Embora conhecida no senso comum por ser organizada e coordenada por padres da Companhia de Jesus a partir do início do século XVII, com o objetivo de catequizar os povos indígenas, a região das Missões é lugar sagrado que salvaguarda e mantém ativa a espiritualidade e a cultura Mbyá-Guarani.
Reconhecidas como sítio arqueológico do Brasil e como Patrimônio Mundial da Unesco há 40 anos, essas terras — também chamadas de reduções — ficaram marcadas pelo modo de vida nas quais comunidades indígenas eram obrigadas a viver sob orientação religiosa, produtiva e social dos missionários. Em 2014, também foi registrada como bem cultural pelo Iphan a Tava, lugar de referência para o povo Guarani, um processo importante para visibilizar o protagonismo indígena no sítio histórico.
Em maio de 2026, exatos 400 anos após a fundação das primeiras reduções jesuíticas no Brasil, o Nonada conversou com pesquisadores e professores indígenas da região missioneira para entender o que esse marco histórico representa a partir de suas próprias perspectivas, além dos impactos concretos do passado na vida contemporânea das comunidades. O processo histórico é complexo e envolve catequização, colonização, resistência indígena e profundas transformações sociais cujos efeitos se estendem até hoje.
O período deixou uma herança cultural forte no estado, sendo sempre contado nos livros e nas aulas de história da educação básica. Nas últimas décadas, o local se tornou um ponto de visitação de escolas e turistas, muitas vezes, como um símbolo da vida de jesuítas e guaranis. Há quem veja o período como uma das experiências mais bem-sucedidas de convivência entre brancos e indígenas. Mas a pergunta que fica é: o que os próprios povos originários da região pensam sobre o local? Quais são as vivências que orientam a narrativa sobre esse território?
Quem conta a história?
“Eu vejo as Missões quase como um campo de concentração”, afirma Bruno Ferreira, professor e historiador indígena. “Os jesuítas tinham o papel de impor a fé cristã e de domesticar para a escravidão. Isso precisa ser dito”, continua. De origem Kaingang, Bruno nasceu em Guarita, terra indígena com mais de 6 mil habitantes e 23 mil hectares no Noroeste do Rio Grande do Sul.
Durante a infância e juventude, ele nunca tinha ouvido falar sobre as Missões Jesuíticas. Foi conhecer a região apenas em 1994, durante uma das aulas da graduação em História na Unijuí. Ainda assim, o que aprendeu sobre esse período era pela visão dos colonizadores, relatando como eles viviam e lidavam com os povos originários. Nunca na perspectiva indígena.
Por muito tempo, as missões jesuíticas foram apresentadas como espaços de harmonia e organização social, uma espécie de experiência “civilizatória” conduzida por religiosos da Companhia de Jesus junto aos povos Guarani. Essa leitura é baseada nos registros dos jesuítas sobre a vida nas reduções, com descrições de igrejas, dormitórios, trabalho na agricultura e na pecuária, além de incentivo a produções artísticas.

Mas essa visão vem sendo cada vez mais questionada. Para Bruno Ferreira, há uma invisibilidade muito grande sobre o que de fato aconteceu nesses territórios. “As pessoas olham para as ruínas como uma coisa bonita, mas não conseguem enxergar todo um processo de extermínio, seja físico, linguístico ou cultural, que aconteceu ali”, afirma.
Na opinião do professor, as comemorações dos 400 anos das Missões Jesuíticas celebram, na verdade, as vitórias feitas pelos colonizadores sobre os indígenas: “Eles não estão preocupados em lembrar como os europeus construíram impérios utilizando a força dos Guaranis”. Bruno enfatiza que quando os indígenas são convidados a participar de eventos, muitas vezes é mais para legitimar o pensamento colonizador. Não é oferecido um espaço real para contar a sua história.
As críticas levantadas por Bruno vão ao encontro de uma ação do Ministério Público Federal que, em setembro de 2025, ajuizou uma ação civil pública contra o governo do Rio Grande do Sul pedindo a reestruturação do programa “400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis”. A iniciativa estadual previa um orçamento superior a R$50 milhões voltado à celebração do legado missioneiro.
Segundo o órgão, havia uma contradição entre o discurso oficial e a forma como o programa vinha sendo executado. Apesar de declarações públicas de que os povos originários estariam no centro das comemorações, a investigação aponta que a participação indígena ocorre de forma “meramente protocolar”, sem influência real nas decisões ou na definição dos projetos.
A desigualdade também aparece na distribuição dos recursos. De acordo com o MPF, apenas cerca de 0,6% do orçamento (aproximadamente R$330 mil) foi destinado diretamente às comunidades Guarani, para um espaço de comercialização de artesanato. A maior parte dos investimentos, superior a R$49 milhões, é voltada à infraestrutura turística e cultural da região.
Os eventos do programa “400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis” já estão em andamento e seguem até o final de 2026. Na lista de entidades participantes, entre diversas prefeituras, universidades e igreja católica, consta apenas uma organização indígena: Conselho Estadual do Povo Indígena (Cepi). O calendário oficial de eventos pode ser acessado aqui.

