Inventário do Iphan aponta Igrejas neopentecostais e madeireiros como principais ameaças para línguas indígenas

Nonada analisou dados de 23 línguas presentes na plataforma, das quais duas estão desaparecendo
Aldeia Amba-Porã, em São Paulo (Foto: Iphan/divulgação)

Segundo informações obtidas no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), realizado pelo Iphan, a maior ameaça para as línguas indígenas são madeireiros, por meio da corrupção de indígenas a partir do uso de drogas e da divisão das comunidades, igrejas evangélicas pentecostais e organizações cristãs não vinculadas a igrejas, através da catequização, do desencorajamento de festas tradicionais em detrimento de atividades sociais cristãs e da interferência na educação escolar das comunidades indígenas por meio de cartilhas de alfabetização. 

O Nonada analisou dados de 23 línguas cujos inventários sociolinguísticos estão presentes em uma plataforma inédita lançada pelo Iphan e verificou que 2 estão desaparecendo (Kawahiba do povo Karipuna e Oro Win, de Rondônia), 7 possuem grau severo de ameaça de extinção (Sakurabiat, Kawahiba do povo Amondawa, Salamãi, Latundê, Kwazá e Aikanã, de Rondônia, e Asuriní do Trocará, do Pará), 2 estão ameaçadas (Wari’, de Rondônia e Yorùbá, Rio de Janeiro), 7 estão vulneráveis (Talian, de diferentes estados das regiões Sudeste e Sul, Kalapalo, Nahukwa, Kuikuro, Karo, Karitiana e Matipu, faladas em Rondônia e no Alto Xingu) e 4 possuem grau forte de vitalidade (Paiter, do Alto Xingu, Guarani Mbya e Hunsrückisch, de diferentes estados das regiões Sudeste e Sul, e Libras, de todos os estados brasileiros). A avaliação de vitalidade da língua indígena Kawahiba do povo Uru-Eu-Wau-Wau, de Rondônia, ainda não foi disponibilizada no site. Do conjunto, apenas a LIBRAS, o Talian e o Hunsrückisch não são originárias.

A plataforma do INDL foi lançada na última semana como forma de promover engajamento comunitário e incentivar pesquisas sociolinguísticas sobre as dinâmicas de uso e preservação das línguas faladas no Brasil. Instituído pelo Decreto Nº 7.387, de 9 de dezembro de 2010, o INDL é o instrumento oficial de identificação, documentação, reconhecimento e valorização das línguas faladas pelos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Os inventários são elaborados em conjunto com lideranças dos respectivos povos falantes de cada idioma. O Iphan estima que mais de 250 línguas diferentes sejam faladas no Brasil.

A plataformização do inventário é uma maneira de aproximar as comunidades de suas próprias culturas linguísticas, “contribuindo para seu fortalecimento enquanto gestoras do seu próprio patrimônio cultural”. Além de dados históricos, culturais e geográficos de cada língua, a plataforma também aponta o grau de vitalidade e as principais ameaças aos falantes.

Madeireiros e casamentos com não-indígenas

Os madeireiros da região de Bandeirantes e Buriti, em Rondônia, são o principal grupo que ameaça a vitalidade da língua Kawahiba, do povo Karipuna, através da extração ilegal de madeira da T.I de Karipuna, ameaçando a tranquilidade e a sobrevivência dos Karipuna. A pesquisa sociolinguística identificou que os Karipuna possuem apenas 10 falantes da língua, cuja transmissão está interrompida e o grau de vitalidade é de desaparecimento.

“Nenhuma criança aprendeu [a língua], e os jovens de até 23 anos já não a praticam constantemente devido ao seu maior contato com os não indígenas. A cultura verbal, em geral, como cantos, danças etc. já não tem sua manutenção realizada”, diz o relatório. A pesquisa identificou que a união conjugal do povo Karipuna com não-indígenas “tem sido um fator preponderante na obsolescência da língua dos Karipuna. Os filhos gerados dessas uniões não aprendem a língua dos pais ou mães Karipuna, mas tão somente o Português”. 

