Foto: Rafael Gloria/Nonada Jornalismo

Ouvimos relatos de fazedores da cultura impactados pelo desastre climático no RS

*Atualizado às 10h20 de 24/05

Dezenas de vidas perdidas, centenas de milhares de pessoas fora de suas casas, espaços culturais debaixo d’água. Agentes da cultura já começam a sentir os impactos mentais, sociais e econômicos das inundações que atingiram o Rio Grande do Sul no início de maio. 

O Nonada Jornalismo ouviu fazedores de cultura que foram impactados diretamente pelo desastre. São profissionais do audiovisual, da literatura, da cultura popular e de outras linguagens que tiveram que sair correndo de suas casas. Além de estúdios e bibliotecas inteiras inundadas, a água também chegou às casas de colegas e familiares, em alguns casos chegando até o telhado. Em comum entre eles e elas, está o sentimento de incerteza quanto ao futuro da profissão. 

“A nossa Conceito Arte, foi perda total. Não sabemos nem a estrutura do lugar, como é que vai ser a questão estrutural da nossa casinha também. A parte elétrica, todo o acervo da biblioteca não temos mais, os equipamentos não temos mais. A gente vai ter que ver se vai ser seguro a gente estar lá, e eu espero que esteja seguro, porque a gente já está muito enraizado na praça onde a gente fica, já é uma referência nossa no bairro. E, às vezes, dói  imaginar tudo o que vai acontecer depois”, diz a bibliotecária Priscila Macedo.

Para Francine Cabral, a Colaí, espaço cultural localizado na Ilha da Pintada, é preciso um olhar cuidadoso com o destino dos moradores das ilhas, um dos locais mais afetados pelo desastre. “Mais uma vez os rumores são de que vão remover todos os moradores e destinar aquele espaço para exploração de marinas. Eduardo Leite e Sebastião Melo precisam ser responsabilizadas. O poder público tem a obrigação urgente de propor políticas públicas específicas para as ilhas, que seja previsto pelo município um plano de evacuação, abrigo, etc. É criminoso que o município não realize a manutenção do sistema contra cheias. É desrespeitoso com a nossa vida”. 

Leia os relatos na íntegra:

Priscila Macedo (Foto: reprodução)
Priscila Macedo, presidente da Conceito Arte e coordenadora da Biblioteca Girassol

“É meio difícil falar de impacto porque a gente ainda não sabe, né? A Conceito Arte, basicamente todos lá são voluntários. A gente só tem uma mediadora de leitura pela biblioteca que recebe um recurso, mas o restante ninguém recebe nada. E a gente tava vindo de um ano muito legal. Nós fizemos 10 anos, fizemos um evento muito bacana que a gente conseguiu arrecadar grana pra pagar os artistas que são do bairro. Conseguimos um CNPJ duas semanas antes de tudo isso acontecer e foi uma das nossas maiores conquistas ter um CNPJ. Já estávamos com vários planos, escritas de projeto, articulações e tudo. E agora a gente já não sabe muito como é que as coisas vão se dar, né, a partir de agora. 

Eu e todos os outros membros do coletivo fomos atingidos, tanto as nossas casas, todos nós estamos desabrigados e alguns chegaram a ficar em abrigo, mas agora boa parte está em casa de parentes e de amigos. [Da equipe], 7 pessoas estão desabrigadas, outras duas moram em outras regiões da cidade que não foram afetadas e uma mora em Novo Hamburgo e não foi afetada. Mas todos esses 7, quem faz parte da diretoria foi afetado, e um conselheiro nosso. Da água chegar, só pra tu ter ideia, a casa dos meus pais é uma casa de dois andares, a água chegou no segundo andar, mais ou menos um metro ainda no segundo andar.

E a parte da nossa Conceito Arte, da nossa casinha, como a gente fala, perda total. Não sabemos nem a estrutura do lugar, como é que vai ser a questão estrutural da nossa casinha também. A parte elétrica, todo o acervo da biblioteca não temos mais, os equipamentos não temos mais. A parte da nossa cozinha, a gente vai ver se consegue recuperar. A gente tinha ganhado um fogão há pouco tempo novo, não sei como é que tá a situação do fogão, mas perda total, né? Perda total da casinha e perda total dos nossos bens pessoais também.