O impacto da Guerra Guaranítica na colonização do RS
Mais do que um projeto de evangelização, as Missões Jesuíticas também funcionaram como estratégia de ocupação e controle de território entre as coroas ibéricas na América do Sul. Segundo o historiador Julio Quevedo, em meados do século XVIII, cerca de 120 mil indígenas viviam em aproximadamente 30 povoados missioneiros entre Paraguai, Argentina e Brasil.
O Tratado de Madri (1750) foi um ponto de virada na história das Missões gaúchas. Como parte desse acordo, os espanhóis entregaram a região de Sete Povos das Missões para Portugal, obrigando seus moradores a abandonarem o local. A resistência de jesuítas e indígenas desencadeou a Guerra Guaranítica (1754–1756), que resultou em confrontos violentos, seguidos por dispersão forçada, mortes, epidemias e perda territorial.
Bruno Ferreira destaca esse evento histórico como um marco no avanço da colonização do Estado. “A ocupação mais intensa do território do Rio Grande do Sul no século XIX por paulistas e imigrantes alemães é uma consequência direta do que aconteceu ali”, afirma. Segundo ele, o esvaziamento populacional após a guerra abriu espaço para a expansão colonial em áreas que antes eram inacessíveis.
“A partir do século XIX, inicia-se o projeto de branqueamento, que considero o último estágio do extermínio”, diz Bruno. Entre as medidas que contribuíram para a invisibilização da vida e memória dos povos originários está a proibição das línguas indígenas, a separação de famílias e o apagamento de saberes tradicionais.
Mais de dois séculos depois, os efeitos desse processo ainda se fazem presentes no cotidiano das comunidades indígenas da região. O cacique Anildo Kuaray Romeu, que cresceu nas proximidades das ruínas de São Miguel das Missões, afirma que a invisibilidade também se manifesta na forma como o território é percebido hoje. “Quando as pessoas vêm até as Missões, elas querem ver as pedras, as estátuas, as ruínas. Elas não vêm ver que os povos indígenas ainda estão aqui”, diz.
Segundo ele, há uma desconexão entre o passado valorizado e o presente ignorado. Mesmo vivendo na região, muitos indígenas não são reconhecidos como parte desse território. “Muitas vezes a gente é visto como estrangeiro, como se tivesse vindo do Paraguai ou da Argentina. Mas, para nós, esse território é um só. Quem criou essas fronteiras foi o homem branco, não fomos nós”, afirma Kuaray.

Oralidade como estratégia
Mesmo diante de um histórico de episódios de apagamento cultural, as comunidades indígenas do Rio Grande do Sul resistem. Segundo o Censo do IBGE de 2022, atualmente são mais de 36 mil pessoas, de quatro etnias diferentes: Charrua, Kaingang, Mbyá-Guarani e Xokleng.
No passado, a resistência aconteceu por meio da luta armada, mas não somente. A oralidade também sempre foi uma estratégia presente na cultura dos povos indígenas como forma de fortalecimento. O cacique Anildo cresceu ouvindo histórias diferentes das que eram contadas fora da sua aldeia. “Os mais velhos sempre contaram como foi a luta para defender o território, como nossos antepassados resistiram. Mas essa história não é a mesma que a gente vê sendo contada pelos brancos”, explica.
De origem Guarani, Anildo hoje vive na aldeia Tekoá Pyaú, em Santo Ângelo, cidade da região missioneira. Segundo ele, a transmissão da memória acontece principalmente dentro das aldeias, de geração em geração. “Nós ensinamos os jovens a fortalecer a cultura, a língua guarani, a não deixar de ser indígena. É assim que nossa história continua viva”, afirma.
Assim como Bruno, Anildo aponta que ainda há pouco espaço para que essa narrativa seja ouvida fora das comunidades. “Muitas vezes falam das Missões, falam dos jesuítas, mas não falam dos guarani. E quando falam, não é a nossa versão”, diz.
A educação aparece como um dos principais caminhos para a criação de um espaço de outra narrativa. O professor indígena Genicio Borges Timóteo atua na aldeia Tekoá Pyaú, onde acompanha cerca de 18 alunos em turmas multisseriadas, do pré ao nono ano.
Para ele, iniciativas externas relacionadas às Missões muitas vezes não dialogam com as necessidades reais das comunidades. Sobre o marco dos 400 anos, ele afirma: “É uma data significativa para os brancos, mas para nós isso não traz mudança. A gente participa da programação, mostra o artesanato e o coral, mas isso é pouco”.
Genício destaca que a principal demanda está ligada às condições de vida e à valorização da cultura dentro do próprio território. “A gente precisa de mais estrutura na escola, na saúde, condições de cultivar a terra, de ensinar nossos jovens. Nossos costumes precisam ser respeitados”, diz.
Ele também aponta dificuldades práticas que impactam diretamente a autonomia das comunidades, como transporte e acesso a espaços para comercialização. “São coisas básicas que fazem diferença no dia a dia”, completa.

