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Matheus Alves/Nonada Jornalismo

Uma conversa com Nduduzo Siba, artista imigrante que o governo quer expulsar do Brasil

Matheus Alves, especial para o Nonada Jornalismo

A sul-africana Nduduzo Siba estava em liberdade condicional quando atuou em uma peça teatral brasileira pela primeira vez em 2017. Foi um dos poucos trabalhos que conseguiu como imigrante e anteriormente privada de liberdade na capital de São Paulo. Dentro do teatro, descobriu o sonho de fazer da arte sua profissão no Brasil.

Nduduzo foi presa em 2013, ao entrar no país. Carregava na bagagem frascos de perfumes cheios de cocaína, que ela recebeu de uma amiga. A alegação de que desconhecia o conteúdo das embalagens foi inútil. Condenada por tráfico internacional de entorpecentes, permaneceu presa por quatro anos.

A artista recebeu, em 2018, o indulto, que a liberou de cumprir o restante da pena. Já estava então inserida no circuito cultural paulistano como cantora, atriz, dançarina e artesã. Participou também de uma produção internacional, o filme A Princesa da Yakuza.  Mas, no mesmo ano, a justiça federal decretou sua expulsão para a África do Sul, após pedido do Ministério da Justiça.

Para lutar por seu direito de permanecer no país, lançou a campanha #NduduzoTemVoz, com uma abaixo-assinado direcionada ao judiciário. Na carta, questiona a legalidade da expulsão a partir do Estatuto do Imigrante e critica uma política de segurança pública “que defende a ideia de imigrantes como ‘pessoas perigosas”’.

O primeiro decreto de expulsão chegou a ser anulado, porém um novo entrou em vigor em 21 de agosto de 2021. Novamente, Nduduzo Siba vê-se forçada a lutar por seu direito a uma ressocialização que já aconteceu. Afinal, se a pena foi cumprida e a reincidência é improvável, por que mandá-la para fora do Brasil?

“Um dia, me vejo num lugar em que eu tenha a liberdade de trabalhar”, diz enquanto conta sobre seus sonhos, suas referências artísticas e sua trajetória de vida antes e depois do cárcere. Confira a entrevista completa:

Nonada Jornalismo – Quando você veio ao Brasil, você imaginava que estaria tão apegada anos depois, a ponto de lutar para ficar aqui? Ficar era um plano seu?

Nduduzo Siba – Eu tive uma vida muito boa na África do Sul. Até hoje, às vezes vem saudades de dirigir meu carro, de ir à praia, de ter piscina em casa. Mas eu entendo o sofrimento de agora. Eu cheguei aqui com uma busca por me conhecer. Eu estava com 25 anos, noiva para casar. Fazia dois anos que eu estava com um peso que era também um vazio. Eu disse: não consigo mais, preciso ir para um lugar esclarecer, preciso de um tempo. Liguei para o meu noivo na quinta e peguei dinheiro para viajar. Domingo eu estava no Brasil.

Por isso, acho que o Brasil me escolheu. Minha primeira opção era Canadá, e a segunda Tailândia. Mas o Brasil eu carregava comigo, sem saber. Hoje eu lembro que, no meu primeiro dia de escola, perguntaram: o que você quer ser quando crescer? Eu falei: quero ser piloto de avião. E na minha imaginação, era pra vir pra cá curtir o samba no carnaval.

Só que a vida não é como a gente espera. Eu fui aeromoça. Aí eu descobri que não era isso que eu queria. Eu não tinha tempo de me integrar às comunidades, conversar, conhecer os lugares. Quando eu cheguei aqui, no meio de tudo isso, eu acabei presa. Quando o policial falou: “a casa caiu”, eu nem sabia o que significava, mas sabia que era ruim. Eles me algemaram, e uma voz dentro de mim me acalmou.

Foi impressionante. Eu não estava com medo. Eu comecei a pensar que teria um tempo em um lugar onde ninguém falava a minha língua. Na minha cabeça, não existia sul-africanos na prisão do Brasil. Aí, eu cheguei e vi tantas pessoas da África do Sul presas! Sabiam que tinha uma menina da África do Sul, e no pavilhão gritavam: “Be strong sister, we are here” (seja forte, irmã, estamos aqui). Eu ouvia os outros idiomas, como o zulu. Naquela noite, eu morri. A Nduduzo que era não existe mais.

Nonada – Como você vivenciou a arte antes de chegar ao Brasil?

