Que terra? Como a cultura Hip Hop denuncia racismo ambiental e injustiça social 

Videoclipe do rapper angolano Kizua Trindade denuncia a violação de direitos da população atingida pela enchente no RS
Gravações do videoclipe Volte Para Sua Terra, do rapper Kizua (Foto: divulgação)

“A água chegou forte, hoje meu peito chora. Pra que terra eu volto? Fosse tudo embora”, essa era a pergunta que pairava no ar, quando Kizua, Eddy, Leal, Drop, Madu e eu, Jênifer, decidimos viajar. Saímos da capital, Porto Alegre, rumo ao interior do Rio Grande do Sul para gravar o videoclipe Volte Para Sua Terra. Foram dois dias hospedados na casa de dona Juraci Padilha, de 68 anos, que é ex-moradora do Marmitt (Estrela), local escolhido como cenário das gravações. Um bairro operário parado no tempo, tomado por destroços e mato alto. Com árvores e postes sob casas destelhadas, cobertas de lama e paredes engorduradas de graxa das fábricas. Não era minha primeira vez ali, e justamente por isso retornei. 

O que nos inspirou a usar o rap como ferramenta de denúncia foi o silêncio que hoje domina as ruas do Marmitt. Porque ele nos faz lembrar de quem não pode voltar para lá: a vizinha que pedia um bocado de açúcar, os piás que deixavam a bola cair no pátio do morador mais rabugento da rua e o cheiro de cebola e alho fritando que escapava das casas ao meio-dia. Tudo isso virou memória desde a enchente de maio de 2024, quando o lugar passou a ser considerado inabitável. 

Por ter sido escrita para o edital Arte-Jornalismo: Cultura Viva, do Nonada em parceria com o Goethe-Institut Porto Alegre, a canção do clipe já tinha um tema definido: Os impactos da crise climática. Porém, ainda carecia de uma letra. Quando escutei a melodia que Kizua separou, uma ideia brotou na minha cabeça: “E o que fazer quando não puder mais voltar?” O verso traduz a incerteza das 17,4 mil famílias atingidas que aguardam na fila por uma nova moradia. Enquanto a casa definitiva não vem, parte desse contingente é alocado em vilas de britas e contêineres de concreto. Onde enfrentam traumas psicológicos, endividamento e problemas que são grandes demais para caber numa casa de apenas 27 metros quadrados. 

Entre o comunicador e a mensagem, há um atingido

Movimento que representa os atingidos pela enchente, o MAB, também participou do videoclipe (Foto: Leal)

Com o refrão pronto, o restante ficou por conta do Kizua, que compôs a rima ciente da sua função, como o próprio afirma: “O rapper também é um comunicador”. Ele explica que esse estilo musical alcança pessoas que não consomem informação de modo convencional, e veem no rap uma forma alternativa de se inteirar sobre o mundo. “O rap entra no subconsciente das pessoas e faz elas se conectarem com temas profundos, aqui no caso, os impactos causados pela enchente.”

Oriundos das batalhas de rima e dos Slam ‘s, a maioria dos jovens que construíram comigo o material audiovisual são ligados à Cultura Hip Hop. Cada um de nós tínhamos uma lembrança diferente do período da enchente de maio de  2024.  Lembro que foi tudo tão traumático que passei meses sem escrever uma única poesia. Hoje, aproveito esse texto para respingar um pouco dela por aqui enquanto me recordo de quando reencontrei Kizua no meio do caos dos alagamentos:

Naquela altura do mês, não parava de cair água do céu
Ela enchia os rios, invadia bairros e deixava milhares de famílias ao léu
A bendita água já tinha se tornado maldita pela boca do povo
Insistia de escorrer até os olhos, como um sinal de socorro 

Mas fazia falta na torneira, 
Foi então que enfrentamos a seca nos amontoando em fileiras
Eu dizia: “Pessoal, muita calma! Só vai encher o galão quem fizer fila única
Eu preciso que vocês entrem na fila sem furar
Quem tá com garrafa pet já corta a parte de cima pra facilitar”


Kizua, assim como muitos, não imaginou que ficaria 40 dias fora de casa
Por isso levou uma mochila com quase nada
Recém o inverno havia iniciado
O jovem teve que sair em busca de calças de moletom e sapato
Foi assim que eu o revi, num centro de doações onde fazia voluntariado 


