Com sotaque próprio, Ballroom em Salvador subverte o sistema através da arte LGBTQIA+ 

Bailes e houses como a House of Tremme e a Casa Criola tem movimentado as estruturas com destaque e protagonismo dos artistas LGBTQIA+
Foto: @jojocomdende/House of Tremme

Salvador (BA) — Em dezembro de 2023, quando Beyoncé participou do evento “Clube Renaissance” realizado no Centro de Convenções de Salvador, houve muitas tentativas de justificar porque a diva pop escolheu a capital baiana como a única cidade da América Latina a receber a sua visita. 

A coreógrafa e bailarina Lunna Montty (Foto: @ti.marinho)

Por ser a cidade com a maior população negra fora do continente africano, por ter sido a cidade brasileira escolhida por Michael Jackson para a gravação do clipe “They Don’t Care About Us” em 1996, foram alguns das alegações que fundamentaram aquele que foi um dos maiores acontecimentos para os artistas de Salvador.  Mas há ainda outra razão para a vinda da superstar: o crescimento da cultura Ballroom no cenário artístico da cidade, que vem se fortalecendo cada vez mais. 

Bailarina, coreógrafa, modelo e DJ, a baiana Lunna Montty se tornou uma grande referência nacional da cultura Ballroom. Lunna iniciou sua trajetória na dança com 16 anos quando começou a integrar o Afrobapho, um coletivo artístico, político e cultural criado por jovens negros de Salvador que promove, desde 2014, a valorização da estética negra, periférica e queer através da música, da dança, da moda e do audiovisual.  “O Afrobapho foi uma verdadeira porta de entrada para mim. Foi lá que eu passei a entender minha relação com a arte e também me entender enquanto uma mulher travesti. Foi no Afrobapho também que eu tive contato com a Ballroom, foi o primeiro coletivo a falar sobre isso”, contou Lunna, agora coreógrafa do Afrobapho. 

“Em 2019, eu fui a primeira pessoa a viajar para fora de Salvador para participar de uma Ballroom em outro estado, em Minas Gerais, e foi a partir daí que eu desenvolvi o interesse em me aprofundar mais na cultura Ballroom, em estudar mesmo e tomei isso como um projeto”, revelou a bailarina. 

Os anos em que se dedicou aos estudos da cultura ballroom renderam bons frutos para Lunna Montty. Uma das pioneiras e protagonistas da cena artística de Salvador, a coreógrafa foi escolhida para ser a DJ e uma das curadoras do Clube Renaissance em Salvador. “Eu recebi o convite por uma pessoa da IDW [empresa responsável pelo evento] e eu não podia contar nada para ninguém, era confidencial. E eu não conseguia acreditar que a Beyoncé viria mesmo. Mas ela não só veio como foi ela quem me anunciou no palco e falou comigo. Às vezes eu nem acredito, parece um sonho”, relembra a artista emocionada. Em seus mais de 10 anos de carreira, Montty já desfilou na São Paulo Fashion Week e já performou com artistas nacionais como Gloria Groove e Iza. 

Coletivo Afrobapho (Foto: reprodução)

A artista reforça que em cada estado e cidade do Brasil a cultura ballroom dialoga com expressões musicais locais. “A Ballroom é única em cada lugar porque ela se conecta com a cultura da cidade e a Ballroom Salvador tem axé. A ballroom foi criada por pessoas pretas e nós estamos no lugar mais preto fora da África, isso faz a diferença. Aqui em Salvador tem muita influência do Pagodão, por exemplo, enquanto em Recife tem o Bregafunk”. 

O primeiro grande baile

Foto: @jojocomdende

“A Ballroom surgiu em Nova York, no final da década de 60. Ela foi fundada por pessoas negras, latinas, periféricas, trans, travestis, gays, e indígenas, nascendo na transição entre o fim da era disco e o início da cultura da house music, explica Filipe Moreira, também conhecido como Lip Moreira ou Papi Lip Tremme. 

Também pioneiro da cultura ballroom em Salvador, Lip foi responsável por organizar o primeiro baile da cidade, que aconteceu em janeiro de 2020. Intitulado como “Baile Banzé”, o evento foi realizado por Lip junto com o seu parceiro Caíque Melo. 

A produção do primeiro baile oficial foi realizada após a conclusão de um mês de atividades que incluíram um curso de férias com aulas de Vogue ministrado por Caíque na escola de dança da Fundação Cultural da Bahia. O evento aconteceu no pátio da residência da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Corredor da Vitória, localizado na Avenida Sete, em Salvador. 

