Laura Galli e Thaís Seganfredo
Fotos: Desirée Ferreira

Fazia alguns dias que Eric não ia à escola. Sempre acompanhado de seu chapéu de palha, o menino estava preferindo ir com o pai à roça e ajudar a avó a pegar lenha a encontrar seus amigos na cidade interiorana de Antônio Prado, na serra gaúcha. Não fazia sentido ir à aula, porque seus colegas não entendiam o que ele falava. Eric só sabia falar Talian, variação da Língua Italiana que ele cresceu ouvindo na casa dos avós, agricultores familiares. Foi a professora Maria Inês Chilanti que o incentivou a voltar, porque falava com ele no idioma. “Os colegas ficavam admirados de ele saber falar da mesma maneira que a professora estava ensinando”, conta Maria Inês, que trabalha o Talian nas suas aulas há cerca de 10 anos, incentivando os jovens a manter a tradição. 

Eric, agora com 13 anos e bilíngue, é um dos falantes que participam do projeto Sons do Sul – uma cartografia linguística, uma espécie de “sonário” com áudios de sete línguas presentes no Rio Grande do Sul e em outros estados do país: Língua Pomerana, Talian, Polonês, Guarani, Iorubá, Japonês e Kaingang, além de entrevistas em vídeo sobre as diferentes culturas que circunscrevem cada idioma. O projeto é idealizado pela Riobaldo Conteúdo Cultural, agência de conteúdo do Nonada Jornalismo, e foi realizado através de entrevistas com diversos falantes de Porto Alegre e do interior do estado.

Eric só falava Talian quando começou a estudar, até aprender português e se tornar bilíngue (Foto: Desirée Ferreira)

O epicentro da iniciativa é a diversidade linguística do Brasil, formada por mais de 300 línguas faladas em todo o território. Como o Nonada abordou nesta reportagem, esse conjunto de saberes não se refere apenas a sons e fonemas, mas também faz parte do mosaico de culturas do Brasil. “A língua guarani, por exemplo, tem certas denominações específicas para cores, além de outras características. Então os guaranis designam o mundo e o veem de um jeito que eu, como não-falante da língua, não enxergo”, ilustra o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Cléo Vilson Altenhofen, doutor em Germanística pela Johannes Gutenberg-Universität de Mainz (Alemanha) e um dos principais pesquisadores da área no Brasil. 

O avanço na valorização e na salvaguarda dessas línguas (atualmente, 190 idiomas falados no Brasil correm risco de extinção, segundo a Unesco), esbarra na falta de políticas públicas. Segundo Marcus Vinicius Carvalho Garcia, chefe da Divisão técnica da Diversidade Linguística no Iphan, desde 2010, apenas R$ 2,8 milhões foram destinados à realização de inventários sociolinguísticos, eventos, projetos e publicações  à diversidade linguística. A informação foi obtida pela reportagem via Lei de Acesso à Informação. “Precisamos urgentemente documentar, reconhecer, salvaguardar e promover o estudo e revitalização deste patrimônio cultural imaterial. Infelizmente podemos contar nos dedos as línguas em segurança, muitas estão moribundas e entregues à própria sorte. Há muito por fazer”, lamenta o professor.

Com recursos escassos, institutos e universidades têm se dedicado a inventariar de forma independente alguns desses idiomas falados no país, que depois do estudo, podem ser registrados pelo Iphan como bens culturais. Até 2021, sete línguas já foram reconhecidas oficialmente pelo Iphan como patrimônio cultural: a língua Asurini, cujos falantes habitam a Terra Indígena Trocará, em Tucuruí (PA), a língua Guarani M’bya, identificada como uma das três variedades modernas da língua Guarani, as línguas Nahukuá, Matipu, Kuikuro e Kalapalo, falada na região do Alto Xingu (MT), e o Talian, presente no interior dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e Espírito Santo. 

Assim como Eric, falantes de diferentes línguas de imigração vivem um resgate desses idiomas, através de iniciativas culturais ou da educação. É o caso dos Pomeranos, hoje reconhecidos como integrantes da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, junto aos povos indígenas, quilombolas e ciganos, por exemplo. Integrando a a agricultura familiar às tradições, os pomeranos vivem hoje principalmente no Espírito Santo e na região do pampa gaúcho

O interior de São Lourenço do Sul, região sul do estado, abriga uma comunidade pomerana que chegou ao local a partir do final do século 19. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a maior parte do território da Pomerânia foi anexada à Polônia, o que causou a quase extinção do idioma no continente europeu. As consequências foram sentidas no Brasil, impactado também pela proibição de uso de línguas estrangeiras na era Vargas. Nesse processo, alguns pomeranos se perderam da língua originária, outros a cultivaram nas suas comunidades. 

“Quando entrei no colégio, eu não sabia falar português e não podia falar nem na estrada, então aprendemos português”, relata Hilmar Bubolz, dono de uma pequena agroindústria de produtos coloniais de origem pomerana. Segundo ele, o reconhecimento dos pomeranos como comunidade tradicional do Brasil melhorou a autoestima da comunidade, que impulsionou também o turismo baseado nessa cultura através do Caminho Pomerano, roteiro turístico promovido pela prefeitura.

Denise Bartz trabalha na loja de ervas medicinais da fitoterapeuta Inês Klug, estabelecimento que faz parte do roteiro. Ela conta que a língua Pomerana é ensinada tanto na família como nas escolas locais. “Hoje em dia, o pai e a mãe insistem em ensinar as crianças para não perder a raiz. No colégio, as professoras incentivam, algumas se lembram da cultura pomerana, então continuam falando todos os dias”, diz.  “As pessoas, tempos atrás, tinham vergonha de falar o pomerano. Hoje, mais ninguém tem vergonha. Foi muito importante esse resgate”, comemora Hilmar.

