São Paulo (SP) — Faltava apenas um dia para o fim da 36ª edição da Bienal de São Paulo. Vestido com uma roupa azul royal, o curador geral da edição, pesquisador e intelectual camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung sentou ao lado do jornalista estadunidense Siddartha Mitter para uma conversa sobre as formas de publicação no campo das artes visuais. Na ocasião, ele disse: “eu não sou ‘anti’ nada, porque ser ‘anti’ alguma coisa demanda muita energia.”
Em um pavilhão banhado de cor, tecido e forte caráter imersivo, a recém encerrada edição da Bienal, Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, título inspirado no poema “Da calma e do silêncio” da escritora Conceição Evaristo, foi uma exposição que, de fato, não se afirmou a partir da posição anti. Não veio para ser contrária, mas a favor de uma série de direitos e porvires para a humanidade: o direito ao bem-estar, à beleza, ao brilho transbordante, ao desbunde cromático, ao respiro, ao erro, ao desfrute prolongado e à abstração.
Estive na Bienal em um momento específico, talvez tão valioso quanto o seu começo: o fim. Uma parte de meu tempo no Pavilhão foi dedicado a, mais do que visitar à mostra, observar o movimento do público. Como seus corpos dialogaram com as obras e os 120 artistas? No caderno de notas, registrei uma série de acontecimentos infraordinários, que embora ínfimos, muito informam sobre a relação que o público estabeleceu com a 36ª Bienal:
“Pai, olha ali: Exu” — uma criança, na instalação do coletivo Vilanismo, irmandade de artistas negros formada no final de 2021 com o propósito de desafiar o sistema ocidental das artes visuais
“Essa seria uma obra lúdica para falar sobre violência sexual na escola” — uma professora, na obra de artista balinesa/indonésia, I Gusti Ayu Kadek Murniasih (Murni), em que pinta com cores vibrantes cenas de ameaça à integridade do corpo das mulheres
“O que é bordado?” — uma criança segurando uma câmera portátil, ao olhar os tapetes de grande dimensão da artista nigeriana Otobong Nkanga
Um casal de jovens movimentando o corpo para enxergar as nuances de uma pintura da pintora iraniana Behjat Sadr
Criança imitando a pose das esculturas em bronze de Nádia Taquary, ou seja, performando junto a obra as Íyámis, entidades femininas ancestrais.
Nos diálogos com os visitantes, conheci também Hebert Kendy Zamor, montador da Bienal e de exposições de artes visuais em São Paulo. Em frente à obra de Myrlande Constant, ele conta que encontrar o trabalho de uma conterrânea, do Haiti, lhe conecta com a cultura e a espiritualidade de seu país, ao qual não retorna há mais de 6 anos, quando imigrou para o Brasil.
Em uma das obras do corpo de trabalho de Constant, bordadas minuciosamente com lantejoulas e paetês, é possível reconhecer uma figura que se aproxima de São Jorge. O santo, sincretizado com o orixá Ogum, tão presente de norte a sul do Brasil, também está no Haiti. Ali senti: há um conjuro claro, um tecido espiritual que sustenta a humanidade apresentada pela 36ª Bienal.

A proposta conceitual, que contou com co-curadoria de Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza e Keyna Eleison, e curadoria adjunta de André Pitol e Leonardo Matsuhei também imputou reflexões no campo das artes. O que é conjugar a humanidade? É um exercício incômodo, e realmente reflexivo, no sentido estrito da palavra. Muito longe de olhar para o outro, essa foi uma exposição que olhou para o nós, e para nós — emaranhados, complexos, contraditórios. Conjugar verbos é dar possibilidades de existência. Quem conjuga, se implica. Quem conjuga, escolhe um tempo para flexionar.