Sem sorrisos, entretanto, não parecia estar bolado
O que o mantinha calmo era saber que seu apartamento é alto
Portanto, não estaria alagado
Ainda assim, ele ficou 40 dias desabrigado

Bastidores da gravação do clipe de “Volte para a Sua Terra”, em casa atingida por enchente em Estrela (RS) (Foto: Leal)

“A questão é como a gente faz a cultura chegar em quem mais precisa”

A enchente impactou diretamente sua realidade. Mesmo sem o alagamento do imóvel, os efeitos apareceram na interrupção da rotina, na perda de renda e na paralisação de eventos culturais, comprometendo toda uma cadeia produtiva, que depende da circulação do público. Como outros artistas da cena, Kizua, eu e os demais envolvidos neste projeto, não fomos atingidos somente pela emergência climática, mas pelas consequências econômicas e sociais que recaíram sobre o setor cultural. 

Responsável por coordenar o Museu do Hip Hop, Aretha Ramos também liderou as ações de solidariedade durante as enchentes (Foto: Jênifer Tainá)

Diante desse cenário, a coordenadora da Associação de Hip Hop de Esteio, entidade criadora do Museu da Cultura Hip Hop do RS, reforça que a cultura não ficou de braços cruzados. O mês de maio daquele ano nem tinha acabado e o museu já havia estruturado um programa com cerca de R$500 mil, para incentivar a continuidade da produção cultural. 

As ações previam prolongar a distribuição de cestas básicas, realizar grupos terapêuticos para pessoas atingidas, apoiar financeiramente espaços culturais afetados e disponibilizar um crédito dentro da economia do hip hop destinado para os artistas. Assim, fazendo girar o dinheiro entre eles.  O resultado foi um sucesso que beneficiou cerca de 400 famílias, 200 artistas e 58 instituições atingidas, dando fruto a uma exposição, que pude conferir de perto durante minha visita ao museu, quando conheci Aretha Ramos. 

No decorrer da caminhada pelo museu, Aretha me revela como a instituição protagonizou as ações de solidariedade durante a enchente: “A gente foi um centro de logística de recebimento e distribuição de doações enviadas de diferentes partes do país”. Ainda complementa que “a mobilização envolveu toda a comunidade do hip hop”, leiloando grafites para arrecadar fundos, além de receber doações de rappers como BK, Felipe Ret e Mano Brown. 

Ao todo, foram distribuídas pelo centro cultural mais de 300 toneladas de alimentos, itens de higiene e colchões. Diante da impossibilidade de muitas famílias utilizarem alimentos crus, o museu também fez a produção de marmitas. As refeições atendiam tanto quem estava nos abrigos quanto os voluntários que permaneceram no museu por dias. “Não adiantava doar a cesta se não tinha como cozinhar”, relata a coordenadora, que na época organizava ações de solidariedade enquanto acolhia parentes desabrigados em casa.

Hip Hop se faz em comunidade

O Museu do Hip Hop não se restringiu à classe artística, também apoiou iniciativas comunitárias, como a Associação dos Haitianos no Brasil (AHAB), que recebeu as doações para auxiliar os imigrantes que estão tendo que recomeçar a vida, dessa vez, por causa da cheia. A presidente da AHAB, Anne Milceus Bruneau, explica que muitos acabam morando em bairros ribeirinhos, ou próximos a diques e valões devido ao menor custo de vida. Nesses locais, conseguem arcar com o aluguel e ainda enviar parte da renda ao país de origem. Essa realidade está ligada às dificuldades de uma boa inserção ao mercado de trabalho, especialmente para quem não domina o português. Com isso, a população imigrante fica mais vulnerável e à mercê dos eventos climáticos.