Denise Bartz é pomerana, identidade reconhecida como comunidade tradicional do Brasil (Foto: Desirée Ferreira)

Enquanto a valorização das línguas de imigração no Brasil auxilia no empoderamento social e econômico dos falantes, a situação dos falantes de línguas indígenas é outra, na medida em que muitos povos indígenas ainda lutam pelo reconhecimento e demarcação de seus próprios territórios. 

O povo Kaingang, habitante principalmente de terras de planalto do Norte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, vem lutando pelo direito à terra. As diferentes comunidades podem ter variações linguísticas entre si, mas buscam  valorizar o uso da língua materna como um elemento importante, politicamente, para afirmar a legitimidade de suas lutas pela terra. É o que explica o Kaingang Arão Carvalho, uma das lideranças  da aldeia Goj-Jur, nome que significa “rio nascente”. A aldeia fica atrás da rodoviária do município de Passo Fundo, em um antigo terreno baldio cedido para uma comunidade Kaingang que havia sido expulsa de uma área próxima.

Na retomada Goj-Jur, a reportagem conversou com Carvalho sobre a preservação do idioma Kaingang e a luta pela terra. As famílias da Goj-Jur se comunicam tanto em Kaingang quanto em português, mas ele reforça que a manutenção da cultura passa necessariamente pela demarcação das terras. “Para nós a língua é muito importante, a nossa língua quer dizer a nossa cultura, o que a gente fala, o que a gente vive. Mas está difícil manter a cultura aqui, por isso que a gente está lutando, pra um dia estar em cima das nossas terras e poder dizer para os nossos filhos: ‘daqui em diante tu vai falar da tua cultura’, numa terra que é nossa’”. 

A situação dessa comunidade Kaingang é difícil porque apesar de ocuparem um terreno cedido e terem conquistado alguns direitos como a construção de uma escola no local, o rio Passo Fundo, que passa atrás da aldeia, é poluído, impedindo a pesca e o banho em segurança. A luta da Goj-Jur por terra segue até que conquistem um local mais adequado em que possam pescar, plantar e viver dignamente. “A gente fica contente quando amanhece, quando levanta e olha para nosso filho, quando sente o vento e o calor. Todas essas coisas são importantes para nós”. 

A artesã Mbyá-Guarani Viviana Patrícia, moradora da aldeia do Cantagalo, em Viamão, conta que o guarani está intrinsecamente ligado à espiritualidade. “A nossa língua veio dos nossos espíritos, e nossos espíritos também têm uma língua própria. e é claro que o espírito tem outra língua também. Por exemplo, a palavra “sol”  nossos espíritos chamam de outro modo que a gente chama em guarani.  Isso é importante para nós, e o português também, para nos defendermos”, explica. 

Com a pandemia de covid-19, no entanto, o contato com os brancos caiu de forma drástica, e as vendas de artesanato diminuíram na aldeia. Segundo o Iphan, “ em todo o litoral Sul do Brasil, do Espírito Santo até o Rio Grande do Sul, e em muitos pontos da linha fronteiriça do Brasil com a Argentina e Paraguai, e em menor escala com a Bolívia,  encontraremos aldeias Guarani nas quais se fala somente ou majoritariamente a variedade Mbya. Sessenta e nove delas, localizadas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, foram inventariadas”.

O chef Kayzee Fashola defende mais espaços de difusão do Iorubá no Brasil (Foto: Desirée Ferreira)

Além das línguas indígenas e de imigração, cada vez mais se pensa também em políticas para valorizar as línguas de sinais, como a LIBRAS, as variações da Língua Portuguesa, como o Pajubá, e as línguas afro-brasileiras. Para o chef nigeriano Kayzee Fashola, falante de Iorubá, a língua é também um elemento religioso, mas está relacionada à toda cultura, incluindo costumes, arte, culinária, festas e saberes. 

Radicado em Porto Alegre há 15 anos, ele comemora o fato de cada vez mais brasileiros terem interesse no idioma e na cultura iorubá. “É uma coisa muito boa que os brasileiros aprendam a sua origem, aprendam de onde vieram. Eu pessoalmente acho que devemos ter mais seriedade quando a gente trata das línguas que fazem parte da nossa cultura, temos que ter um núcleo de estudos, bibliotecas voltadas a isso, temos que ter espaço para as nossas crianças aprenderem.  Dessa forma, eu, um africano em diáspora, terei uma oportunidade de ensinar o pouco que eu sei”, diz. Ele também comenta que a forma de falar Iorubá no Brasil é única. “A cultura Iorubá é diversidade em si, quando a gente está aqui no Brasil é um outro tipo de Iorubá que a gente tem. O mesmo povo mas um outro jeito de fazer, nós temos essa oportunidade de sermos muitos.”

Leia também as outras reportagens desta série:

“A cultura Iorubá vai além da religião”, diz chef Kayzee Fashola

A resistência Kaingang na Aldeia Goj-Jur

Brasil tem falantes de mais de 300 línguas, e 190 estão em risco de extinção

 

Esta reportagem integra o projeto Sons do Sul – uma cartografia linguística, da Riobaldo Conteúdo Cultural, agência de conteúdo do Nonada. Financiamento: edital Diversidades das Culturas, da Secretaria Estadual de Cultura do RS e Fundação Marcopolo – Lei Aldir Blanc.

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