Ilustração: “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete

As Histórias em Quadrinhos no Brasil vivem um momento de efervescência no mercado editorial do Brasil e do exterior. Nos últimos 10 anos, com o alcance das mídias sociais e o fortalecimento de eventos e festivais voltados para o gênero, as HQs ganharam uma pluralidade de vozes e vivências que enriqueceram o conjunto de publicações. 

Lançado no dia 30 de janeiro, Dia do Quadrinho, o catálogo HQ Brasil é uma publicação financiada pelo Ministério das Relações Exteriores e editada por Érico Assis, com o objetivo de apresentar as HQs brasileiras para o mercado exterior.  A curadoria inclui 100 quadrinhos criados na última década por quadrinistas homens e mulheres de diferentes etnias, como LoveLove6 e sua garota siririca, ilustrações de Odyr para a edição da Companhia das Letras do clássico “A Revolução dos Bichos” e “Angola Janga: uma história de Palmares”, de Marcelo D’Salete. A publicação será distribuída em países como a França, mas a versão digital está disponível gratuitamente (com textos em inglês e em francês) aqui

Confira na íntegra a apresentação do catálogo, escrita por Érico Assis

As histórias em quadrinhos brasileiras acompanharam o desenvolvimento da imprensa no Brasil e a história do país. Após a Independência, em 1822, são das décadas de 1830 a 1880 as primeiras obras vistas como HQs, sobretudo na produção de Angelo Agostini, italiano radicado no Rio de Janeiro. A revista infantil O Tico-Tico, a partir de 1905, abriu as portas tanto para a larga produção nacional quanto para a importação de HQs estrangeiras. 

As décadas de 1930 a 1950 foram as dos suplementos infanto-juvenis nos grandes jornais, com tiras e HQs paginadas. Fundada em 1950, a Editora Abril viria a ser o maior grupo editorial do Brasil e publicaria quadrinhos em banca – sobretudo de licenças estrangeiras, como Disney, Marvel e DC Comics – por quase sete décadas. Das tiras de jornal às revistas (e animação para TV e cinema, parques temáticos, licenciamentos mil), Mauricio de Sousa construiu um império baseado nos quadrinhos da Turma da Mônica. Durante a ditadura militar (1964-1985), havia focos de crítica e resistência à censura nas tiras de Henfil e nos quadrinhos da revista humorística O Pasquim. Na retomada democrática, autores de humor escrachado e adulto, como Laerte, Glauco e Angeli, fizeram enorme sucesso em jornais e revistas.

Após um período de estagnação econômica geral na década de 1990, uma série de fatores contribuiu para a retomada do quadrinhos brasileiro no século atual. A difusão da internet como meio de divulgação, agenciamento, compra e venda contribuiu para formar carreiras de artistas, fundação de editoras e potencialização da crítica especializada. Os mangás começaram a aparecer em peso, abrindo um setor antes inexistente nas bancas e angariando novos públicos. Seguindo uma tendência dos EUA, grandes livrarias começaram a ter espaços de destaque para quadrinhos, apoiados na ascensão da cultura geek e no sucesso do cinema de super-herói. A italiana Panini instalou-se no país em 2000 e hoje responde por mais de metade do mercado de quadrinhos, publicando Marvel, DC, mangás e Turma da Mônica. O governo brasileiro, através do Programa Nacional Biblioteca na Escola, começou a comprar quadrinhos em grandes tiragens, o que fomentou a produção nacional e a criação de selos de quadrinhos nas principais casas editoriais brasileiras.

Os festivais de quadrinhos foram pontos de convergência importantes na fase recente do quadrinho brasileiro. O Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (bienal, desde 1997), a Bienal Internacional de Quadrinhos de Curitiba (desde 2011) e a Comic Con Experience (anual, desde 2014) são os principais eventos de encontro da cena nacional, com grande impulso de vendas, contato com influências estrangeiras e promoção dos quadrinhos. Entre os maiores beneficiados dos festivais estão os quadrinistas independentes, que planejam lançamentos e campanhas de financiamento coletivo conforme as datas de cada evento.

Prêmios nacionais e internacionais fomentam o quadrinho brasileiro. O Troféu HQ Mix, concedido anualmente desde 1989, acompanha as principais obras de artistas brasileiros. Em 2017, o Prêmio Jabuti – premiação mais tradicional do mercado editorial, fundada em 1958 – abriu sua categoria Histórias em Quadrinhos. No plano internacional, brasileiros como Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Albuquerque, Ivan Reis, Marcello Quintanilha e Marcelo D’Salete conquistaram troféus importantes como o Eisner Award (EUA), o Harvey Award (EUA), categorias do Festival d’Angoulême (França) e do Rudolph Dirks Award (Alemanha). Isto tem impulsionado a publicação de obras brasileiras no exterior.

O Brasil não possui um mercado de produção industrial de quadrinhos tal como EUA, França-Bélgica, Itália, Coreia do Sul ou Japão. Existem focos de alta produção, como a Mauricio de Sousa Produções – líder em vendas de quadrinhos no país – e dezenas de desenhistas que colaboram com editoras de super-heróis e congêneres nos EUA. Fora isto, há centenas de autores que circulam entre a cena independente e editoras de pequeno ou médio porte. O formato revista, com edições de 16 até por volta de 100 páginas, é preferencial entre os independentes. No material publicado por editoras, verifica-se nesta década a preferência por acabamentos de luxo – como a capa dura – e extensões que vão das 48 às 200 páginas, sendo que alguns álbuns já superaram a barreira das 400. Há altos e baixos nesta produção editorial, porém, bastante sensível às flutuações da economia brasileira.

A seleção apresentada neste catálogo busca representar a variedade de temas, a variedade de gêneros (sexuais e narrativos), a variedade de estilos artísticos e a variedade de procedências dos autores e autoras a partir de um recorte de dez anos no mercado editorial brasileiro, de 2009 a 2018. Optou-se também por destacar apenas uma obra por autor. Dados estes limites, fica a sugestão de consulta aos próprios autores e às editoras quanto a demais obras que compõem seus respectivos portfólios e catálogos. A HQ brasileira é muito, muito mais. O que se apresenta aqui é meramente introdução.

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