibilizou àqueles que já acompanhavam sua trajetória.  “Quando ele passou aquela tinta preta eu chorei” admitiu a curandeira Guarani, Talcira Gomes. Outro representante Guarani comentou que há anos via essa fala de Krenak no DVD. “As palavras que ele fala tocam no coração, emocionam demais.”, disse Gildo da Silva.

“Às vezes eu fico impressionado com aquele moço falando bravo com os deputados e penso: Não sei se eu teria disposição e coragem para fazer aquilo de novo.  Mas quando somos convocados a deixar que nosso verdadeiro ser se manifeste, nós podemos confiar porque não vai ter nada contra; cada tempo tem seu tempo”, refletiu Krenak.

“A gente teve que invadir Brasília, se lembra?”, comentou com ele o cacique Kaingang fundador do projeto de demarcação da terra indígena Borboleta, João Carlos Padilha.

“Eu pousei na praça, no mato, debaixo da ponte, na rodoviária. A polícia se cansou de me tirar dos lugares, de me acordar e me chamar de morador de rua. Tudo isso pra ajudar a discutir a constituição. Alguns povos que iam tinham dinheiro, bancados por certas ONGs, mas nós não”, recordou Padilha, ressaltando que foram mais de 50 anos de luta para garantir o direito dos povos indígenas, ainda assim, a questão fundiária e a demarcação de terras indígenas não foram resolvidas. O cacique acredita que o povo brasileiro tem que se erguer novamente para conquistar leis que atendam todas as culturas e etnias e preservam a natureza.

Ailton Krenak também elucidou que o entendimento dos povos indígenas sobre tradição é muito próximo ao que se tem no budismo. No ocidente esta é vista apenas como uma representação do passado completamente inútil à ciência, nessas culturas é a fonte de sua própria existência, um vínculo com toda a cosmogonia da criação.

Praticamente budista e nativo do Peru, José Luis Antark  descreve nosso tempo como um buffet livre de conhecimento. Para ele, devemos pôr em prática o melhor aprendido de todas as culturas. E isso vale duas vezes para o Brasil.

“Não tem jeito, vão e se iluminem, façam alguma coisa. Tem tudo aqui para vocês, o conhecimento nativo está aberto, e lideranças indígenas estão dizendo ‘vamos trabalhar juntos’. Quem sente que não é por aí, ainda tem o caminho do Oriente e de todos os demais povos e culturas.  É um lugar incrível, aproveitem. E se não der certo aqui a gente vai pro Peru ver o que passa lá”, brincou Antark. Em seguida cantos ancestrais e mantras foram entoados de acordo com cada tradição presente.

#Interlúdio²

Já era noite quando o evento acabou. Tinha que voltar para casa. Depois de confirmar todos os nomes fui até o rapaz que veio comigo no carro. Ele disse pra eu arranjar outra carona, pois o grupo que trouxe Krenak morava ali na CEBB.  Mestrado em antropologia e vivência no templo, combinação interessante. Falei com o Lama, que me apontou “Pene”, “Pene” ia levar Krenak até seu hotel no centro, e não se importava em me deixar no meio do caminho.

Passamos no refeitório antes de ir pois eles estavam famintos. Lá havia um pacote de bolacha integral e uma espécie de patê, provavelmente vegano e sem glúten. Um sujeito magro, de óculos e muito budista foi falar com Krenak.  Ele o agradeceu por sua fala no encontro. A partir dela, concluiu que grande parte do mal causado no mundo vem da ignorância. Krenak concordou com isso apontando mais semelhanças entre tradições budistas e indígenas. Muitas delas veem a realidade como infinitos ciclos de ascensão e queda. Nós estamos caindo agora, e rápido. Krenak ainda fez uma referência ao “perspectivismo”, interpretação do antropólogo Eduardo Viveiro de Castro sobre o pensamento indígena amazônico.

