Damn Laser Vampires foi um dos destaques do primeiro dia do festival em Porto Alegre

Texto: Daniel Sanes

Fotos: Fernando Halal

Nos últimos anos, o GIG Rock se tornou um dos festivais independentes mais importantes do país e, de uma forma ou de outra, sempre tem marcado presença na agenda cultural dos gaúchos. Em 2011, a produtora e casa noturna Beco203, organizadora do evento, decidiu elevar o festival a um patamar ainda maior: o evento acontece simultaneamente em Porto Alegre e São Paulo, durante uma semana inteira, além de ter como principal atração a banda norte-americana Television.

O Nonada está acompanhando a versão gaúcha do GIG Rock diariamente, mas, para facilitar a leitura – e também permitir uma avaliação mais abrangente –, a cobertura do evento será dividida em três posts. Neste primeiro, uma análise das duas noites iniciais do festival, com os prós e contras verificados até então.

Quinta-feira, 7 de julho

A noite fria de quinta-feira levou um público modesto ao Beco para conferir as primeiras atrações do GIG. Com isso, quem acabou sofrendo foi a novata Oh!, que tocou seu pop rock para pouco mais de 20 pessoas. Praticamente desconhecida, a banda só conseguiu alguma reação dos presentes com um cover de “Ciúme”, do Ultraje a Rigor.

Mesmo já tendo um certo nome no cenário independente, a Sargento Malagueta também sofreu com a ausência de público. O som sofisticado do power trio, misturando rock com funk e jazz, mas com forte apelo pop, botou algumas pessoas pra dançar, mas era evidente a falta de identificação da maioria com o repertório da banda.

Somente no show da Damn Laser Vampires havia uma plateia mais expressiva – cerca de 100 pessoas, e não passou disso. O psychobilly do trio proporcionou o primeiro grande momento do festival, com pequenas rodas de mosh na frente do palco e fãs fiéis cantando as letras de clássicos do underground como “Saint of Killers” e “Gotham Beggars Syndicate”, além dos já tradicionais covers de “Boom Schack-A-Lak” (Apache Indian) e “Demolicion” (Los Saicos). Um show impecável.

Wannabe Jalva encerrou a primeira noite do GIG Rock com uma apresentação empolgante

O encerramento da noite coube a um grupo relativamente novo, mas bastante identificado com o público frequentador do Beco: Wannabe Jalva. Com apenas um EP na discografia, a banda gaúcha com menos cara de “rock gaúcho” já tem um respeitável número de fãs, que sabem todas as letras e se sintonizam com a proposta dos Jalva, de misturar rock contemporâneo com eletrônico. A grudenta “Something New”, que foi tocada duas vezes, tem tudo para se tornar um sucesso nas rádios e, se os caras derem sorte, poderão alcançar espaço além da fronteira – tanto gaúcha como brasileira.

Sexta-feira, 8 de julho

A noite de sexta-feira era certamente a mais esperada. Afinal, o lendário grupo Television iria se apresentar pela primeira vez em Porto Alegre. No entanto, comentários e resenhas pouco favoráveis sobre o show dos caras em São Paulo, na noite anterior, causaram certa apreensão.

Exatamente às 23h07min, o quarto norte-americano subiu ao palco do Beco – que estava lotado –, mostrando que algumas críticas tinham fundamento. A primeira delas era em relação à obsessão de Tom Verlaine em afinar sua guitarra: os primeiros dez minutos do Television no palco foram dedicados a isso, e o frontman voltaria a fazer pausas para afinar o instrumento diversas vezes.

Após um pequeno improviso, Verlaine, Jimmy Ripp (guitarra), Fred Smith (baixo) e Billy Ficca (bateria) ameaçaram tocar “Venus”, mas mandaram “Prove It”, do clássico Marquee Moon. O público foi ao delírio, sem se importar com a clara debilidade vocal do frontman, que não conseguia atingir os tons mais agudos. É verdade que o sujeito tem 62 anos, mas Ozzy Osbourne tem 63 e, mesmo com todo um passado de excessos, consegue resultados superiores.

Tom Verlaine comandou o Television em um show cheio de improvisos instrumentais e alguns clássicos do rock

Felizmente, a música do Television não se limita à parte vocal – na verdade, ela é apenas mais um elemento, e não necessariamente o principal. No quesito instrumental, a banda é excepcional, com Ripp mostrando-se um substituto à altura de Richard Lloyd, único membro da formação original que não está mais no grupo. Seus “duelos” com Verlaine proporcionaram alguns dos melhores momentos do show, embora às vezes a impressão era de que o som de sua guitarra estava um pouco abaixo dos demais instrumentos.

No início de “Little Johnny Jewel”, a banda se atrapalhou e começou de novo – nada que comprometesse o andamento do show. A partir daí, algumas músicas foram intercaladas por jams sessions, ora com reações empolgadas, ora com alguma impaciência por parte do público. Por mais que seja vinculado ao movimento punk, a única ligação do Television com as bandas da época foi ter nascido no lendário clube CBGB’s – berço de Ramones, Blondie e Talking Heads, entre outros. Musicalmente, o grupo está mais próximo do jazz rock do que ao som simples de seus contemporâneos na cena novaiorquina.

A verdade é que o Television lançou um disco fantástico em 1977 (Marquee Moon), e é isso o que todos querem ouvir até hoje. Adventure, de 1978, e o tardio Television, de 1992, são bons, mas não possuem clássicos do porte de uma “See No Evil”, pedida incessantemente por alguns fãs, e que, a exemplo do show de São Paulo, não foi tocada. Assim, um dos momentos mais marcantes do show além das músicas de Marquee Moon não foi “Glory” ou “The Fire”, e sim uma versão de “Knockin’ on Heaven’s Door” (Bob Dylan), com um estranho improviso em que Verlaine falava, em português, frases como “sem mágoas”, “não esquecerei” e “andando”. Outro cover, “Psychotic Reaction”, do Count Five, agitou quem estava mais perto do palco, embora a maioria ignorasse que música era aquela.

Ao soarem os primeiros acordes de “Venus”, o público vibrou mais uma vez, mas nada comparado a “Marquee Moon”, em que o Television mostrou que uma canção pode ser longa e sofisticada sem soar monótona. Durante quase 15 minutos, a massa ficou hipnotizada pelos riffs e solos sensacionais de Verlaine e Ripp. Se o show tivesse apenas essa música, já teria valido a pena.

Apoiado por um trio de metais, Dingo Bells teve a responsabilidade de tocar após o Television

Os gaúchos da Dingo Bells tiveram a ingrata tarefa de encerrar a noite, correndo o risco de tocar para um Beco vazio. Mas, por curiosidade ou por já saber o que os esperava, a maior parte do público resolveu ficar. Os três músicos, acompanhados de um outro trio, só que de metais, deram uma aula de rock, revezando-se nas vocalizações e até nos instrumentos. Os covers de Beck (“Devil’s Haircut”) e David Bowie (“Moonage Daydream”) reforçaram o repertório, mas músicas como “Lá Vem Ele” e “Frutos do Mar” é que realmente agitaram o público. Quem saiu depois do Television perdeu um grande show.

Aguarde o próximo post, com o review dos dias 9, 10 e 11 de julho.

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