E nesse momento que a gente tá fazendo, que foi o que meio que nos deu força: alguns dos nossos seguiram ajudando nos resgates.  Temos duas pessoas, uma é o Lipe,  um dos fundadores da Conceito, que segue ajudando nos resgates, a Sarah também, que é uma parceirona nossa, frequentadora do espaço, seguiu nos resgates dos animais, boa parte lá no Sarandi.

Sede da Conceito Arte, no bairro Sarandi, no dia 16 de maio (Foto: divulgação)

Eu fiquei mais envolvida na parte de entregas de algumas doações, mesmo longe, tanto em Porto Alegre, mas mesmo longe eu consegui ir entregando algumas doações. Ajudamos nos resgates também com esqui, barco, gasolina. Uma parte que eu foquei foi na parte de arrecadação, com o foco de auxiliar primeiramente as pessoas que frequentam a Conceito. Isso vai depender de quanto a gente vai conseguir, então aquilo que a gente conseguir, a gente vai priorizar as famílias e leitores da biblioteca mais assíduos e também os membros que perderam tudo ali, se reerguer, ajudar de alguma forma na reconstrução de suas casas, e depois a gente vai olhar para casinha.

A gente vai fazer uma limpeza e depois vai ser um passo de cada vez. A gente tem muita incerteza desse futuro próximo, porque a água segue muito alta, eu acho que talvez só em junho pra gente conseguir chegar lá.  E pensando na cultura,  eu realmente não sei, eu acredito que muitas coisas que estavam voltadas para a cultura, eu não sei se elas vão acontecer esse ano, então, realmente a gente vai ter que começar quase tudo do zero. Eu tenho muito medo da parte estrutural, é mais de uma semana que o nosso espaço está embaixo d ‘água, a água chegou a bater no teto, no teto pelo que a gente viu em imagens.

A gente vai ter que ver se vai ser seguro a gente estar lá, e eu espero que esteja seguro, porque a gente já está muito enraizado na praça onde a gente fica, já é uma referência nossa no bairro. E, às vezes, dói  imaginar tudo o que vai acontecer depois. A gente se sente mal de também não conseguir ajudar todas as pessoas que a gente quer conseguir ajudar, as doações vão diminuindo”. (16 de maio de 2024)

Francine Conde Cabral, presidente do Colaí

“Nós somos o Colaí Movimento de Cultura, um movimento social feito por jovens da ilha para a comunidade das ilhas. Nossa sede fica na Ilha da Pintada, especificamente, mas agora não nos resta mais nada de físico, pois a água arrastou tudo. Nós compramos os instrumentos pras oficinas de música recentemente. Tínhamos a biblioteca comunitária, com um acervo de mais de mil livros. O espaço acolhia diversas oficinas, aulas de reforço pra gurizada, era referência para jovens… e acho que a parte material é a menor das perdas. A gente daria um jeito de recuperar.

Mas dói muito pensar na falta de dignidade que essa tragédia toda implica. São 10 anos que a gente tá resistindo, peitando os governos que já passaram, firmando nosso pé pra mostrar a importância da juventude e da Ilha. Estarmos vivendo isso significa que apesar de todo trabalho a gente continua não significando nada. Não valemos nada pra quem tem o poder. Nossa vida não importa.

Ilha da Pintada, uma das regiões mais afetadas pela enchente (Foto: Colaí/reprodução)

Essa já é a terceira grande enchente em poucos meses. E essa tragédia nos afeta de muitas formas. O Colaí está na linha de frente, mas nós, integrantes, também tivemos nossas residências afetadas. O que não foi arrastado está coberto de água. Não há perspectiva breve de reconstrução da comunidade que ainda em tempos normais sofria com a precariedade. Ainda que a água baixe nos próximos dias, a prefeitura já reforçou que nosso abastecimento de água não será normalizado antes de, pelo menos, 3 meses, visto que a estrutura do DMAE foi carregada pela correnteza. 