“A gente estava numa vibe, num feeling, querendo fazer acontecer, querendo uma plataforma. Éramos artistas, e aqui em Salvador é muito difícil fazer tudo de forma independente. E aí a gente pensou assim, ‘não tem palco para dançar, não tem nada para produzir, mas a gente já tem um babado diferente aqui, vamos fazer?’ E aí a gente fez. E foi chocante chegar na primeira edição e ver mais de 200 pessoas esperando pelo baile”, conta Lip Moreira, lembrando que o evento já teve mais de 20 edições desde então. 

A realização do Baile Banzé também marca a oficialização da abertura da House Of Treme, conhecida como a primeira house de Salvador. De acordo com Filipe Moreira, atualmente a cena ballroom da cidade tem crescido e ganhado notoriedade e conta com a existência de 8 a 10 houses que realizam produções cada vez mais grandiosas e inseridas no mercado artístico, embora ainda falte investimento que viabilize a sustentabilidade dos artistas e de suas produções. 

Edição do Baile Banzé (Foto: @jojocomdende/ House of Tremme)

“Tem muitos perrengues, porque quando a gente fala de ballroom, a gente fala de uma comunidade produzida, alimentada, construída por corpos marginalizados em diversas instâncias. Então existem muitas feridas sociais ali. Não é fácil fazer parte da ballroom. Ela é uma comunidade cheia de demandas, cheia de detalhes”, conta o performer e produtor cultural. 

Filipe Moreira passou a estudar e se aprofundar na cultura ballroom através do contato com seu companheiro Caique Melo. Nesse contexto, a Fundação e a UFBA, instituições públicas de ensino, tiveram um papel importante enquanto lugares que possibilitaram a mobilização e o incentivo do aprendizado da cultura ballroom, em uma forte ligação a estudos de dança sobre o Vogue. Devido à dificuldade de encontrar palcos e suporte em Salvador, a universidade ofereceu o espaço físico para os primeiros passos da cena. “Foram lugares onde nós nos sentimos seguros”, conta Filipe Moreira. 

No entanto, Lunna Montty reforça que a universidade foi um ponto de encontro e fomento de uma cultura que nasceu e se fortaleceu nas ruas e nas periferias: “a minha vida em dança não é um lugar acadêmico, apesar de já ter participado de algumas formações. O meu lugar na dança veio da favela e meu conhecimento da Ballroom veio de uma pesquisa realizada também nas ruas, na comunidade”. 

Um espaço político de acolhimento 

A produtora Nola Criola (Foto: @joaomoraisph)

Na história da cultura ballroom, as houses significavam literalmente espaços físicos de acolhimento para pessoas marginalizadas, sobretudo para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social. No contexto atual brasileiro, essas casas não significam necessariamente um espaço físico, mas sim um núcleo familiar, como explica Nola Criola, performer, Dj, produtora e mother da Casa Criola: “O ideal de casa dentro da Ballroom é um núcleo familiar que você escolhe. É um núcleo familiar que você constrói a partir das ausências que você sente na sua vida pessoal”. 

“A Casa Criola, por exemplo, nasceu porque uma pessoa trans me procurou querendo acolhimento. Minha primeira ‘filha’, Isabela, disse que enquanto uma pessoa trans precisava de uma mãe que a orientasse e que ela sentia que eu poderia ser essa mãe. Depois dela vieram outras pessoas”, contou Nola. 

A artista Lunna Montty também é mother na House Of Montenegro e conta que criou a casa para transmitir para outras pessoas a boa relação que ela tem com a própria mãe: “infelizmente nós temos uma realidade muito dura onde pessoas LGBTQIA+, principalmente pessoas trans, sofrem muito com abandono e violência, mas comigo não foi assim, eu tenho uma relação maravilhosa com a minha mãe e eu quero ser para os meus filhos e filhas como ela é comigo”. 

O verbo “maternar” significa exercer o papel de mãe desenvolvendo assim as funções de cuidar, acolher, proteger e também educar de forma responsável e afetiva. Com isso, ao assumir a responsabilidade de se tornar mãe na cultura ballroom essas pessoas se tornam responsáveis por realizar transformações na vida de diversas pessoas. E essa  transformação também passa pelo incentivo ao talento. Os membros das houses se retroalimentam artisticamente, aprendendo novas habilidades, à exemplo disso está o fato de todos os membros da Casa Criola terem aprendido a tocar, se tornado DJs. “Eu sempre permiti e incentivei que meus filhos e filhas desenvolvessem múltiplas habilidades artísticas para que assim eles pudessem ter um sustento também, por isso ensinei todos a serem DJs”, conta Nola Criola. 