As escolhas curatoriais dos nomes brasileiros foram generosas ao conectarem gerações de artistas de diferentes territórios do país, que olham para questões contemporâneas pela ótica da beleza e não fazem arder a dor. De Gê Viana, com sua póetica pontiaguda e enraizada nas sonoridades dos paredões de som do Norte e Nordeste, a Gervane de Paula, com suas quatro décadas de prática, levando o Centro-Oeste para o centro do Pavilhão. A impressionante montagem do trabalho de Gervane mostrou animais do cerrado em um jogo erótico que revela um país que não sucumbe diante do autoritarismo. Nesta instalação, ouvi a exclamação de uma criança: que colorido! O mesmo ocorre no trabalho do artista Moisés Patrício, em uma obra pungente, intitulada Onde nos alinhamos – caminhos de Mestre Didi
Outra palavra-chave para compreender o que essa edição Bienal pode nos ensinar, para além do fim, é o poder da invocação. Nem que tudo precisa ser assimilado imediatamente. Nesse sentido, acredito que os curadores convidaram o público a um outro modo de desfrute, que menos tem a ver com compreender com a mente, com as informações descritivas, e mais com um envolver-se, um involucrar-se, um gesto poroso entre tecidos e instalações imersivas. Ou como diz Conceição Evaristo, em Da calma e do silêncio, “quando eu morder a palavra/ por favor / não me apressem / quero mascar […] quando meu olhar / se perder no nada, / por favor/ não me despertem”.


O direito ao desfrute
Uma conversa me marcou ao ouvir os comentários de visitantes estrangeiros que entravam no espaço expositivo. Eles comentavam de um encantamento, e certo assombro, pela gratuidade e facilidade de adentrar o Pavilhão. “Não pediram nome, passaporte, fiquei impressionada com isso”, comentou uma pessoa. Como diz Saramago, é preciso sair da ilha, para então enxergá-la. O fato de haver fácil entrada talvez nem mesmo me ocorresse, de tão naturalizada que é, mas é um lembrete importante para o exercício reflexivo de tudo que envolve um evento com uma Bienal.
Não é possível pensar em uma Bienal com seus papeis, sem destacar o fato de que é com o amplo público que ela está dialogando. Não é (só) para uma pequena bolha, não é (só) para o pequeno circuito da crítica, não é (só) para o campo das artes visuais. As portas abertas, em um parque público, nos lembram que uma Bienal dialoga com as pessoas, de todas as faixas etárias, identidades, origens – embora, vale lembrar, o Pavilhão esteja localizado em uma região nobre de São Paulo. Pode soar como uma obviedade, mas sem lembrar disso, também ficamos fadados a demandar que a Bienal cumpra as expectativas de uma pequena parcela de pessoas. “Pescar” impressões me fez mergulhar.
A equipe curatorial provocou os visitantes, mas também os agentes do sistema da arte — curadores, críticos, gestores e artistas — a buscarem formas de subversões que vão além das barreiras, interessadas na poesia e em uma recusa da violência como estratégia discursiva. A Bienal falou, sim, com sua contemporaneidade em guerra. Não parte de uma ingenuidade ou isenção sobre os temas do mundo, como a guerra, os fascismos, a crise migratória, a emergência climática. É o caso do trabalho do Forensic Architure, coletivo interdisciplinar que denuncia o saque histórico europeu e o subsequente colapso ecológico. Ainda assim, a exposição convoca uma pergunta: “como fazer mais do que resistir?”
Na conversa com Siddartha Mitter, o curador Bonaventure também comentou sobre as maneiras de atravessar um mundo adoecido, um questionamento que pode ser estendido ao próprio sistema da arte, um reprodutor de muita colonialidade. “É como uma corrida. Você precisa de paciência. Não é como dar um sprint, mas é como correr uma longa distância.” A visão curatorial retoma a perspectiva de que, mesmo o tempo de contemplação da Bienal — de todas, pela grande escala, mas essa em específico — não era um tempo de feed, de rápida absorção. “Uma exposição não tem a responsabilidade de abordar o imediato. Nós devemos abrir caminho para um porvir”, destacou Bonaventure.