A associação de imigrantes haitianos fica no Sarandi, um dos bairros mais atingidos pela enchente (Foto: Jênifer Tainá)

Há 6 anos, Anne prestava serviços a imigrantes de forma voluntária e informal. Após a enchente resolve fundar a AHAB, a associação que nasceu de uma parceria de longa data entre ela e o rapper angolano Kanhanga. Afastado dos palcos, hoje ele é o responsável pela Casa do Imigrante. Aliás, se existe algo comum entre integrantes da Cultura Hip Hop, é o fato de que aos poucos seus artistas vão se engajando no ativismo. Kanhanga pontua que ao acompanhar as andanças do museu aprendeu sobre como dar visibilidade a quem mais precisa por meio da articulação. Uma atuação cultural que se desdobrou em organização social. Afinal, não é atoa que antes de Hip, vem Movimento.

O Hip Hop é feito em comunidade, então foi a partir dessa lógica que executamos o projeto “Volte Para Sua Terra”: não como um videoclipe feito sobre os atingidos, mas com eles. Construído em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, o clipe reuniu pessoas que vivem essa realidade no dia a dia. Tirando o Kizua, todo o elenco é formado por moradores de Estrela (RS), que aceitaram participar das gravações depois de um encontro no bairro Nova Morada, onde ficam instaladas as moradias provisórias. Fomos autorizados a assistir a reunião dos moradores e, desse jeito, encontramos uma brecha para fazer o convite oficial para que eles participassem do videoclipe.

Kellen, sua filha Gabrielly, o vizinho Valdeno e dona Juraci, que nos acolheu em sua casa, ficaram o domingo inteiro fazendo a gravação conosco. O resultado é mais do que um produto audiovisual: é um processo coletivo, onde o rap vira denúncia.

Movimento acima de tudo

Assim como Kizua, Aretha também entende o rap como um instrumento de transformação, e a própria trajetória dela comprova isso. Sua virada de chave começa em 2009, ao entrar em contato com as batalhas de rima em São Paulo. A experiência a inspirou a criar, em Porto Alegre, a Batalha do Mercado. “Eu não me identifiquei como artista, mas me vi num lugar de produção”, conta. 

Foi nesse processo que ela passou a compreender o hip hop para além do entretenimento. “A cultura hip hop nasce para combater a violência, dar voz a quem vive à margem. Ali, eu entendi que era muito mais do que um rolê, e que existia um compromisso.” Esse compromisso atravessou também sua vida profissional. Formada em administração, Aretha encontrou no movimento um sentido prático para sua atuação: “Eu sempre gostei da área administrativa, mas foi na cultura hip hop que vi onde isso poderia gerar impacto de verdade”. Se, para Aretha, o rap abriu caminhos de atuação, para Kizua ele foi também um espaço de reconstrução.

Acostumado a gravar e prestes a lançar seu novo álbum, Kizua leva Jênifer para sua primeira sessão de gravação em um estúdio (Foto: Madu K.Leal)

“Eu lembro que foi difícil o período de chegada.” Aos 13 anos, ao sair de Angola para o Brasil, KZ enfrentou desafios que marcaram sua trajetória. Primeiro, a saudade da mãe que ficou em Lubango. Depois, o racismo dentro da escola. “Lá em Angola todo mundo é preto. Aqui, boa parte da população é branca. Eu me sentia inferior a quase todo mundo. Sonhei por muito tempo em voltar, porque não me encaixava aqui.” Mesmo assim, havia um motivo para ficar: reencontrar o pai, que já vivia em Porto Alegre. 

Em 2018, o rap entrou de vez na sua vida. “Encontrei na cultura um espaço de empoderamento.” Mais do que uma escolha artística, o rap se tornou um caminho possível. “Hoje parei de me esconder. Consigo me sentir mais em casa, muito pela autoestima que o hip hop me deu.” Nem sempre foi fácil sustentar esse caminho. A família demorou a entender sua decisão de seguir na música. “A gente não cresce com essa ideia de viver do próprio sonho. Venho de um país pós-guerra, onde as pessoas trabalham com o que aparece.” 

O reconhecimento dos familiares veio em meio a um momento difícil, quando Kizua enfrentou uma depressão. Foi ali que a família passou a enxergar o rap como possibilidade real de transformação. “Quando pego a caneta, coloco pra fora coisas que nunca tiveram espaço. Porque o rap me ajuda a imaginar como a gente pode viver uma vida melhor.”

Entre produção cultural, sobrevivência e reconstrução, o rap atravessa essas trajetórias como algo que organiza a vida. Não só como música, mas como linguagem, ferramenta e caminho.

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