Nduduzo – Antes de vir pra cá, a cultura zulu era parte da minha vivência. Até colocar nessa caixa de “cultura zulu” é uma coisa que aprendi aqui. Na África do Sul, a gente vive essa cultura. Não é uma coisa que a gente pratica só para um evento ou uma cerimônia. Todos os dias a gente canta, a gente dança, a gente faz coisas que são dos nossos antepassados. A gente nunca parou. A gente dá continuidade para o que eles viviam.

Aqui, sempre fico chocada quando as pessoas me chamam de cantora, valorizam minha arte através da música ou da dança. Na África do Sul, eu cantava, mas era comum. Todo mundo fazia. Nunca chegou um momento em que eu pensava isso como uma forma de sobreviver. Hoje é, não só financeiramente, mas também para manter a riqueza do meu povo viva dentro de mim.

Nonada – Você também criou sua linha de roupas e acessórios, a Mu Africa Culture. O seu artesanato também é algo da cultura zulu?

Nduduzo – O povo zulu acredita que tudo que a gente precisa vai vir através da terra ou de nós. Minha avó gostava de lavar roupa no rio. Quando as mais velhas iam lavar roupa, ela sentava as mais novas e ensinava a linguagem da miçanga, a importância das cores, dos desenhos, o que comunicamos quando usamos cada um. Ela contava histórias sobre nosso povo, nossos reis, e a gente ia praticando. 

Às vezes, enquanto fazia miçanga, ela contava uma história. Na história, surgia uma música. A gente cantava e de repente alguém falava: essa música é tão boa! Vem dançar! E a gente dançava. Na hora de cozinhar, ela chamava a gente, mostrava como se usa os ingredientes, falava porque nosso povo come cada coisa. Tudo que eu estou fazendo aqui não é algo que eu aprendi na escola, que eram investimentos pesadíssimos. Meus pais pensaram em me colocar em boas escolas particulares. Mas os ensinamentos da minha avó é que estão me sustentando.

Na África do Sul, a gente vive essa cultura. Todos os dias a gente canta, a gente dança, a gente nunca parou.

Nduduzo Siba

Nonada – Quanto você teve a percepção de que no Brasil a arte podia ser sua profissão?

Nduduzo – Aconteceu em 2017. Eu tinha acabado de sair do presídio, com essa “liberdade” que falam que eu tinha. Eu lembro que por não conseguir me reintegrar na sociedade brasileira, por falta das políticas públicas que falem da imigração, que tratem das pessoas que passaram pelo sistema carcerário, eu me encontrei sem documentação, sem uma forma de renda, sem suporte nenhum.

A música foi uma coisa que eu pensei: tem pessoas que cantam no metrô, nas praças, eles passam chapéu e é uma forma de viver. Eu pensei: no Brasil, eu sou a única pessoa zulu que eu conheço que canta no meu idioma, que traz a cultura zulu da raiz. Eu vi isso como uma oportunidade. Eu tinha acabado de sair do presídio. Para mim, era só uma forma de me sustentar. Quando eu comecei a cantar, eu comecei a conhecer as pessoas da área da arte, dos movimentos sociais, e vi a importância daquilo que eu estava fazendo no Brasil.

Nonada – Seu canal no YouTube reúne algumas apresentações com sua banda por São Paulo. Como você reuniu esse grupo de músicos?

Nduduzo – Tudo começou com uma pessoa que eu chamo de “minha anjo”: a professora Carolina Juarez. Ela dava aulas de canto dentro da PFC (Penitenciária Feminina da Capital – Carandiru), a penitenciária em que eu fiquei. Eu liguei para ela e falei: “Professora, eu não sei o que fazer. Eu não tenho nada, nem documentos. Não dá para arrumar emprego. E eu tenho esse processo.” Ela falou: “Tem outras mulheres que saíram da penitenciária e que estão cantando em algumas casas. Vem fazer parte do grupo.”

Eu comecei então por esse grupo, chamado Mulheres Livres. Com ele, fui convidada para uma apresentação dentro da Universidade de São Paulo (USP). Naquela apresentação, o diretor Rogério Tarifa, que estava fazendo a peça Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos, me chamou. Ele disse que estava impressionado com minha voz, e me chamou para num primeiro momento fazer só uma apresentação como convidada.

Ele disse que, por mais que a peça tratasse de temas bem atuais no Brasil, faltava esse pedacinho de autenticidade, e ele sentia que minha história traz isso. A peça fala de encarceramento em massa, por um texto do Plínio Marcos escrito em 1977. O que está no texto é uma coisa que a gente vê atualmente. A partir daí, recebi mais convites para cantar em outros espaços em que eu nunca imaginei que ia pisar. Consegui então formar minha banda, com pessoas com meu repertório.

