O artista Gervane de Paula nasceu umbigado no sol mais amarelo do Brasil. O ardente do céu, a cromática vibrante e a fauna feroz do Cerrado fundaram uma produção artística que toma o próprio território como sujeito de criação. Há mais de quatro décadas, o pintor mato-grossense se comove pelos híbridos que lhe são familiares desde o nascimento:
O híbrido entre cerrado, mangue e pantanal; a mistura entre animal e humano; a séria denúncia e o excelentíssimo bom-humor. O pintor e escultor é habilidoso em produzir mensagens sobre o seu próprio tempo. Em entrevista ao Nonada Jornalismo, o artista revela o seu processo de ateliê, em Cuiabá (MT), lugar onde começa a dar forma a um trabalho marcadamente multidisciplinar, baseado na pintura e na experimentação, mas que escorre à escultura, à instalação, ao desenho e à performance.
É no Boca de Arte, como chama seu espaço de trabalho, onde ele começa a brincar e jogar com diferentes temas, desde os limites entre o bicho e o homem até o autoritarismo vigente no Brasil. Para o artista, “a obra dentro do ateliê é perigosa”, já que enquanto não sai dali, ele segue em um processo contínuo de envolvimento com elas. “É como um jogo. Eu vou conversando com as obras e procurando o que elas próprias sugerem até a obra se concluir”, revela. Se dentro do ateliê é perigosa, fora também é. As onças rugem e os tatu-bolas espetam.
O chão terroso e o céu amarelado do lugar onde nasceu são referências que o pintor toma para si até hoje. Autodidata, ele detalha que suas influências maiores foram artistas de seu próprio lugar de origem, não só pela estética ou produção artística, mas por serem pintores com que aprendeu que a arte é também política. Nomes como Humberto Espíndola, João Sebastião e Dalva de Barros foram decisivos para sua trajetória artística. Nos últimos anos, integrou exposições importantes como a retrospectiva do seu trabalho na Pinacoteca de São Paulo, em 2024, intitulada Como é bom viver em Mato Grosso, e a 14ª Bienal do Mercosul, em 2025, estalo.
Gervane de Paula cria a partir de um humor, afiado, feroz e gracioso, como são os bichos que retrata. A produção do artista é corajosa ao estampar e escancarar críticas sobre o Brasil, sobre a questão fundiária e sobre o próprio sistema em que está inserido: o Mercado da Arte. “Colorista notável”, como ele diz em referência ao papel da paleta cromática do Cerrado em seu trabalho, ele recusa uma romantização do fazer artístico.
“Alguns falam que a arte salva, e concordo, sem dúvida. Mas fazer arte também é um processo bastante doloroso. Não só fazer, mas tentar viver dela também”, pontua. “Sou uma pessoa que olha com desconfiança para a ideia de que a minha arte pode me mudar alguma coisa. Eu entendo que estou fazendo o meu papel. Com ela, eu posso existir, sentir e me localizar no mundo.”
O artista destaca, nas palavras e nas obras, a invisibilidade histórica sistematizada por curadorias brancas. Ele também afirma que seu trabalho só começou a despontar no Brasil quando curadores jovens e negros assumiram lugares de protagonismo no cenário. Um dos destaques é sua presença na 36ª Bienal de São Paulo, Nem todo viandante anda estradas: Da Humanidade como Prática, apresentando uma instalação que vibrava em cor no segundo andar do Pavilhão. Arte aqui eu mato, falam várias das obras do artista. “Arte aqui eu mato”, diz Gervane nesta entrevista.