Aldeia Mbyá-Guarani em São Paulo (Foto: Iphan/divulgação)

Madeireiros não identificados ameaçam a língua Salamãi, de Rondônia, à medida que “pagam um pouco de dinheiro para extração ilegal de madeira, mas estragam a floresta, trazem bebidas alcoólicas e drogas, corrompem os indígenas, dividem as comunidades”. O relatório sociolinguístico da língua aponta que a língua é lembrada por apenas duas falantes já idosas, “Dona Peridalva na T.I. Tubarão-Latundê e Dona Maria na cidade de Porto Velho. Essas senhoras não mais têm usado a língua desde sua mocidade, aos 15 anos, aproximadamente”. 

Questões culturais, como a ausência de instrumentos e políticas para incentivar a presença da língua na comunidade frente ao avanço do Português, também estão presentes na plataforma. A língua Kawahiba do povo Amondawa, de Rondônia, está classificada como severamente ameaçada, devido à baixa presença de falantes. 

“Como mostra o diagnóstico de proficiência dos falantes, dos 126 Amondawa, 45 não falam a língua, o que representa 35,71% da comunidade linguística. Também é de se notar a predominância do português na escola. A dificuldade é ainda maior para os professores indígenas, pois não há material didático na língua, diferentemente do português, que tem vários livros didáticos à disposição e que sempre chegam à escola a cada ano”, diz a publicação. 

A avaliação de vitalidade da língua Wari’, de Rondônia, explica que o principal fator negativo na vitalidade da língua “é a expansão do uso do português nas aldeias, tanto em novos contextos (escola, saúde, internet) quanto em situações de casamentos interétnicos, que, devido à maior integração dos povos indígenas de diferentes etnias da região em situações educativas e político-sociais, está crescente em muitas aldeias. Também se observa pouco espaço social para o uso da língua em situações urbanas”. 

A respeito da língua Oro Win, Rondônia, a principal razão para o seu desaparecimento é “o rompimento da transmissão da língua na época do seringal e as ações subsequentes do governo em relação aos Oro Win, especialmente a falta de apoio na expulsão imediata dos seringueiros de seu território e o restabelecimento de comunidades indígenas Oro Win no seu território tradicional”. 

Atuação das igrejas e organizações missionárias

A igreja que mais incide no INDL como ameaça apontada no documento é a Igreja Universal do Reino de Deus, através do grupo Jovens com Uma Missão. Povos Matipu residentes de Canarana e Gaúcha do Norte, no Mato Grosso, frequentam cultos religiosos da igreja ou de outras igrejas pentecostais presentes no território. O grau de vitalidade da língua é vulnerável. Segundo sua avaliação, o contato cada vez mais intenso da língua com missionários evangélicos é um dos fatores para o seu enfraquecimento.

Segundo as pesquisas do inventário da língua Matipu, do Alto Xingu, a missão evangélica da igreja Universal atua nessas cidades “recebendo e remunerando indígenas com a finalidade de traduzir a bíblia e textos evangélicos para a língua indígena”. Segundo o INDL, a instituição também envolve professores indígenas na produção de cartilhas de alfabetização para interferir na educação escolar indígena junto à Secretaria Municipal de Educação do município de Gaúcha do Norte.  Além da língua Matipu, os dados apontam que a Igreja Universal do Reino de Deus também ameaça as línguas indígenas Kalapalo, Nahukwa e Kuikuro, do Parque Indígena do Xingu, todas em estado de vulnerabilidade. 

Aldeia Latundê (Foto: Iphan/divulgação)

As organizações missionárias não vinculadas a igrejas específicas que ameaçam línguas indígenas são a Summer Institute of Linguistics (SIL), integrante de um grupo missionário dos Estados Unidos que no fim do século passado foi responsável por 80% dos programas de tradução bíblica para línguas não-européias, e a organização Missão Novas Tribos do Brasil, agência missionária evangélica norte-americana que também atua na tradução da bíblia e na construção de igrejas em comunidades indígenas isoladas e de difícil acesso. 