Ao conjugar a humanidade, a exposição desfez algumas certezas. Sabemos mesmo o que é humanidade? O que é um direito humano? Através do tempo expandido que convocou a partir da expografia, escolha de obras, proposta instalativa, seleção de artistas, a exposição também ofereceu uma pergunta sobre a relação visitante-obra. Qual o tempo necessário para o olhar brilhar? Reconhecer isso não é isentar que houve problemas de sinalização e entraves de acessibilidade que precisam ser resolvidos para as próximas edições.
Estar lá, porém, me mobilizou a entender a falta de informação usual como uma desorientação criativa. Será que não é saudável uma dose de desorientação? No sentido de que, não saber, de forma rápida, a origem de um artista, me fez buscá-lo. Não entender claramente a autoria, me provocou a desligar um pouco a mente, e me envolver de uma outra maneira. É radical, sim, porque quebra uma corporalidade segura, codificada, do que é adentrar em um espaço de arte. Acredito que a equipe curatorial tenha apresentado uma Bienal que desconjugou o verbo entender, conjugando uma série de outras ações: desfrutar, dançar, mover, relaxar, descansar. O tom é outro.
Assim, a conversa entre as obras e artistas permitiu muitos respiros, criou um lugar poroso onde muitas convergências poéticas aconteceram. O brilho foi um fio condutor entre artistas de diferentes países do continente africano. O tecido, de fato, tramou poéticas. Em todos os capítulos, não esqueci que o mundo está em guerra, mas pude lembrar que algo ainda reluz. O capítulo Intratável Beleza do Mundo evidenciou justamente isso.
Uma humanidade fraturada pede por beleza, mesmo que não saiba disso de imediato. O trabalho curatorial enfatizou que a alegria e a beleza são poéticas e são políticas afirmativas. A obra de Suchitra Mattai, hindu-caribenha, foi um desses trabalhos que fazem despertar os olhos pela cor. O tramado formava um círculo — forma bastante presente na exposição — em que o público poderia entrar e dentro visualizar ondas do mar.
Estruturas participativas, em que é preciso entrar para ver, também são, de algum modo educativas, ao, novamente, fazerem um convite de imersão. Um dos destaques dos nomes brasileiros da mostra foi a presença do Sertão Negro, espaço que nos convida a sentar e conhecer mais do trabalho do coletivo criado por Ceiça Ferreira e Dalton Paula. Uma série de objetos relacionados à história do coletivo artístico de Goiânia compunham a obra, como fotos, receitas e objetos sagrados. Nesse ponto, anotei em meu caderno a fala de uma visitante ao deparar-se com o trabalho do Sertão Negro: “a foto que encontrei da mãe do avô era tipo assim”. Nos três andares do Pavilhão, tapetes da artista nigeriana Otobong Nkanga chamavam atenção.

Referências compartilhadas
A subversão apresentada na Bienal é poética e, ao mesmo tempo, material, translinguística. Uma série de obras compartilhou leituras com o público, o que pode sugerir uma convergência de poéticas. O artista Hamedine Kane, nascido na Mauritânia,construiu uma instalação ancorada em um extenso barco de madeira em que livros de autores do pensamento afro-diaspórico se encontravam no mesmo lugar, na mesma travessia. Nego Bispo encontrava Alice Walker. Cidinha da Silva encontrava Rodney Saint Éloi Yara El Ghadban.
Muitos escritores da mesa podem ser reconhecidos como “afropeus”, pessoas de identidade fronteiriça, que buscam construir pontes entre mundos que torcem, ainda hoje, a “linha da cor”. Nessa instalação, o artista selecionou um poema que muito pode nos fazer refletir sobre a intelectualidade:
Você diz que é intelectual?
Você diz que é intelectual…
Você diz que luta por mudanças no país
Você diz que é tem determinação
A cada oportunidade você afia sua língua
Até que corte como uma espada
No trabalho do coletivo Vilanismo, também era possível encontrar leituras que apontavam para fora dali. A presença do livro, enquanto materialidade, me fez pensar que a Bienal lançava perguntas, inclusive com ferramentas e modos de seguir ecoando um pensamento semeado na exposição. Um mesmo livro se presentificava no trabalho de Kane e do Vilanismo: A Dívida Impagável, de Denise Ferreira da Silva. Além de apontar referências de pensamento afro-diaspórico, a 36ª Bienal, a partir da expografia, mostrou como um artista contagia o outro, como estão tramando juntos um mundo com referências compartilhadas.

