A cultura popular brasileira está em mais lugares do que se imagina. Além de inspirar filmes, livros, peças, animações e diversas outras formas de expressões, a multiplicidade cultural que pulsa nas comunidades do Brasil inspira também jogos digitais, cujas histórias carregam elementos vivos que ora remontam à musicalidade brasileira feita nos tambores, ora trazem às telas de monitores e celulares as paisagens da floresta amazônica. Mas não sem sensibilizar para a história e atualidade do país a partir da crítica.
No jogo Dandara (2018), do estúdio independente mineiro Long Hat, a personagem central, que é inspirada na guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares de mesmo nome, tem a missão de lutar contra a opressão e garantir a sua liberdade num mundo de espíritos antes livres. Uma das habilidades que a protagonista ganha é dada por uma personagem inspirada no Abaporu, de Tarsila do Amaral.
Em Turi – Kaapora, jogo estúdio independente Vortex Indie Games em fase de desenvolvimento, Kaapora é uma entidade guardiã ancestral da floresta amazônica que luta contra a devastação promovida por uma empresa em seu território. Seus armamentos e habilidades incluem instrumentos indígenas e a força de animais encantados e de espíritos da floresta.
Tanto Turi – Kaapora, que significa fogo de caipora na língua tupi-guarani, quanto Dandara retratam cenários de diferentes momentos brasileiros a partir de elementos que constituem a cultura popular. Quando o aspecto didático dos jogos encontra referências no próprio território onde são desenvolvidos, muitos caminhos podem se abrir, principalmente aqueles relacionados à identificação que uma narrativa já conhecida e presente de alguma forma na vida das comunidades brasileiras pode causar nos jogadores. Essa aproximação é basilar na cultura de criação de jogos do Vortex Indie Games.
“Enquanto tantas produções olham constantemente para fora em busca de referências, sentimos que a nossa missão é justamente olhar para dentro e mostrar o quanto existe aqui”, diz Victória Motta, diretora de arte do estúdio. Ela conta que um dos principais objetivos do estúdio é levar o jogo para diferentes comunidades indígenas, com tradução para o Tupi Potiguara, o Guarani Mbya e o Nheengatu, “contribuindo para que essas línguas possam ocupar também novos espaços dentro do universo dos jogos”. Para alcançar esse objetivo, o estúdio contou com a participação de consultores, atores e atrizes falantes das respectivas línguas indígenas e profissionais especializados em tradução.
A ideia do jogo foi concebida ainda no curso de Design de Games da Universidade Anhembi Morumbi, durante o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do grupo que forma o Vortex, cujo tema foi a representação indígena na mídia de jogos digitais. Num primeiro momento, o grupo então formado por cinco estudantes pretendia abordar os incêndios e garimpos ilegais em áreas de Mata Atlântica.
Definida a temática central do jogo, pareceu natural que o arco narrativo do jogo fosse centrado em e liderado por uma entidade indígena, se tornando uma conexão direta com a narrativa que o Game/level designer e Tech art Rafael, o Sound design Ryan, o Programador lead Murillo, o Bizdev João e Victoria pretendiam construir. Desde então, o grupo tem buscado “criar representações respeitosas que dialoguem de forma genuína com a cultura e cosmovisões dos povos indígenas do Brasil”.
Assim como diversos setores da cultura que enfrentam dificuldades para conseguir financiamento para seus projetos, o Vortex Indie Games ainda não possui previsão de lançar Turi – Kaapora oficialmente em virtude da falta de recursos. Até o final deste ano, o estúdio pretende lançar uma versão demo com a primeira das cinco partes do jogo, a ser disponibilizada na plataforma de jogos Steam. Ao Nonada, a diretora de arte do estúdio disse que a expectativa é concluir e lançar o jogo dentro de dois anos, “mas só se conseguirmos algum financiamento de edital”. Atualmente, o estúdio desenvolve o jogo sem verba.
Conheça 8 jogos de estúdios independentes brasileiros cujas histórias foram desenvolvidas a partir de elementos da cultura do Brasil:
Mandinga: A Tale of Banzo, 2021

Ambientado no período colonial brasileiro, o jogo traz a história de dois guerreiros trazidos à força do continente africano para servir de mão de obra escravizada em fazendas no Brasil. Akil, um muçulmano intelectual de origem mandinga, e Obadelê, forte guerreiro iorubá e mestre da capoeira, lutam contra as opressões de seus algozes em busca de suas liberdades. Segundo Lahiri Abdalla, roteirista e desenvolvedor do jogo, essa multiplicidade da identidade dos personagens, com destaque para suas individualidades, é uma maneira de desconstruir o estereótipo de que os povos africanos escravizados eram todos iguais.
Na história, lançada em 2021, Akil e Obadelê fogem para o Quilombo de Urubu, o quilombo mais importante da Bahia durante a escravidao, situado no Subúrbio Ferroviário de Salvador liderado por uma mulher, Zeferina. A fuga dos heróis é marcada por batalhas contra capitães do mato, bandeirantes, feitores, mercenários e animais selvagens, em referência aos desafios reais enfrentados pelos povos negros que resistiam às correntes da escravidão imposta pela branquitude brasileira.
Huni Kuin: Beya Xinã Bena, 2026

Desenvolvido em colaboração com o povo Huni Kuin do Acre, pela Associação dos Povos da Terra (Apoti) e pelo estúdio brasileiro Philosophical School of Games, Beya Xinã Bena é um jogo baseado em sete histórias ancestrais que perpassam por mitos e cantos do povo de mesmo nome. Cada uma das fases do jogo, cujo visual é em 2d, representa um conto tradicional dos Huni Kuin e um encontro com seres encantados, animais sagrados e mistérios de uma floresta que é viva. Ao longo das fases, o personagem, um indígena do povo Huni Kuin, atravessa a floresta munido de arco e flecha e enfrenta serpentes, fogo fátuo e outras criaturas, ora pegando carona no nado de peixes, ora esbarrando em pinturas com representações indígenas. O jogo está previsto para ser lançado até o final do 3º trimestre de 2026.
Dandara, 2018