Nonada Jornalismo – Os animais do cerrado são protagonistas da sua produção artística, mas tem um que, em especial, costuma aparecer com ênfase: a onça. O que é a onça para você?
Gervane de Paula — Para mim, enquanto artista, o que é interessante, antes de qualquer significado, é a questão da estética, da cor, da forma. Ela é, sem dúvida, um objeto, um animal bastante interessante. Historicamente, é um animal guerreiro, que representa uma resistência dentro do Pantanal.
Aqui em Mato Grosso, ela também assume esse mesmo papel. Ela aparece nas minhas obras, às vezes fazendo parte de algum objeto, em outras, sendo o elemento principal. Todos os animais que pertencem ao nosso ecossistema estão presentes no meu trabalho. Talvez a onça tenha mais atenção pelo fato de ela ter esse aspecto de ser um animal feroz, de ter uma boca aberta e também de oferecer um certo perigo.
Nonada Jornalismo – E esse interesse pela fauna surgiu quando na vida do senhor? Os animais sempre lhe despertaram uma maior atenção e curiosidade?
Gervane de Paula — Sim, outros artistas também trabalham o tema. O João Sebastião foi um pintor que não existe mais, mas que usou a onça praticamente como um único tema da pintura dele, né?
Na minha pintura, a onça apareceu pela primeira vez só através da pele dela, sendo carregada por um piabá, um peão de fazenda, aqui em Mato Grosso. Com a expansão das fazendas, da introdução maior de gás dentro do habitat aqui do Pantanal, as onças começaram a chegar perto das fazendas e começaram a comer, matar, abater os animais, principalmente os viveiros.
Elas também começaram a ser perseguidas pelos fazendeiros. A minha obra que chamou mais a atenção é essa que aparece, a onça sendo carregada, morta, em que vemos a pele dela na porta de uma fazenda. Tem um texto que acompanha a obra: Arte aqui eu mato. Esse texto, na verdade, não tem origem exatamente nessa cena, mas em um livro de arte de uma crítica aqui de Mato Grosso, que se chamaArte Aqui é Mato [publicado em 1990, pela editora da UFMT, escrito por Aline Figueredo]. E eu, em meu caso, escrevo: Arte aqui eu mato.
Só que o Arte aqui eu mato, com o tempo, foi ganhando vários significados no trabalho. Eu comecei fazendo por esse motivo, porque não se valoriza a arte. Esse é o assunto que realmente perdurou no significado dessa obra. A gente faz uma coisa pensando em passar uma mensagem e ela ganha outras interpretações — o que eu acho bastante interessante.
Nonada Jornalismo – É interessante porque essa frase se torna também uma das marcas do que você faz, uma força que comunica as diferentes frentes temáticas e críticas que a sua obra suscita através dos diferentes suportes — a pintura, como um certo centro, mas também o desenho, a palavra, a escultura, a instalação. E eu gostaria de saber do senhor o que vem primeiro no seu processo. Como é a ordem do seu pensamento?
Gervane de Paula — Olha, eu comecei a pintar muito cedo, aos 17 anos. Sou um pintor que gosta muito de cores. Sou um colorista notável. Às vezes, um assunto vira pintura, vira objeto e vira desenho também, ao mesmo tempo. Às vezes, só mesmo um objeto.Eu não sou um artista que gosta de fazer esboço. Se eu fizer um esboço, para mim, quando eu acabo, a obra já está praticamente pronta.
Então, minhas obras têm um processo que é como o de um jogo. Eu vou colocando as coisas, vou conversando com elas, vou procurando o que elas próprias sugerem até a obra se concluir. Às vezes, eu volto a mexer em uma obra que foi exectuada há muitos anos. Muitas vezes, é até interessante que essa obra saia do ateliê, porque é perigoso eu continuar terminando ela. Eu acho que ela não tem fim, pelo menos nos objetos, nas esculturas, eu mexo constantemente.

Nonada Jornalismo – As suas obras sugerem coisas. Como é isso?
Gervane de Paula — Sempre a obra sugere alguma coisa. Ela mesma pede pra que eu mexa, que eu inspire alguma coisa nova nela, ou então para que eu retire alguma outra coisa. Eu acrescento e, ao mesmo tempo, também insiro coisas novas na obra. A obra dentro do ateliê é perigosa [Gervane imita um som de rugido: roarrrr].
Nonada Jornalismo – Falando em perigo, você costuma afirmar que a arte é, ou pode ser, uma espécie de armadilha. Poderia comentar mais sobre essa perspectiva?
Gervane de Paula — Fazer arte é muito legal, é muito bom, eu gosto muito. Eu acho que eu não sei o que eu faria sem ela. Mas, ao mesmo tempo, tem o momento em que você termina a arte e ela começa a circular dentro do Sistema da Arte, do mercado, das exposições, dos curadores, dos críticos de arte. As obras viram problemas bastante graves em relação ao artista e ao meio artístico, principalmente falando sobre a questão do mercado. Esse é um lugar muito difícil, muito dolorido para você mexer com ele. É uma armadilha para o artista.
Talvez você esteja falando de uma obra que eu produzi que tem partes. O título dela é: Armadilha para pegar estudantes. De um lado, você tem vários nomes de curadores, críticos de arte; do outro lado tem alguma coisa relacionada a mim; e do outro tem vários sinais de bala, de um alvo de bala.
Alguns falam que a arte salva, e concordo, sem dúvida. Mas fazer arte também é um processo bastante doloroso. Não só fazer, mas tentar viver dela também. Antes eu pensava que isso era questão da minha cidade, que é uma cidade bastante pequena [Cuiabá], de 700 mil habitantes, distante dos grandes centros culturais. Só que agora que eu tenho uma projeção maior, eu vejo que o processo é o mesmo. É um sistema bastante complexo para você circular seu trabalho. Mas é isso, enquanto não enquanto não houver outra coisa mais interessante, eu vou continuar fazendo arte.