O material importa
Uma recorrência entre os artistas: a imagem do ovo. Lá estava ele no trabalho de Gervane de Paula, do Brasil; de Michele Ciacciofera, da Itália; de Adjani Okpu-Egbe, de Camarões. Com essa observação, passei a pensar em tudo o que o ovo evoca. Ele ainda é, mas está para ser. Ele é o potencial de ruptura, mas não a ruptura em si. Ele é a potência, mas também uma materialidade própria, sem necessidade de maiores desdobramentos. Ele é prisão, mas também nascimento. Ele é confinamento, mas também possibilidade. O ovo é mistério, se você souber se aproximar.
Outra recorrência do percursivo expositivo foi o brilho — artificial, natural, sintético. A origem variada do brilho foi um destaque, para mim, da Bienal. Em trabalhos como de Madame Zo, de Madagascar, a tecelagem se inspirava em técnicas e padrões tradicionais malgaxes. As obras evocavam uma força política devido à sua capacidade de elaborar questões sobre temas ambientais e sociopolíticos.
Foi possível também notar uma ausência do rosto humano. Uma ênfase na abstração para se falar de humanidade, o que pode remeter ao que a curadora e pesquisadora Diane Lima diz sobre a tomada da abstração como uma estratégia de expressão como uma resposta à crise das políticas de representação e de um exercício de liberação cognitiva.

Ou seja, a Bienal conjugou a humanidade sem evocar de forma demasiada o pictórico, o que pode nos convidar a outras reflexões sobre identidade, em que de fato nos fazem olhar mais por uma via de semelhanças, sem que isso implique subtrair a subjetividade — muito pelo contrário.
A falta do corpo nas obras se presentifica. Enquanto, por outro lado, o público acionava seus corpos em presença. É o caso da instalação de Myriam Omar Awadi, em que microfones sem pessoas parecem esperar a chegada dos músicos. Das pinturas de Cynthia Hawkin. Da obra de Maxwell Alexandre, em que uma moldura vazia repousa sobre papel pardo, colocando a humanidade em questão, como prática. Ou então, a abstração do escritor e poeta Frankétienne que evoca um borrado colorido, um rosto-máscara que guarda mistérios ancestrais.
Uma instalação feita de objetos cotidianos descartados vale também destaque. O túnel de tampas de garrafa PET, escovas de dente, teclas de computador, elaborado pelo artista do Zimbábue, Moffat Takadiwa, proporcionou um mergulho em que o material opera como trampolim para dentro de diversas questões importantes. Além disso, o artista proporcionou uma interação divertida ao público.
Ouvir uma pintura é um gesto de encontro poderoso. Foi o que aconteceu com a instalaçao de Werewere Liking, pintora e intérprete teatral de Camarões, em que fones de ouvidos estavam conectados aos quadros pintados. Testemunhei diversos visitantes dançando afrobeats enquanto observavam as pinturas — um gesto subversivo, porque propõe uma outra abordagem do corpo em relação à arte. Pintar e dançar podem convergir? O corpo que observa precisa estar verticalizado, endurecido, tenso e silencioso? Trabalhos como esses nos oferecem alternativas de relação. O conceito da mostra deu ênfase à escuta como base estruturante de um novo pensamento sobre a humanidade.

Desejo de ser feliz
O ensaísta haitiano René Depestre fala de uma liberdade associada à felicidade. Ele diz, em uma “Consciência em flor para outros”: Meu desejo de ser feliz/ se deixasse por um instante de contar com o seu / imediatamente se transformaria em pó. A defesa da beleza me remete a uma série de exposições e artistas que também pisam no terreno de subversão pela luz.