A Casa Criola é especializada em categorias de estética, como moda e desfile, utilizando a arte como ferramenta de afirmação política para pessoas negras e LGBTQAPN+. Com isso, a cultura Ballroom dentro da Casa Criola atua como um motor para que corpos marginalizados acreditem em si mesmos. Ao conquistarem prêmios e títulos de liderança, os membros percebem que são merecedores de mérito e capazes de coordenar projetos grandiosos, algo que muitas vezes lhes é negado pela sociedade, como reforça Nola: “Eu sinto que por muito tempo a sociedade não nos apoiou e nos invisibilizou, mas eu também sinto que agora a gente está tendo uma visibilidade interessante, principalmente nos últimos anos, e isso está muito relacionado à popularização do Vogue por grandes artistas pop como Beyoncé”. 

Mesmo com a crescente projeção nacional e internacional da cultura ballroom, artistas da cena destacam que a falta de investimentos ainda compromete a sustentabilidade dos bailes e das atividades promovidas pelas houses. 

“Tudo é feito de forma muito independente e não tem ninguém fazendo dinheiro ou enriquecendo com a cultura ballroom, a luta é árdua. De vez em quando, aparece um evento ali, um patrocínio, mas mesmo assim nada que consiga pagar o salário de um performer. Por exemplo, a House Of Tremme teve a oportunidade de participar do Caldeirão do Mion e ganhar um prêmio de dez mil reais, mas quase todo o dinheiro foi gasto na própria viagem”, conta Lip Moreira. 

O artista afirmou ainda que o mercado artístico em Salvador é muito nichado e as instituições têm dificuldade de reconhecer a potência artística do movimento quando ele está fora do “campo de visão” tradicional. “É muito difícil conseguir participar de festivais, mesmo os de música, e eu fico pensando que a ballroom poderia estar em tantos lugares, produzindo tanta coisa interessante, mas infelizmente ainda não investem”, concluiu Moreira. 

“Atualmente para fazer eventos a gente realiza uma vaquinha ou procura algumas marcas que queiram nos patrocinar ou apoiar, mas geralmente a gente conta com o apoio de amigos próximos mesmo para fazer acontecer”, relata Nola Criola. 

Mesmo diante das dificuldades financeiras, os artistas da cena ballroom continuam promovendo diversos bailes ao longo do ano, a grande maioria realizados de forma independente com o custeio feito pelos próprios membros da house. “Eu acho que o nosso diferencial é a nossa visceralidade. A gente é muito do corpo, da alma e a gente coloca toda nossa ancestralidade no nosso fazer artístico. Nós entendemos os nossos caminhos e buscamos trazer o máximo de referências possíveis e a ballroom reflete isso”, conclui Nola Criola. 

Como a cultura ballroom se consolidou historicamente

O sistema de casas (houses) começou com mulheres trans que assumiam o papel de “mães” (mothers) para figuras marginalizadas, como jovens LGBTQIA+ expulsos de casa ou em situação de rua. No início, essas comunidades dividiam aluguéis e se sustentavam por meio de trabalhos artísticos e, frequentemente, pela prostituição. O movimento se tornou um epicentro da moda underground e influenciou grandes passarelas e artistas mundiais. Musicalmente, desenvolveu ritmos próprios como o vogue, utilizando cânticos (chants) para ditar a dinâmica das batalhas na pista. 

Elementos centrais da cultura ballroom: 

Vogue: É o grande fenômeno de dança associado à cultura, atualmente presente em palcos globais e expressões musicais de grandes artistas. 

Hierarquia e Títulos: A comunidade é um campo social ancestral baseado na oralidade, possuindo um sistema hierárquico de títulos conforme a contribuição e o tempo de cena: Stars (estrelas), Statements (afirmações), Legends (lendas) e Icons (ícones).

As Houses: Funcionam como famílias escolhidas onde as lideranças (mães/mothers e pais/fathers) possuem compromisso com o bem-estar e o desenvolvimento das “filhas” e “filhos”, negociando espaços receptivos e suporte emocional e profissional.

“A Ballroom é um estilo de vida que cria uma rede social muito forte. É onde uma produção artística profissional desemboca em diversos lugares porque a ballroom é um movimento integrado. Nós somos um sistema de casas, um sistema de acolhimento liderado geralmente por mulheres trans e travestis e homens gays negros”, conta Lip Moreira. 

O movimento também atua politicamente ao naturalizar debates sobre o sexo e saúde pública. Eventos como a The Sex Ball oferecem informações e testes rápidos de saúde, combatendo preconceitos e estigmas associados aos corpos da comunidade LGTQIA+, inclusive para pessoas que trabalham com sexo. “Um dos nossos compromissos é cuidar da saúde das pessoas que fazem parte da ballroom e nós entendemos que precisamos quebrar os preconceitos e começar a falar sobre sexo porque ainda é um estigma até mesmo dentro da nossa comunidade”, reforça Moreira. 

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