Não sabemos as condições do solo e das estruturas das casas que ficaram de pé, se resistirão. O cenário de destruição se manterá por muitos meses. As escolas e associações não funcionarão imediatamente, pois tiveram seus muros e paredes derrubados. A nossa cultura, que apesar de tão forte já era invisibilidade, precisa sobreviver. É por isso que, se queremos que a nossa cultura sobreviva, ainda que oralmente, precisamos dar conta de atender os nossos com o máximo de dignidade que for possível.

Estamos trabalhando na arrecadação de água, alimentos, cobertores, produtos de higiene e limpeza. Tudo que agora é urgente pra atender os nossos que estão abrigados e, em algum momento do futuro, para limpeza da comunidade. Nas nossas páginas @colaicultural tentamos manter atualizado com as necessidades de doação e, pra quem não tem condições de entregar, tem a chave pix.

Meu último pedido é que a gente não esqueça o nome de quem fez isso com a gente. Mais uma vez os rumores são de que vão remover todos os moradores e destinar aquele espaço para exploração de marinas. Eduardo Leite e Sebastião Melo precisam ser responsabilizadas. O poder público tem a obrigação urgente de propor políticas públicas específicas para as ilhas, que seja previsto pelo município um plano de evacuação, abrigo, etc. É criminoso que o município não realize a manutenção do sistema contra cheias. É desrespeitoso com a nossa vida. Nossa perda não é só de bens materiais, mas a nossa história que corre o risco de estar se perdendo junto.” (16 de maio de 2024)

Keter Velho, atuadora do grupo de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, em Porto Alegre

“A situação do Ói Nóis Aqui Traveiz é dramática. A Terreira da Tribo, nossa sede, localizada no Quarto Distrito foi duramente atingida. Lá, entrou mais de 1 metro e meio de água. Nosso material de espetáculos ficou submerso. Figurinos, elementos cênicos, máscaras e instrumentos musicais que se perderam ou foram muito afetados. Além disso, tinha muito material de acervo dentro da Terreira. 

Como todo mundo sabe, o Ói Nóis tem 46 anos e é um dos grupos de teatro mais longevos em atividade no Brasil e América Latina. Nós estamos batalhando para criar o Museu da Cena. Ele já foi adiado três vezes. Conseguimos um espaço na Zona Sul, por edital da prefeitura. Um espaço caindo aos pedaços, que chove dentro e é sempre um horror. Muito do acervo que seria desse museu estava na Terreira e foi atingido. Mas estamos trabalhando na tentativa de recuperar junto a uma museóloga. Tem materiais em papel que ficaram semanas submersos e que não só são importantes para o grupo, mas para a história do teatro gaúcho e brasileiro. Todo mundo deveria se importar com isso. Não deveria ser só uma preocupação do grupo que há 46 anos tenta resistir. 

Estamos há uma semana fazendo mutirões na Terreira. Abrimos ela em ato junto com muitas pessoas para que todos tivessem a dimensão da tragédia. Para que ela seja mais do que nunca coletiva, porque só os atuadores não darão conta de tudo que se tem pra fazer. E quanto a isso, só agradecemos. Porque tem aparecido muitas pessoas e coletivos parceiros, preocupados e interessados em ajudar. Nem conseguiríamos ter ânimo, se não fosse a ajuda que tem vindo de fora. Assim, a gente consegue perceber que somos importantes e que não estamos sozinhos. 

Demoramos, mas só agora abrimos também nosso pix para doação. Num primeiro momento, nós achávamos que a prioridade eram as pessoas desabrigadas e precisando de ajuda para sobrevivência. Muitos de nós atuamos como voluntários nesse período e processo. Agora nós pedimos ajuda. Entramos na Terreira e, mesmo com a montanha de “lixo” que fomos obrigados a descartar, estamos tentando resgatar o maior número de coisas que nos são importantes. 

A Terreira estava numa série de oficinas que estão paralisadas. A oficina para formação de atores, oficina de teatro ritual, oficina livre. Todas paralisadas porque estamos sem espaço. Isso também urge uma resolução. Não temos como continuar no prédio em que a Terreira está desde 2009, pois pagamos um oneroso aluguel e toda estrutura está comprometida e insalubre. Precisamos urgente de um novo espaço para levar o que sobrou e para poder nos reerguer. Dar continuidade ao trabalho. Serão longos dias pela frente, meses de um trabalho de recuperação que parece infinito. Mas o Ói Nóis tem repertório e força para se reerguer, porque quem está junto acredita muito nisso. Vamos conseguir, mas com ajuda, com certeza. Sozinhos não conseguimos nada.

