Fotos: Otávio Fortes

Esta sexta-feira foi movimentada na cena cultural de Porto Alegre. Enquanto Djamila Ribeiro e Joanna Burigo falavam sobre feminismo, aborto, educação, representatividade e lugar de fala dentro da Feira do Livro, poucos integrantes do MBL se preparavam para, duas horas depois, cumprirem a primeira missão fascista que devem estar planejando para os 19 dias de feira: eles entraram no sarau promovido pelo Ponto de Cultura Feminista: Corpo, Arte e Expressão, filmaram as participantes individualmente e as constrangeram.

Na mesa das 16h30, os organizadores não previram que Djamila Ribeiro lotaria fácil a capacidade de 160 lugares lugares do auditório do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, de forma que algumas pessoas ficaram do lado de fora, algo que é raro entre as atividades da feira.  A mesa em questão era a “Conexões feministas nórdico-tropicais-Diálogos sobre gênero, comunicação e educação entre Brasil e Noruega”, também composta por Joanna Burigo,  do site A Casa da Mãe Joanna, e mediada por Carol Anchieta.

As jornalistas e pesquisadoras defenderam que o poder público precisa entender que o feminismo é fundamental para toda a sociedade. A convite da Embaixada Real da Noruega, elas viajaram para Oslo com o objetivo de trocar experiências sobre identidade de gênero e políticas públicas em ambos os países. As jornalistas realizaram palestras e visitaram instituições e centros de pesquisa do país, que é especialista nos estudos de gênero.

Na mesa, contaram um pouco do que vivenciaram na viagem. A proposta era pensar sobre o que podemos aprender acerca do feminismo no país. Joanna Burigo  contou que no país nórdico, quando se fala em gênero, não existe uma disputa como no Brasil. “Gênero é uma política nacional lá, ou como eles chamam, ‘feminismo de Estado’. Isso ajuda a moldar a cultura de gênero como um valor nacional, o que é refletido no cotidiano, nos empregos e na publicidade. Nos centros de pesquisa que visitamos, eles ficaram chocados com coisas que contamos do Brasil, como o fato de o aborto não ser permitido”, relatou.

Djamila Ribeiro destacou que, na Noruega, as crianças aprendem outras construções a partir do sistema educacional.  “O fato de ter acesso a uma educação de qualidade faz toda a diferença. Mas aqui temos a mentalidade Casa-grande/senzala  de achar que a educação é só para a elite. Por isso é que existem essas disputas e coisas como o Escola Sem Partido, porque eles sabem que a escola é um espaço importante de transformação social”. A ativista também destacou que o fato de haver recursos para essas políticas na Noruega é fundamental para a sociedade, já que no Brasil as iniciativas são, em sua maioria, voluntárias. Nesse sentido, elas destacaram como as falhas do poder público refletem diretamente na cultura e na vivência das mulheres brasileiras. “É preciso acabar com normatividade e não com a diversidade, É preciso erradicar inequidades que levam à violência”, alertou Joanna.

O feminismo de Estado contribuiria, por exemplo, para que os brancos também pensassem sobre racismo. “O homens brancos pensam que são universais. O problema do racismo e do machismo não é da mulher negra. Quando de fato existem políticas implementadas, a sociedade não pensa que o problema é só do outro”, completou Djamila. “Na Noruega, eu pude andar na rua normalmente e não ser olhada como uma coisa”. Ela continuou, afirmando que, no Brasil, isso ocorre quando ela vai a espaços apropriados pela elite branca. “As pessoas aqui ficam muito surpresas se eu frequentar certos espaços e de eu ser inteligente. Isso me dói”, lamentou.

Infelizmente, elas tinham muito a falar para pouco tempo e espaço. No fim do debate, antes de responder perguntas da plateias, as jornalistas comentaram sobre seus livros mais recentes. Em parceria com a Editora Zouk, a Casa da Mãe Joanna, site integrado por Joanna Burigo, lança em breve as obras “Novas contistas da literatura brasileira” e “Tem Saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil”, escrito por um time de 32 mulheres feministas. Djamila Ribeiro lançou recentemente o livro “O Que é Lugar de Fala”, pela Editora Letramento.

O passado invisibilizado dos negros e indígenas gaúchos

Em meio a tantas atividades da programação, uma roda de conversa fundamental passou quase despercebida no fim da sexta-feira. A ativista negra Lúcia Regina Brito Pereira e o líder kaingang Danilo Braga, professores da rede pública do Rio Grande do Sul, deram uma aula de história à plateia da Sala Oeste do Santander Cultural. A mesa “Redescobrindo histórias negras e indígenas do Rio Grande do Sul” relembrou o passado invisibilizado e a importância dos povos indígenas e do povo negro para a formação do RS.

A professora Lúcia Regina Pereira resgatou a história do povo negro no estado, em especial espaços importantes, como o Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, que por sinal começa a cada vez mais a ser chamado de “Largo da Epatur” e a Feitoria do Linho Cânhamo, em São Leopoldo, além de exemplos de jornais da imprensa negra. “É bastante recente a descoberta da história negra do Rio Grande do Sul, e isso só ocorreu em função dos movimentos sociais. A luta da população negra se dá desde que ela sai da África. O Rio Grande do Sul não é tão europeu quanto pensam, comporta a matriz africana, indígena e europeia”, explicou. O massacre dos Lanceiros Negros na Guerra dos Farrapos também foi lembrado pela historiadora, que afirmou que “é uma contradição que a maior data de bravura do estado esteja em cima desta traição”.

O segundo convidado da mesa foi Danilo Braga, Doutor em História e professor kaignang, etnia que, salvo aluma rara exceção, nunca avia sido convidado a falar na Feira do Livro.  O líder kaingang criticou a visão colonizadora da academia: “O indígena entra a história a partir de 1500. Parece que, antes disso, não existiam indígenas no país”, disse. Segundo o historiador, o povo kaingang está há cerca de 10 mil anos no estado. Ele também lembrou que, em 1500, havia 6 milhões de indígenas no país, estatística que diminuiu para 230 mil na década de 1990. Danilo destacou ainda que a bancada ruralista no Congresso Nacional tem “atacado direitos indígenas a partir de projetos de lei” e que os povos indígenas têm lutado para que seus direitos não desapareçam.

A mesa foi uma parceria com a Bienal do Mercosul, o que indica que a representatividade deve chegar também à Bienal, um dos eventos culturais mais elitizados de nosso estado.

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