Nonada – Você já tinha proximidade com teatro?

Nduduzo – Não, foi meu primeiro contato com o teatro. Se você olha a estrutura da África do Sul, durante o apartheid a gente não teve acesso àquelas coisas que a gente chama de teatro. Era coisa de branco. Então, eu já cresci em uma comunidade que olha teatro e fala: não é para mim. Teve algumas peças que foram internacionais, como Lion King, que eu via e pensava: acho que eu conseguiria fazer… Mas eu nunca tive proximidade até chegar ao Brasil.

Aqui, eu me apaixonei. Eu senti que aqui é “ao vivo”. Não é longe de mim. Não é de coisas que eu não poderia nem sonhar. Com as pessoas que eu encontrei no teatro, eu consegui me identificar, aprender, abrir um mundo para sonhar. Os sonhos de tudo que já sou no Brasil e o que quero ser nasceram dentro do teatro.

Nonada – Você também atua como militante. Em quais campanhas você está engajada agora?

Nduduzo – O Voz Própria era o projeto que fizemos dentro da PFC, que deu a luz ao Mulheres Livres aqui fora. A gente também está puxando minha campanha, #NduduzoTemVoz, e estamos puxando o Vidas Imigrantes Importam, no rastro dos assassinatos de Moïse Kabagambe, no Rio, e de João Manuel aqui em São Paulo. Mas não gosto de usar a palavra militante, porque acho que todos nós militamos por uma coisa ou outra.

Foto: Matheus Alves/Nonada Jornalismo

Nonada – Quem são suas referências no seu trabalho?

Nduduzo – A música sempre foi presente na minha casa. Desde pequenininha, eu escutava Miriam Makeba, Busi Mhlongo, Judith Sephuma. São mulheres fortes que fazem música mbaqanga, jazz, pop. Brenda Fassie também, que fazia pop. Essas pessoas construíram uma coisa dentro de mim que eu nem sabia o que era.

Politicamente, eu me apeguei muito a Winnie Madikizela-Mandela. Foi uma injustiça imensa não colocar ela na presidência. Ela merecia ser presidente da África do Sul. Aqui no Brasil, a lista é infinita! Porque eu estou lutando com mulheres incríveis todos os dias.

Nonada – Como é seu repertório solo? Tem alguma canção que te marca em especial?

Nduduzo – Meu repertório é em quatro idiomas: inglês, zulu, xhosa e swati. São músicas que realmente me tocam. Quando eu canto, não parece que é para o público, parece que são para mim mesma. Tem uma chamada “Too Late For Mamma”, da Brenda Fassie, que nasceu na África do apartheid e é bem forte.Tem outra que é “Ingoma yentandane”, que fala sobre ser órfão, essa pessoa que se encontra sozinha no mundo, pede socorro, mas ao mesmo tempo tem que se esforçar.

Eu gosto muito de trazer músicas antigas da África do Sul para relembrar o que aconteceu. Para que a gente veja que aqui no Brasil e na África do Sul, nunca acabou a escravidão e nunca acabou o apartheid. A gente ainda vive isso de outra forma. Eu sou de outro lugar do mundo e consigo identificar isso por causa da vivência parecida.

Nonada – Como você fez para trabalhar durante a pandemia?

Nduduzo – Os ensinamentos da minha cultura fizeram eu entender que meus ancestrais queriam que eu estivesse aqui. Então, eles me protegem. Tem dias que não tenho dois reais. Mas meus ancestrais me cuidam. Eles não me deixam desistir.

Nonada – Quais seus sonhos hoje?

Nduduzo – Faz cinco anos que as pessoas me perguntam isso. Eu agora não consigo sonhar. O que eu faço é tentar viver o máximo possível. Sonhar precisa de uma construção imensa. Você tem que trabalhar em você. E se você não tem liberdade, como você sonha? Neste momento, eu não sei onde vou conseguir realizar esses sonhos. Não sei quando vou conseguir iniciar o processo de caminhar.

Um dia, me vejo num lugar em que eu tenha a liberdade de trabalhar. Um lugar que não somente acolhe, mas dá valor. Isso eu acho que é algo que tem de estar em todos nós, para unir as pessoas que querem um mundo melhor.

Eu estou lutando para ter uma vida na África do Sul e uma no Brasil

Nduduzo Siba

Nonada – Você também falou de acolhimento em seu discurso durante a manifestação por justiça para a morte de Moïse Kabagambe, na Avenida Paulista. Você acha que podemos chamar o Brasil de um país acolhedor?