Eu, Keter, além de tudo isso, enquanto trabalhadora da cultura e educação, tive trabalhos cancelados ou adiados. Como muitos dos meus colegas. Há uma preocupação iminente de como vamos fazer para nos sustentar. Como sempre, a cultura é a primeira que para e a última que volta. Mas muitos artistas estão lá, nos abrigos, levando um pouco de respiro e sonho para aqueles que as preocupações são ainda maiores. E nós vamos logo voltar a fazer isso também. Porque é essencial para nós. Duro saber que só teve a proporção que teve por conta da negligência política. O que eu mais desejo agora, é que isso seja tão amplamente debatido e que as pessoas possam ter uma retomada de suas vidas de forma digna.”

Flávia, redeira e artesã de Pelotas
Artesãs redeiras de Pelotas (Foto: divulgação)

A minha casa encheu d ‘água já faz uma semana. Eu estou hospedada aqui na casa da Karine, que também é redeira. E a gente está muito frustrada, o trabalho não está rendendo, a gente não está conseguindo trabalhar porque a função d ‘água sobe, a água desce. A gente ajuda um, ajuda outro. A sede que a gente tanto sonhou, eu acho que hoje vai ter que ser revista, porque a área que ela está, está toda alagada.

A área em que foi desenhada a planta que a gente queria montar ali, está toda alagada, então, a gente vai ter que rever isso também. Isso aí num futuro bem longe, porque a gente vai dar prioridade para as casas. Agora, secar a casa, tentar reconstruir o que a gente perdeu. 

A função do dinheiro também está tudo congelado, tudo parado. A gente sem poder pescar, os maridos da gente sem poder pescar e a gente sem poder trabalhar. Eu acho que [a tragédia] vai impactar diretamente a gente porque a gente não sabe nem como que vai recomeçar, a vontade da gente é que essa água baixe de uma vez pra gente ver o tamanho dos estragos e recomeçar.” (17 de maio de 2024)

Mariana Marmontel, educadora e artista

“Me chamo Mariana Marmontel, tenho 26 anos, trabalho como artista independente, sou atriz, mestre de cerimônia, organizo e apresento eventos culturais, sou educadora, sou empreendedora, e fui uma das pessoas que teve a sua casa atingida pelas enchentes. Na noite da sexta-feira, no dia 3, eu e o meu companheiro saímos de casa, junto com o nosso cachorro, o nosso cunhado, que mora na casa da frente, mais os bichinhos deles. O meu cunhado mora com a esposa e duas filhas, que eles já tinham levado para outro local de segurança. E a gente estava naquela esperança de que não seria algo tão estrondoso como foi, visto que, até então, a gente não tinha recebido nenhum sinal.

Não chegou em nós nenhuma informação de que a nossa área deveria ser evacuada, porque, provavelmente, se essa informação tivesse chegado até nós, a gente conseguiria ter salvado bem mais coisas, e talvez até ter saído antes de casa. Mas acredito que a gente ainda saiu em tempo, porque a gente ainda conseguiu sair caminhando com os nossos animaizinhos no colo. Por volta das 10h30, 11h, a gente saiu de casa chovendo muito, a água subindo muito rápido. 

Até então, a gente estava acreditando que era aquilo, que ia ser só mais um alagamento normal que a gente vive ali na Vila Farrapos, todas as vezes que a chuva vem, todas as vezes que chove uma quantidade maior de água na nossa vila, alaga. É uma coisa que, infelizmente, a gente já está mais ou menos acostumado e esperava que seria mais uma vez como tantas outras, mas acho que ninguém esperava que seria tanto a mais. A gente saiu caminhando na chuva e, nesse momento, a gente foi abençoado por um carro, um cara com uma caminhonete que passou e perguntou se a gente queria uma carona na caçamba, a gente falou que sim. Estava chovendo muito, muito, muito, muito forte e, graças a essa carona, a gente conseguiu chegar no Cristo Redentor, na casa da minha sogra, que é onde a gente está abrigado desde então.