Com uma protagonista inspirada na guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares durante o período colonial no Brasil, Dandara mistura referências culturais à fantasia. Ao longo da história, a personagem luta pela sua liberdade no mundo de Sal, cujos cidadãos, antes espíritos livres, passaram a ser oprimidos e isolados. Para escapar da opressão, Dandara luta contra criaturas místicas e desvenda uma série de mistérios. O jogo possui animação 2d e segue o gênero “Metroidvania”, em que o progresso no jogo está à mercê da descoberta de habilidades. Uma das personagens que desbloqueia uma das habilidades de Dandara é inspirada no Abaporu, de Tarsila do Amaral. Desafiando a gravidade, a movimentação no jogo ocorre exclusivamente através de saltos, com os personagens saltando do chão ao teto e para as paredes em ordem de avançar na história. Disponível tanto para console, PC, Nintendo Switch e mobile, o jogo foi desenvolvido pelo estúdio Long Hat, de Belo Horizonte, Minas Gerais.
Língua, 2021

Língua, ambientado no sertão nordestino, conta a história de Beto, um jovem garoto que mora numa pequena fazenda em território árido. Depois que seu animal de estimação, um bode, desaparece na caatinga, Beto acaba adentrando um mundo encantado onde o cotidiano e o mágico se fundem, encontrando elementos do folclore brasileiro. A partir daí, a missão do personagem deixa de ser apenas o reencontro com o seu amigo e se transforma na libertação de espíritos animais da paisagem através de puzzles e desafios, se tornando uma jornada bem maior do que Beto imaginava. Desenvolvido por Guilherme Giacomini, o jogo foi lançado em outubro de 2021.
A Nova Califórnia, 2017

Baseado no conto de mesmo nome do escritor brasileiro Lima Barreto, A Nova Califórnia mistura o fúnebre e o mistério numa experiência inusitada de ação e aventura. Na pacata cidade de Tubiacanga, interior do Rio de Janeiro, um crime incomum dá início à uma investigação para saber quem está roubando os ossos dos defuntos do cemitério local. Na mesma época em que o crime acontece, chega à cidade um forasteiro misterioso, que logo levanta suspeitas sobre sua aparição. No jogo, a missão de quem joga é utilizar picaretas para quebrar tumbas e furtar ossadas de entes queridos sem ser flagrado pelo famoso boticário da cidade, Bastos, que se responsabiliza pela investigação do crime. Além da ação que permeia o jogo, a presença de recursos estratégicos psíquicos e morais, como o ego e a ética, e de sentimentos como ganância, atribuem maior complexidade à sua jogabilidade.
TURI – KAAPORA, 2026

“Quem não escuta a voz da terra, tenta possuí-la à força.” Com uma história inspirada na cosmovisão indígena tupi-guarani, Kaapora é uma guardiã ancestral da floresta que enfrenta a destruição causada por humanos, munida com a força de animais encantados, entidades espirituais e instrumentos indígenas. Para impedir que a escuridão devastadora crie raízes no território de Nhe’ery, Kaapora batalha contra os soldados armados de uma empresa cuja exploração da floresta resulta em degradação ambiental. O jogo conta com animação em 3d e as escolhas realizadas ao longo do jogo mudam as possibilidades de luta da personagem. Desenvolvido pelo Vortex Indie Games, Turi – Kaapora ainda não tem previsão de lançamento.
Arida: Backland’s Awakening, 2019

Neste jogo desenvolvido pela Aoca Game Lab, a personagem Cícera explora o sertão nordestino ao mesmo tempo que luta pela sua sobrevivência numa travessia para reencontrar seus pais. Ambientado no fim do século XIX, na Bahia, o jogo traz referências diretas à região de Canudos, onde ocorreu a sangrenta Guerra de Canudos, em 1896. Para conseguir encarar a seca, conseguir água, cortar milho e abrir caminhos, os equipamentos de Cícera, como o facão e a enxada, são indispensáveis. Além dos equipamentos, a interação com os habitantes mais velhos do vilarejo é tão necessária quanto, à medida que é através dos conselhos recebidos que Cícera descobre novas formas de conseguir água e comida. Ao encontrar objetos perdidos, a protagonista também descobre novas histórias sobre o lugar onde nasceu. Árida, lançado em 2019, foi financiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia através do Edital de Culturas Digitais (FCBA) de 2014. O sucesso do jogo também garantiu o Arida 2, que está em desenvolvimento e deve ser lançado em breve. Confira também a a entrevista com o estúdios realizada pelo Nonada.
Cuca Catch, 2022

Baseado no folclore brasileiro e com um visual inspirado em cordel e xilogravura, Cuca Catch é um jogo que se joga com as expressões faciais do rosto a partir de tecnologia de identificação facial. Voltado para aparelhos móveis, neste jogo de competição para se tornar o melhor aprendiz da Cuca (personagem do Sítio do Picapau Amarelo), o jogador precisa coletar os ingredientes solicitados. Utilizando as sobrancelhas, é possível mover o personagem para cima e para baixo, enquanto o biquinho feito com a boca é usado para direcionar o personagem para a esquerda ou direita. Os desafios propostos pela Cuca podem se tornar mais complexos a depender do modo em que se joga, fácil, médio ou difícil. O jogo foi desenvolvido pelo desenvolvedor de software Matheus Kulick e lançado oficialmente em 2022.