A língua indígena Paiter, do povo Paiter que originalmente residia no Mato Grosso, é o principal alvo da SIL, segundo o documento. O INDL aponta a existência de várias igrejas nas aldeias e cantos cristãos na língua Paiter de autoria indígena. O inventário sociolinguístico da língua também indica que “houve mudança na transcrição da língua, criando certa confusão”. 

Atualmente, festas cristãs ocorrem no território Paiter, ocupando o espaço de festas tradicionais entre tribos vizinhas, como a Gavião, a Zoró e a própria Paiter. Embora a SIL não esteja mais presente no território, ainda impacta nas tradições e na cultura indígena a partir de sua tradução bíblica. A Missão Novas Tribos trabalha numa tradução do Novo Testamento para a língua. 

Apesar do contexto, a língua possui grau de vitalidade forte. Isso ocorre porque os Paiter que residem na Terra Indígena (T.I) Sete de Setembro (território entre Mato Grosso e Rondônia, habitado por cerca de 1.200 indígenas Suruí) “continuam a comunicar-se em Paiter em todas as situações da vida diária, estando o português restrito a contatos com não-indígenas ou pelo menos não-Paiter”. As crianças criadas dentro da T.I adotam o Paiter como língua mãe.

Fora a língua Paiter, a Missão Novas Tribos também atua em comunidades onde as línguas indígenas Wari’ e Oro Win são faladas, em Rondônia. Como ações prejudiciais à língua, o INDL cita cultos e pregação evangélica dentro das comunidades, gerando desprestígio das tradições e cultura local. 

O que é o INDL

Arte: Iphan/reprodução

Segundo o Iphan, o inventário “é resultado de uma intensa mobilização de setores da sociedade civil e governamentais interessados em mudar esse cenário. Ele é o instrumento oficial de identificação, documentação, reconhecimento e valorização das línguas faladas pelos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.”

O INDL agrupa as línguas faladas no Brasil em cinco eixos diferentes: línguas indígenas, de imigração, de sinais, afro-brasileiras e línguas crioulas. Nem todas as línguas presentes na plataforma estão inventariadas. Desde o surgimento do INDL, em 2010, 7 línguas que corriam risco de extinção foram registradas no Inventário. As  demais, a exemplo da língua indígena Wari’, da língua afro-brasileira Yourùbá e da língua de sinais Libras aguardam a inclusão no inventário. 

Até o momento, o Iphan já disponibilizou na plataforma o inventário sociolinguístico de 23 línguas. Além das línguas que constam no site, foram inventariadas outras seis línguas indígenas da família yanomami. Também foram inventariadas as línguas indígenas Wapichana, de Roraima, Hatxa Kui, do Acre, e a língua de imigração Pomerana, de comunidades do Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rondônia e Minas Gerais. Essas línguas aguardam anuência das comunidades linguísticas envolvidas nos processos de pesquisa para constarem na plataforma. 

Estão em fase de desenvolvimento inventários das línguas Kheuól Karipuna, Kheuól Galibi-Marworno, Parikwaki e Kali’na, da Região do Oiapoque, no Amapá; da Língua Medzeniako, dos povos Baniwa-Koripako, do Amazonas; da Língua A’uwẽ uptabi, do povo Xavante, do Mato Grosso; da Língua Polonesa/Polaca (do RS, SC, PR e ES); das Línguas Karib do Tumucumaque, do Pará e do Amapá; e o Inventário de Falares Afro-brasileiros de origem bantu, que traz os cânticos do Vissungo, de Minas Gerais. 

Cada uma das línguas presentes no site do INDL contém informações sobre a identificação da pesquisa, sua caracterização territorial, comunidade linguística, diagnóstico linguístico e avaliação de vitalidade, que mede o grau de ameaça sofrida pelas línguas e lista ações de revitalização e promoção das mesmas. 

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