Ficar lembrando de tudo acaba sempre mexendo um pouco. Mas, enfim, a nossa ideia era ir a pé, mas, no meio do caminho, a gente entendeu que a pé a gente nunca conseguiria chegar, porque a água já estava muito alta em uma área que precisava passar e a gente só conseguiu passar porque, realmente, era um carro muito grande. A gente deixou tudo, com exceção dessa quantidade de roupas que eu consegui levar para a casa da minha mãe antes de ficar inviável o trânsito.

Eu e o meu companheiro, a gente perdeu tudo, provavelmente, porque até agora a água não baixou onde a gente mora, a gente ainda não conseguiu ter acesso à nossa casa. As nossas coisas estão há simplesmente 17 dias debaixo da água, a gente não sabe qual vai ser a condição que a gente vai encontrar a nossa casa em relação à estrutura, em relação a tudo que ficou dentro. A gente não sabe o que vai poder ser aproveitado, o que não vai poder ser aproveitado.

Eu tenho vivido um dia de cada vez, tentando não ficar criando expectativa na possibilidade de aproveitar alguma coisa que ficou lá, porque, infelizmente, eu acredito que vai ser difícil. A gente, nesses dias, está ajudando em abrigos, se voluntariando em espaços que estão precisando, a gente também fez, da casa onde a gente está, um ponto de coleta e distribuição de doações para famílias que, assim como a gente, estão sendo abrigadas na casa de outras pessoas.

Eu faço parte do Poetas Vivos, que é uma iniciativa cultural, e a gente também tem integrantes do coletivo, responsáveis por um ponto também de coleta e distribuição na Zona Sul, no Belém Velho. A gente está bem mobilizado, a gente está conseguindo, graças à solidariedade, as articulações, os movimentos, conseguindo bastante doações, mas tem sido bem difícil, todos esses dias, são muitas incertezas, são muitas inseguranças, querendo ou não, também são muitos traumas, e muita perda, a gente perdeu muita coisa.

Tem todas essas coisas que a gente não sabe se vai conseguir recuperar, mas tem coisas que a gente sabe que não vai, como, por exemplo, o meu acervo de livros, que eu levava para as escolas, onde a gente fazia oficinas, rodas de conversa. Eu tinha um acervo de fanzines também, que tinha autores de todo o Brasil, que com certeza foi perdido. A gente do Poetas Vivos, a gente trabalha vendendo livros nos bares, como uma forma de geração de renda, e todos os nossos livros também estão embaixo d ‘água. Eu e meu namorado Maicon, a gente recém tinha pego um pedido de 100 livros para cada um de nós, a gente ainda não tinha vendido esses livros, e esses livros estão embaixo d ‘água. E a gente nem tem a possibilidade de não pagar a editora, porque a editora também foi afetada pela enchente. 

A  gente acredita infelizmente que tenha perdido boa parte das nossas coisas, troféus, quadros. Eu tenho uma marca de acessórios, onde eu faço brincos, por sorte os brincos não estavam na minha casa, então foi o que restou. Mas todos os materiais de produção estavam lá e foram perdidos com certeza. Todas as fontes de renda que a gente tinha estão embaixo d ‘água, os eventos que a gente tinha foram adiados ou cancelados, a nossa vida está bem conturbada, mas a gente tem tentado se manter, para pelo menos ter força aí para se reerguer quando for possível, e ajudar quem a gente pode da maneira que dá.” (21 de maio de 2024)

Jairo Luiz de Souza, fundador da biblioteca comunitária Dilan Camargo, em Canoas

“Eu criei a biblioteca no final de 2008, início de 2009. Na época, eu coloquei o nome de Biblioteca Comunitária Simões Lopes Neto, e esse nome durou até 2017, porque em 2017 eu fechei a biblioteca por um ano, porque eu tive câncer e eu não sabia se eu ia sobreviver, se eu ia sair desse problema. Mas graças a Deus eu consegui me recuperar bem, fiz cirurgia, melhorei. E em 2018 eu inaugurei a biblioteca com outro foco, mais infantil. E aí eu convidei o escritor Dilan Camargo, que eu já conhecia há algum tempo, e resolvi homenageá-lo com o nome da biblioteca.