“Em termos simples, nessa visão de mundo não há quem cause o mal e quem o receba. Tudo faz parte do mesmo”

“O sofrimento transcende”, assentiu o budista.

Em menos de um minuto eles expuseram algo que eu demorei anos para assimilar, causando até certo embaraço nas minhas tentativas de explicar.

“Faz sentido chegar pro Trump e dizer “Seu Trump, deixa de ser sem vergonha. Olha todo o mau que o senhor está causando”? Não! Esse é o trabalho dele e muitas pessoas estão contando com isso. Nada vai fazer as corporações “mudarem de ideia” e pararem de destruir a Terra.”

Continuaram a falar sobre o fim dos tempos. Ofereceram mais uma bolacha a Krenak, mas já era hora de ir.  O budista, sem jeito, se arriscou a fazer mais uma pergunta.

“Tudo bem, temos que aceitar o final desse ciclo. Mas será que não há pelo menos um resquício de esperança de que tudo isso possa acabar bem?”

“Não”, Krenak riu com gosto, então fomos.

No trajeto até a Protásio tive a oportunidade de fazer a entrevista, mas resolvi falar mais com ele sobre o perspectivismo e outros temas que há muito me instigavam­­­­­.

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Segue abaixo a entrevista com Ailton Krenak:

Conversamos com o escritor também em uma entrevista exclusiva (Foto: Lorenzo Leuck/Nonada)

Nonada – Trinta anos atrás o senhor fez um discurso histórico que garantiu a aprovação da Emenda Popular das Nações indígenas na Constituição de 88. A partir de 2015 ocorreram manifestações parecidas contra a PEC 215, que propunha retirar do executivo a exclusividade de demarcação de terras indígenas, uma evidente violação a essa conquista. A PEC foi aprovada, o que isso diz sobre o Período que estamos vivendo?

Ailton – Que nós estamos vivendo em um período onde a expressão dos movimentos sociais perdeu validade ante a quem está no poder. Quem exerce o poder político do país não se sente representante da sociedade, isso é uma revelação muito importante para a gente sacar. Se quem está no exercício do poder não representa mais a sociedade, ele não precisa atender mais nenhuma demanda da sociedade, é ilegítimo, entendeu?

Estamos vivendo em uma situação de ditadura, e ela é anterior ao golpe, por que tem uma mentalidade autoritária instalada no poder. Se lembra dos protestos contra Belo Monte? Isso foi antes do golpe, mas a tropa de choque foi lá, deu porrada em todo mundo, o trator passou, a hidrelétrica foi feita e inaugurada. Aquilo lá foi uma antecipação da cultura de golpe que cultivamos entre nós. A PEC 215 passa por que quem tá no poder não representa a sociedade nem se sente constrangido pelas manifestações dos movimentos sociais.

Nonada – É necessário fazer um novo contrato social para salvar a democracia? Que outras formas de organização política seriam necessárias?

Ailton – Quando eu falei ontem na abertura do PPGAS fiz uma referência de passagem a isso. Podemos continuar a fazer de conta que aquele contrato está valendo (Constituição de 88) mas quem está exercendo o poder já jogou aquilo no lixo. Tem muitos segmentos da vida política e social brasileira que acham que tem que radicalizar  e retomar esse espaço de para o interesse comum. Não deixar que ele seja apropriado por quadrilhas. Se nós estamos vivendo no contexto que quadrilhas tomaram conta do poder como vamos querer que eles cumpram um pacto social com a gente? É brincadeira, né? Nós estamos nos iludindo.

Nonada – As novas tecnologias da informação garantiram a hegemonia das multinacionais e da especulação financeira.  Ainda assim, tornaram cada vez mais comum o surgimento de meios como Radio Yandê e Comunicação Kuery, aqui no sul. Para o senhor, um dos primeiros comunicadores de massa da causa indígena, onde tudo isso está nos levando?