Tava, lugar sagrado
Para os Mbyá-Guarani, a região das Missões sempre foi sagrada, muito antes de serem construídas as reduções. Em 2014, o Iphan registrou como patrimônio cultural imaterial a Tava, localizada no sítio histórico de São Miguel das Missões. O registro ajuda a salvaguardar e proteger não apenas a memória guarani no local, mas também assegura a vivência cotidiana dos indígenas, incluindo seu direito à espiritualidade, artesanato, modo de vida e visões de mundo.
O Iphan ressalta esse protagonismo da descrição do sítio: “nesse local, os Guarani reconhecem os vestígios deixados por seus ancestrais que se tornaram imortais, segundo suas narrativas. As pedras, os caminhos e os gestos vivenciados nesse cotidiano são compreendidos como sinais que orientam a vida e mantêm ativa a relação com o sagrado. Ainda que marcados historicamente pelo processo de catequização, os Mbyá-Guarani vivenciam as Tavas a partir de suas próprias referências culturais e espirituais.”
Em 2014, o Iphan publicou o Plano de Salvaguarda do bem, elaborado a partir da escuta dos moradores Guarani da região, denominados detentores do bem cultural. O documento traçou um diagnóstico sociocultural e elencou recomendações para que o direito à salvaguarda da Tava seja assegurado. Um dos principais desafios mencionados pelos indígenas foi a falta de conhecimento da população juruá (não-indígena) em relação ao bem cultural. Muitos desconhecem que os indígenas têm direito a produzir seu artesanato e a vender na região, o que hoje é uma das principais fontes de renda das comunidades.
Segundo o plano de Salvaguarda, “os detentores pontuaram que seus antepassados não tiveram muitas oportunidades de diálogo com os juruá, e que muitas vezes as relações entre a sociedade ocidental e os povos indígena foram marcadas por processos de dominação e resistência. Citaram casos de violência contra o povo Guarani em estados brasileiros como o Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.” Outra consequência desse desconhecimento é o fato de que “o Estado colonial”, segundo eles, deseje que os Guarani façam parte do mundo ocidetal de forma subordinada, desrespeitando seu modo de vida tradicional. Por isso, além de ações de conscientização junto à população local, o Iphan também recomenda que o poder público apoie a confecção de uma pequena Opy (Casa de Reza Guarani) na Tava/ Sítio Histórico São Miguel Arcanjo.
O fazer também vem sendo ameaçado pela destruição das matas e pelo avanço do agronegócio no território. “Os detentores também enfatizaram que o desmatamento está cada vez mais acentuado na região Noroeste do estado do Rio Grande do Sul, onde está situada a Tava, e que por isso os Guarani têm encontrado grandes dificuldades de acessar matéria prima para o artesanato e outros insumos. Informaram que a taquara (Guadua chacoensis), por exemplo, é uma espécie muito difícil de cultivar e produzir o seu plantio em larga escala. Além disso, algumas espécies como a corticeira (Erythrina crista-galli) estão cada vez mais escassas”, diz o documento.
Um dos pedidos dos detentores foi que agentes públicos do município pudessem acompanhar os indígenas na colheita da matéria-prima para o artesanato e também de plantas e ervas medicinais. Esse apoio técnico evitaria conflitos com os proprietários das fazendas, dizem os indígenas.

Antes de celebrar, questionar
Após a formação em História, Bruno Ferreira concluiu o mestrado e o doutorado em Educação e se tornou o primeiro doutor indígena da UFRGS. Entre 2005 e 2010, participou de um projeto voltado à capacitação de educadores não indígenas das cidades do Noroeste gaúcho, com foco na cultura, na língua e na história de povos como os Guarani e os Kaingang. O objetivo era ampliar o entendimento de professores sobre a presença e a diversidade dos povos indígenas na região missioneira.
Segundo ele, o desconhecimento ainda é profundo. “Tinha município onde as pessoas não sabiam nem a diferença entre Guarani e Kaingang”, relata. Para o professor, esse distanciamento reforça uma lógica histórica de apagamento. Mais do que revisitar o passado, como está sendo feito neste ano através das celebrações, Bruno defende que é preciso questionar as próprias ideias que sustentam a forma como a história sobre o território foi construída. “Nós precisamos questionar essa ideia de civilização”, diz.
Na visão dele, os modos de vida indígenas carregam valores que seguem sendo desconsiderados, mas que podem apontar caminhos para o futuro. “Para nós, a cidade é o lugar mais ‘selvagem’ que existe. Já as comunidades indígenas são altamente organizadas, solidárias e equilibradas. Se um tem fome, todos têm. Se um tem algo, todos compartilham”, afirma.
Em meio a séculos de violência, apagamento e disputa por território, ele reafirma na permanência desses modos de vida uma forma de resistência e caminhos para o futuro de todos. “Compreender os povos indígenas hoje é também pensar na sobrevivência do planeta”, conclui.