Então, passou a ser Biblioteca Comunitária Dilan Camargo. E aí a gente teve alguns percalços nesses anos todos. O ano passado, por exemplo, em setembro, teve aquele grande temporal de Granizo. Acabou detonando a metade da biblioteca, o telhado da biblioteca. E a gente perdeu alguns livros. Só que, com o apoio dos amigos, a gente conseguiu arrecadar um valor para trocar o telhado. E estava tudo indo muito tranquilo, muito bem.

E tinha arrumado todos os livros, separados alguns por autores, que eu tinha 4 mil livros. A biblioteca estava linda, de beleza. Estava bonita. Só que daí, na sexta-feira, dia 4, aconteceu tudo isso no bairro Harmonia. Eu tive que sair de casa à noite, na sexta-feira. Fui resgatado por um casal de amigos da minha filha. A gente saiu às pressas. Eu sou deficiente físico, eu sou amputado de uma perna. E como é que eu ia conseguir colocar alguma coisa para cima da casa? Não tinha como.

E aí eu fiquei na esperança de que a água não ia subir tanto. Você sempre tem aquela expectativa de que não aconteça o pior. Mas aí no outro dia, no sábado, comecei a ver vídeos na minha rua. Já vi que a água estava no telhado da biblioteca. Não fui lá ainda porque não baixou as águas. Mas eu tenho muita vontade de voltar lá. O coração está apertado. Porque eu quero ver o impacto. Os livros da última prateleira de cima, talvez eu consiga salvar. Mas os que estavam na parte baixa, com certeza molharam todos. Dói, porque é um trabalho que se faz com carinho, com dedicação. Eu não ganho nada, né, cara? Eu não ganho um centavo para fazer o que eu faço.” (23 de maio de 2024)

Marcelo Armani, artista sonoro e técnico de som

“Meus pais moram em Canoas, no bairro Harmonia, e na casa deles tem o meu ateliê, o meu estúdio.  Eu moro com a minha companheira e minha enteada, no bairro Humaitá, em Porto Alegre. E  a gente ficou simplesmente ilhado no Humaitá, não conseguimos deslocar até Canoas, e eu tava tentando entrar em contato com meus pais, porque, enfim, minha mãe tem demência, e aí era bem complicado, porque a gente ligava e ela não atendia o telefone. Um vizinho conseguiu retirar meus pais de casa e levar pra um lugar seguro. Quando eles saíram da casa da minha mãe, na Harmonia, já tava água na porta do carro, então eles conseguiram pegar meia dúzia de roupa. 

E eu, minha companheira e minha enteada, a gente ficou no Humaitá, a gente tinha comida, água em casa e a gente acordou na manhã do dia 4 com a rua tomada, ou seja, já não dava mais pra sair de casa, realmente já era impossível. A água começou a subir, o pessoal começou a criar umas barricadas com a areia da pracinha, e a gente começou a ajudar os vizinhos do térreo a subir móveis, coisas, eletrodomésticos, coisas assim, pros andares superiores. A gente já tava sem luz, sem água e a gente tinha pouca bateria, só o celular da Liane, que era minha companheira, pegava sinal.  

Som de helicóptero, alarme, buzina, o som das travas das portas, né, abrindo e fechando. Começou a bater o desespero, o meu receio era que  se a gente não sair, ninguém mais vai nos buscar, a  gente não vai sobreviver e aí foi onde a gente viu um barco, meio que gritei pro cara socorro, e a gente pegou um barco e veio pra casa do meu cunhado. E a gente tá aqui até  esperando a água baixar, meus pais estão na casa da minha tia. Perdi tudo ali que tava no ateliê ali, no estúdio, equipamento e obras, né, trabalhos que são  coisas únicas. Não gosto de usar muito a palavra se perdeu, tem que esperar baixar a água pra ver o que acontece.” (17 de maio de 2024) 

Jefferson da Silva, mestre de capoeira
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Nortista vivendo no sul. Escreve preferencialmente sobre políticas culturais, culturas populares, memória e patrimônio.
Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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