Em 2023, os curadores Fabiana Moraes e Moacir dos Anjos apresentaram, na Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza, a mostra Negros na Piscina. A mostra teve como proposta imaginar um Brasil que ainda não existe na concretude das vivências cotidianas, já que atravessado por opressões de raça, classe, gênero, sexualidade, entre outros, que se entrelaçam e reproduzem uma estrutura que ceifa a vida da população negra, indígena e da comunidade LGBTQIA+. A exposição marcou-se por reunir artistas que se rebelam contra esta paisagem e propõem um convite para a perspectiva além das dores e do sofrimento.
Outro trabalho que toca em um chão semelhante é Relaxamento Afro, da gaúcha Silvana Rodrigues. Na obra de arte performática e visual ela ressignifica o termo, transformando um processo capilar agressivo em um ato de cuidado, pausa e pertencimento para pessoas negras, criando um espaço de afeto, memória e descanso através de lambes, fotos e intervenções coletivas, explorando a identidade racial através do corpo e do cabelo.
De volta à Bienal, esse “sim” à vida encontra eco na proposta de Dénètem Touam Bona, de pai centro-africano e mãe francesa, autor de Cosmopoéticas do refúgio. Ele fala em “resistências furtivas, nada frontais”, resistências que acontecem em “modo menor”, ou seja, que entendem a experiência poética enquanto modo de “apreensão do mundo como totalidade viva.” Bona defende uma reabilitação do sonho, da poesia, elementos que muito foram conjurados na 36ª Bienal de São Paulo.
A exposição também deslocou ao primeiro plano a questão das fronteiras. Dénètem Touam Bona propõe um pensamento de fuga e refúgio que abarca todos os viventes, não só os humanos. Em diálogo, a Bienal mostrou que não há pensamento possível sem contemplar outros seres e outras camadas, para além do mundo físico. Na mesma tessitura, opera o martinicano Édouard Glissant, na defesa da errância como elemento humanizador. Ou mesmo Lélia Gonzalez, que ao introduzir amefricanidade, crítica às estruturas raciais presentes até então e dialoga com modos de existência negros além da opressão, focando na vida e na potência negra.

Tempo curvo continua
“Nós não estamos fazendo nada de novo”, disse Bonaventure. O diálogo com edições anteriores da Bienal é interessante, porque nos mostra uma continuidade de discussões formais, estéticas e até mesmo conceituais. Se em 2023, Coreografias do impossível foi um grande marco ao estabelecer que 90% dos artistas fossem pessoas não-brancas, aqui também há a mesma preocupação. Entendo que a 35ª edição também abriu caminhos para que a edição de 2025 pudesse deslocar o olhar do público para outro lugar, inclusive dando sequência ao tempo espiralar, conceito de Leda Maria Martins, aprofundado na Bienal passada.
Houve também uma continuidade na defesa de uma recusa da necessidade de diferenciar os artistas pelos Estados-nações, uma vez que a curadoria entende a fronteira como um conceito fadado, colonizado. Além disso, também estabeleceu relação com a 27ª Bienal de São Paulo, de 2006, curada por Lisette Lagnado e a segunda Bienal da história, em 1953, conhecida como Bienal da Guernica, que tratava de urgências semelhantes e abordava a guerra vigente.
Bonaventure enfatizou que a publicação de uma Bienal não é apenas o catálogo, livro e registro da mostra. “O corpo pode ser uma publicação de arte, uma maneira de tornar uma exposição pública”, destacou. Se assim é, o último momento que vivi no Pavilhão Ciccillo Matarazzo deve ser registrado.
Às 18h, de um domingo, a edição da 36ª Bienal chegou ao fim. Apitos soaram e as equipes de mediação orientaram o público a deixar o espaço. Começa, então, um uníssono aplauso. Enquanto pessoas de todas as idades descem a marcante rampa branca do Pavilhão, os assovios altos inundam o lugar. Se as artes visuais, as galerias, os museus, demandam historicamente o código do corpo comportado e silencioso, ali se testemunhava, por outra via, uma Bienal do Barulho. Quando o público vibra, lembra também de que o fim (encerramento ou razão) de uma Bienal é mesmo o que move em nós, humanos. Em mim, arrepio.