Nonada Jornalismo – Essa questão do território é muito importante mesmo. Suas obras sempre foram muito enraizadas no centro-oeste. O senhor acredita que o cenário mudou para artistas, por exemplo, emergentes hoje na região, em comparação com o que o senhor viveu nos anos 80, 90? É diferente agora?
Gervane de Paula – Muito. O cenário mudou e continua mudando, principalmente a partir do olhar dos curadores jovens. Eles passaram a se interessar pela arte que é feita fora dessa ponte aérea, do Rio de Janeiro e São Paulo. Foi, exatamente, através de curadores jovens e também de curadores afrodescendentes que eu comecei a circular meu trabalho. Desculpa aí aos críticos de arte, aos curadores brancos, mas foi o olhar dos curadores negros que se virou para mim. Foi a partir do momento que eles passaram a investir e trabalhar com artes visuais no Brasil.
Nonada Jornalismo – O que você pontua é também uma forma de chegarmos na 36ª Bienal de São Paulo, justamente coordenada pelo intelectual Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, co-curada por Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza e Keyna Eleison, e com curadoria adjunta de André Pitol e Leonardo Matsuhei. No conjunto de obras que você apresentou há muito sobre o mercado da arte, e seus agentes, mas também sobre o Brasil, a democracia e os seus poderes. A questão do poder é muito pungente na sua produção. O senhor entende que a sua prática artística pode ser considerada uma arte que discute a democracia no país?
Gervane de Paula – Olha, eu sou autodidata. A minha influência foi quase toda de artistas daqui mesmo, do Mato Grosso, artistas bastante politizados, como um pintor chamado Humberto Espíndola, o próprio João Sebastião e a Dalva de Barros. Esses artistas me influenciaram muito, principalmente o Humberto Spindler, porque ele trabalhava com o tema regional, a bovinocultura, ao mesmo tempo em que ele era bastante político e crítico. Eu vou me influenciar pela ideia de que, com a arte, eu posso me localizar, apontar e participar de questões sérias, tanto aqui de Cuiabá como também do mundo.
Só que a minha arte também tem muito humor. Sou uma pessoa que olha com desconfiança para a ideia de que a minha arte pode me mudar alguma coisa. Tenho certeza disso também. Eu entendo que estou fazendo o meu papel. Com ela, eu posso existir, sentir e me localizar no mundo.

Nonada Jornalismo – Então, o senhor acredita que esses artistas que já tinham uma perspectiva mais politizada influenciaram o senhor a também trilhar um caminho mais crítico ácido, através desse humor tão presente, que aparece também como uma sagacidade, um deboche, uma denúncia, não é?
Gervane de Paula – Tem, tem…Em quase todos eles têm [uma denúncia], né? Eu tenho uma vontade que me persegue, me perturbar e irritar o espectador. Quero tirar ele daquela passividade de espectador para que ele seja um cúmplice da obra. Mas, primeiro, como você já disse anteriormente, o que seduz, tem o que atrai o espectador. Primeiro, são as cores. Depois, vem o recado. Acho que isso é bacana. A arte também tem que ser bonita, tem que ser bem feita. Eu também tenho um palmo de cuidado com tudo isso.
Nonada Jornalismo – A cor capta/captura muito. No Pavilhão da Bienal, percebi o movimento de várias pessoas alucinadas pela cor vibrante das suas obras.
Gervane de Paula – Eu venho de uma região onde tenho os três ecossistemas a meu favor. Temos a floresta, o cerrado, o pantanal matogrossense. É uma paleta esplendorosa, elementos de arte que acionam o processo criativo e o próprio trabalho.


Nonada Jornalismo – Você lida também com alguns conflitos que se expressam, claro, no Mato Grosso, mas que dialogam com toda constituição do país: a questão fundiária, o desmatamento, as queimadas. O senhor já sentiu medo alguma vez por abordar essas temáticas?
Gervane de Paula – Sim, já tive obras que não foram possíveis de serem expostas. Aqui em Cuiabá também houve obras que não foram permitidas. [Teve uma ocasião] em que em uma semana as instituições estavam pedindo para retirar. Por incrível que pareça, eu sou bastante censurado.
Nonada Jornalismo – Eu imaginei que poderia ter já acontecido de alguma forma, porque o senhor lida com os poderosos, sempre tratando do poder.
Gervane de Paula – Sim, eu gosto de mexer com o próprio estado da arte, com o avanço do agronegócio em um estado que é muito agressivo.Eu não sou turista, sou morador aqui, nascido aqui. Eu amo aqui, mas também não gosto de aceitar esse estado de coisa, porque eu posso de alguma forma expressar os meus pensamentos. Eu pinto, a cidade, as festas, a paisagem.
Eu comecei muito cedo, mas também tive a influência desses artistas, mas também conheci, viajei e conheci outros artistas. Conheci os artistas dos anos 70, os artistas brasileiros, que eram artistas bastante, antes, com um olhar bastante crítico sobre essa sociedade. Eles também me influenciaram muito, até em coisas que eles trabalharam sobre esses assuntos. A ditadura acabou, mas os problemas não acabaram, eles permanecem. A questão racial e a violência no Brasil e no mundo também aparecem no meu trabalho.