Nduduzo – Sim, porque faz dez anos que estou aqui e tenho pessoas que me acolhem sempre. Como todo lugar, tem coisas boas e coisas ruins. Eu não consigo falar todo dia das coisas boas, porque não é todo dia que coisa boa acontece. Então, a gente precisa realmente ficar botando nossa cara, falando desses assuntos ruins para haver uma mudança.

A gente precisa mudar as estruturas brasileiras no setor de imigração. Eu acho que é possível. A porteira está aberta. Tem até uma placa, porque o Brasil é conhecido como um país que acolhe. Mas as janelas desta casa estão fechadas para você ver uma opção aqui. Não dá para se movimentar. É difícil viver aqui.

Nonada – Como está o seu processo hoje?

Nduduzo – O processo está bem complicado. Eu sinto que essas complicações são necessárias para que eu caminhe e dê visibilidade para a coisa que a gente está vivendo. Não sei se algum imigrante africano já tentou enfrentar a justiça brasileira como eu estou fazendo. Mas as pessoas que estão aqui ajudam a focar não na dificuldade, na perseguição, e sim na luta contra isso. Então cada peso que eles colocam em cima de mim, é uma força. Mostra que não dá para deixar assim, e que eu não estou sozinha, nem lutando e nem vivendo.

Quando eu quero chorar, desistir de tudo, ir pra África do Sul, reconstruir minha vida lá, eu lembro das pessoas que contribuíram com a minha vida, que me fizeram a pessoa que sou aqui. Eu não consigo sair e dizer: tchau, gente. Porque eu sinto que minha vida está no melhor lugar, por causa destas pessoas brasileiras.

Foto: Osmar Moura/divulgação

Nonada – Como é a relação com a sua família na África do Sul?

Nduduzo – A situação com a minha família é complicada. Eu não estou conseguindo ter um relacionamento com minhas irmãs e irmãos por estar aqui e ter passado pelo sistema prisional. Ninguém pensou que isso aconteceria comigo, pela vida que eles deram pra mim na África do Sul. Nem eu imaginava passar pelo sistema carcerário e longe da minha família.

Os quatro anos dentro do presídio foram sem comunicação nenhuma. E enquanto a minha vida estava parada, a vida deles continuou. Quando eu saí, por mais que a gente falava no telefone, não era a mesma coisa. Eles vivem cinco horas à frente. E eu estava aqui tentando sobreviver, sem conseguir toda hora ligar e explicar.

Eu fui à África do Sul em 2018, quando um juiz havia anulado minha expulsão. Ele reconheceu o trabalho que eu estava fazendo, reconheceu as provas reunidas pela campanha #NduduzoTemVoz. Então, eu fui para lá. Era difícil. Sentia falta da minha família brasileira. Foi aí que eu decidi voltar. E eles não aceitam. Para eles, ninguém vive de arte. Para eles, eu preciso voltar, casar, ter filhos, arrumar um outro emprego, com hora pra levantar e voltar e assim eles valorizarem.

Eu sinto que tenho duas lutas: eu estou lutando para ter uma vida na África do Sul e uma no Brasil. É uma questão emocional que gasta muita energia. O processo de expulsão deixa mais complexo, porque me proíbe ter um relacionamento com a minha família. Enquanto eu não conseguir estar lá às vezes, olhar dentro do olho, vai ser difícil para eles entender a minha luta.

Eu acho que isso é uma coisa que todos os imigrantes enfrentam. A gente sai de lugares em que a gente tem vida. Não importa nossa busca. Quando você é refugiado, você não pode voltar para a sua terra, mas ninguém nasce só de pai e mãe. Eu tenho avós, tataravós, uma história e uma vida na África do Sul que quero dar continuidade. Eu não quero perder minhas raízes. É com elas que consigo me alimentar. Mas com esse processo, não dá.

Nonada –  Já que sua campanha chama-se Nduduzo Tem Voz, tem alguma coisa que você diria para alguém se tivesse a certeza de ser escutada?

Nduduzo – Acho que nós todos merecemos ser vistos. Nós todos temos voz. Se eu fosse direcionar alguma coisa, eu iria aos poderes estabelecidos e falaria que está na hora de mais gente ser ouvida. Tem tanta história e riqueza que morre! Tantos livros que a gente nunca vai ler!

E eu peço que as pessoas acompanhem a campanha, assinem a abaixo-assinado. Também que me chamem para trabalhar, porque eu não tenho salário. Minha vida é difícil. As pessoas veem nas fotos bonitas das redes sociais, e esquecem que eu passei no brechó e comprei uma camiseta por dois reais para aparecer lindamente. Então, seja palestras, shows, me chama para trabalhar.

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