Ailton – Tem um camarada chamado Noam Chomsky, um linguista e grande pensador do ocidente, que vive confrontando a mediocridade do pensamento gringo, americano, que quer dominar o mundo. Ele tem uma visão muito crítica sobre essa ideia da conspiração. Ele acha o seguinte. Se essas tecnologias foram apropriadas pelo capital e domina todo o cenário, ela não pode dominar as possibilidades de rebeldia e insurgência. Essa “periferia”, onde aparece a rádio yandê e outros movimentos sociais como mídia ninja, é exatamente a parte que o sistema não controla. As vezes podemos achar que tem uma coisa conspiratória controlando tudo, mas nada controla tudo. Sempre tem alguma coisa que fica vazando, e é nesse espaço que vaza que temos que atuar, entendeu?

Nonada – Qual sua opinião sobre o programa “Saberes Indígenas na Escola”?

Ailton – Olha, Saberes Indígenas nas Escolas é interessante porque é um contrafluxo de todo o bombardeio que sai de dentro dos sistemas de produção de conhecimento pra cima da vida das pessoas. O contrafluxo de levar o saber indígena para a escola é uma gota no oceano, mas é uma gota e tem a ver com aquilo que a gente falou, nem tudo está dominado: sempre tem a possibilidade de uma gota no oceano.

Nonada – Esse programa é financiado por verba federal, isso significa que dá pra dialogar com o governo?

Ailton – Você  não ouviu meu comentário sobre como o sistema financeiro global se utiliza das mídias e tecnologias de informação para consolidar o domínio dele, mas mesmo assim algo acaba vazando? A ideia de que um aparato do Estado, através dos governos locais, promovam ações afirmativas ou que leve o saber indígena nas escolas, não é uma coisa que esses governos fazem voluntariamente, eles fazem isso porque eles não conseguem conter essa parte, porque se eles pudessem, nem isso eles deixavam acontecer.

Nonada – E tomar o governo para torná-lo a favor do povo, é possível?

Ailton – É um desafio. Se nós não fizermos isso nós vamos ficar sempre nas bordas sentindo a pressão. Os movimentos sociais tão na rua aí, de repente eles estão na rua porque os sindicatos querem ir pra rua. Até dois anos atrás os sindicatos todos estavam adorando o que tava rolando e muitos desses sindicatos foram para a rua pedir o golpe e agora estão começando a despertar e perceber que fizeram uma cagada. Eles agora estão pensando em mobilizar a população dos municípios do país. Se esse conjunto de interesses conseguir mobilizar todo mundo, tiram esses caras que estão aí.

Nonada – Sua visão sobre ecologia e sustentabilidade levanta duas questões centrais sobre nosso modo de vida. Como fazemos para nos alimentar? O que fazemos com nosso lixo? Nós, enquanto sistema capitalista, conseguiremos apreender que a terra tem limite?

Ailton – Exatamente, a grande questão que o nosso querido xamã Yanomami coloca é, se essa civilização não pára de crescer e ela demanda tanta comida, tanta produção de alimento, aonde é que ela joga seu lixo?

A pergunta básica é, se ela tem que comer tanto, aonde é que ela caga depois?

Aí a gente só pode responder, elas estão cagando o planeta inteiro: nos rios, nos mananciais, nas nascentes, na floresta… Esse paradigma tem que ser virado, se a gente não mudar o paradigma, a gente não muda essa prática.

Eu estou colaborando com um amigo meu que é engenheiro, na produção de um texto, onde dizemos que nós temos que provocar uma séria reflexão sobre o modo de produzir. O modo de produzir é determinado pela técnica que foi desenvolvida e que chegou nisso que nós somos hoje.

A engenharia domina o mundo da produção em amplos termos; todas as engenharias dominam o mundo da produção. Então, se você não formar pessoas nas universidades, nas escolas, com outro paradigma, você vai continuar tendo uma tecnologia e engenharia destrutiva do planeta, sustentando o capitalismo e mantendo a roda girando desse jeito, até a gente destruir a última água.

 

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