Nonada Jornalismo – E o que seria liberdade artística para o senhor?
Gervane de Paula – Então, eu acho que a questão da liberdade artística é circular a obra, né? É aí que está o problema. Não só a pintura, a escultura, os desenhos, a literatura.
Aqui, tem um poeta do Maranhão que fala também que o problema é circular a obra. Ele até chega a falar que a obra, enquanto não contracenar com você, com o público, ela ainda não é obra. O texto é a mesma coisa. Enquanto ele não for lido por alguém, que não seja quem escreveu, também não é texto.
Então, o maior problema ainda que a gente enfrenta é encontrar um jeito dessa obra circular, para, então, criar uma discussão. Acho que liberdade seria isso: poder circular a própria produção. Não só a questão logística, mas a ética, a moral, a política também, que são muito mais complexas do que a gente imagina.

Nonada Jornalismo – Voltando para a paisagem, o senhor poderia comentar mais sobre crescer nesse híbrido de paisagens, essa magia do Pantanal e do Cerrado?
Gervane de Paula – São, exatamente, as cores. Cuiabá tem o sol mais amarelo do Brasil, talvez do mundo. Tem até um apelido, porque chamamos a cidade de Cuiabrasa. É uma cidade bastante iluminada, as nuvens são todas gordas, parecidas com tornozelos e joelhos. Sol é energia, né? São, exatamente, esses fenômenos, esses elementos da natureza que me levaram e me levam.
Eu nasci num bairro chamado Araés. Araés é um nome de origem indígena de um povo já extinto. Do lado tem um bairro chamado Quilombo, que, realmente, era um quilombo. Do outro lado, tem um bairro chamado lixeira, uma planta típica do Cerrado. Ela cresce um pouco, aí vem a queimada, e ela diminui. Ela é toda torta, tem umas folhas gigantes e a textura de uma lixa.
Eu nasci ali dentro, praticamente. A natureza é o meu quintal. Eu não tinha como fugir, nem queria, nem precisava. Isso aparece na minha arte desde o início. São materiais simples, que eu coloco perto de mim mesmo, que são descartáveis. Eu não faço reciclagem de nada, eu não tenho essa ideia de salvar o mundo, nem de reciclar as coisas.

Nonada Jornalismo – Gervane, outro aspecto bastante importante do seu trabalho, muito visível na instalação da 35ª Bienal de São Paulo, é o híbrido entre o corpo humano e o corpo do animal. O que lhe encanta nessa dissolução de fronteiras entre o bicho e o homem?
Gervane de Paula – Nós aqui quase todos temos apelido de bicho, né? É uma coisa, é herdado dos pais, da mãe, é uma cultura nossa que é herdada. Relacionamos uma pessoa a um animal. Às vezes, eu faço por brincadeira, às vezes por normalidade também. É uma sacanagem talvez, né?
Os animais conversam, eles contracenam na minha obra. Eles falam uns com os outros. Os Tamanduás falam com as Cobras, tem todo um diálogo entre com a moldura. Eu preciso fazer esse trabalho desse jeito, porque eu moro aqui. O importante para mim é fazer um trabalho que tenha esse sotaque regional.

Nonada Jornalismo – E o senhor tem um apelido?
Gervane de Paula – Eu tenho várias. Minha mãe me chamava, às vezes, de tatu-bola. Porque tem três tatus, né? Tem o tatu-galinha, o tatu-ganassa e o tatu-bola.
Nonada Jornalismo – Por que será?
Gervane de Paula – É pela semelhança da pessoa com o animal ou pelo comportamento que a pessoa tem. Eu acho que quando eu nasci, ela e as irmãs dela que cuidavam da gente, ou tinha esse formato aí. Hoje não me chamam mais assim. Hoje só me chamam de Gervane mesmo.
Nonada Jornalismo – No momento, o que tem sido mais ardente na sua produção?
Gervane de Paula – A gente sempre está partindo da última obra, do último passo. Eu acredito que o artista pode demorar muito tempo sem produzir, porque aí quando ele retorna, ele retorna exatamente onde ele parou. Uma obra vai empurrando a outra. Eu gostaria que a minha obra ganhasse formato maior. A ideia agora é essa: usar materiais com mais poder, até mesmo lidar com madeiras de demolição ou madeiras que caem na cidade. Quero fazer trabalhos bem maiores do que esses que eu apresentei na Bienal. Embora o tamanho não seja documento, né?