Um Brasil feito à mão: milhares de pessoas debatem o futuro e os desafios das culturas populares na Teia Nacional

6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reuniu 4 mil pessoas para pensar políticas para as culturas populares do Brasil
Foto: Julia Faè´ /MinC

Aracruz (ES) – Em meio a uma multidão de trajes coloridos e vibrantes, avista-se de longe um corpo de estatura baixa. Sua cabeça, adornada de um capacete repleto de penas nas cores cinza e branco, é como a de um pássaro. O bico alongado, costurado à mão com linha branca e pequenas franjas, e os olhos verdes sobressaltados chamam a atenção. Por baixo das penas, está a pessoa que sustenta o bicho: Mestra Marvão, de 56 anos, fazedora de cultura, artesã e guardiã de um grupo de Cordão de Pássaros Juninos em Salinópolis, no nordeste do Pará. 

O pássaro  a qual ela dá corpo não é um pássaro qualquer. Marvão está vestida de Maçariquinho, uma ave pequena, de patas longas, considerada tímida e simpática, que vive nas regiões costeiras. É uma parte do próprio território expressada no corpo. Foi assim — expressando o lugar de origem no corpo — que os 870 agentes delegados e mais de 4.000 participantes que estiveram presentes na 6ª Teia Nacional, em Aracruz, município com o maior número de territórios indígenas do Espírito Santo, que ocorreu de 18 a 24 de maio. O evento foi realizado pelo Ministério da Cultura. 

Essa é a primeira vez que a mestra participa do evento, o maior encontro de pontos de cultura do país, retomado após 12 anos da última edição. Embora já atue na cultura popular há mais de três décadas, o processo de identificação como mestre, fazedora de cultura e agente da Cultura Viva, levou muitos anos. Seus olhos, por baixo dos olhos do Maçariquinho, contam mareados que a cultura popular transformou os rumos da sua vida. O trabalho com a tradição dos pássaros juninos, presente principalmente no Norte do País, mudou diferentes aspectos da sua vida e lhe auxiliou a sair de um contexto de violência doméstica.

Na carta oficial produzida como resultado do encontro, a palavra futuro estava em destaque.  “O futuro não mora nas promessas das grandes corporações nem nos algoritmos que transformam a humanidade em dado comercial. O futuro dança nos terreiros, canta nas aldeias, pulsa nas periferias, navega nos rios e floresce nas mãos de quem cultiva a memória coletiva. O futuro é ancestral porque nasce da sabedoria de quem aprendeu, há séculos, a existir sem destruir a Terra”, diz o documento. 

Mestra Marvão (Foto: Anna Ortega/Nonada)

Para que esse futuro aconteça, o trabalho com a cultura popular, para mestres e mestras ouvidos pelo Nonada, nos dias de evento, envolve um fator em comum: a resiliência. “Após 22 anos de caminhada coletiva, ainda é preciso avançar a partir da escuta ativa que vivem a realidade na ponta, presentes neste encontro. Os encaminhamentos e propostas aqui apresentadas deverão ser norteadoras do desenvolvimento e implementação das futuras políticas públicas estruturantes de base comunitária.”, resume a carta.

Por muitos anos, Mestra Marvão precisou lutar pela manutenção das atividades, muitas vezes não compreendidas pelas gestões municipais da cidade. Só que desistir não é uma palavra que costuma existir no vocabulário dos agentes da Cultura Viva, que costuram, tecem, recriam modos de fazer mesmo diante de contextos historicamente não favoráveis. “Quando você se integra e se joga na cultura popular, você não tem dinheiro. Você trabalha por amor”, declara a mestra com a voz embargada.

Ela destaca a importância das políticas recentes de fomento, como a Lei Paulo Gustavo, que foram marcos para o estabelecimento da Associação. “Os pássaros, como eu falei, resgataram muitos de nós, porque nós éramos profissionais que estavam ali adormecidos. Foi através desses voos que a gente não desistiu dos nossos sonhos”, conta Marvão, que além de guardiã do grupo é também costureira e moldista. 

Em seis dias de evento, uma programação extensa se desdobrou em diferentes espaços de Aracruz, sendo o SESC de Aracruz o local principal das programações. As frentes principais foram os momentos de articulação política nos fóruns, as apresentações artísticas e culturais e as vivências em territórios, como as noites culturais na Aldeia Irajá, do povo Tupiniquim. Os deslocamentos fizeram parte da estrutura de organização da 6ª Nacional: para vivenciá-la, não era possível permanecer no mesmo lugar. De forma simbólica, essa também é uma mensagem significativa dos caminhos apresentados pelos pontos de cultura do Brasil para pensar a justiça climática. 

O encontro foi um retrato da pluralidade da cultura popular tradicional e brasileira. Um dos momentos mais importantes da TEIA foi a realização do 5º Fórum Nacional de Pontos de Cultura, um momento que reuniu as delegações das 27 Unidades Federativas do Brasil. Cada delegação, escolhida a partir de fóruns estaduais que reuniram mais de 3.500 pontos de cultura, produziu um estandarte para o evento, um objeto que, mais do que um requisito, se tornou um símbolo da pluralidade de cultura de cada lugar e mesmo do Brasil. Os estandartes de cada estado mostravam histórias, instrumentos, expressões culturais típicas de cada região. 

O emblema do Piauí trouxe em primeiro plano a imagem do Bumba meu Boi, do Cajú, da Flecha de Oxóssi, ao lado de Nego Bispo, intelectual quilombola, que encantou em 2023. O encontro dos estandartes diferentes, coloridos, artesanalmente confeccionados, mostravam um Brasil feito à mão. O estandarte da Paraíba, feito em tecido acolchoado vermelho, expressava uma releitura da própria ave da identidade visual da TEIA, ao lado de instrumentos de percussão, peixes, e uma igreja azul com fitas coloridas. 

Fazedoras de cultura carregam estandartes representando delegações de seus estados na Teia (Foto: Anna Ortega/Nonada)

A Teia mostrou também que a Cultura Viva tem um vocabulário próprio para falar do Brasil. Algumas palavras eram pronunciadas com alguma frequência como Gestão Compartilhada, Base Comunitária, Pontos de Memória e Bem Viver. O livro ABC Cultura Viva, elaborado pelo Ministério da Cultura e pelo Consórcio Universitário Cultura Viva, da UFBA, UFF e UFPR, que foi lançado no evento, reuniu alguns desses termos que norteiam a Política das culturas de bases comunitárias no Brasil. 

Os vocábulos não servem apenas para pesquisadores, mas para as próprias comunidades envolvidas. O encontro foi um momento de reconhecimento, dos mestres poderem se encontrar, dos pontos de cultura serem certificados com placas de identificação, dos agentes culturais nomearem aquilo que já fazem há muito tempo. “Por incrível que pareça, eu estou entendendo agora o que significa mestre, o que significa Cultura Viva, porque a gente tinha know-how, mas não entendia”, conta Marvão. Segundo ela, quem produz cultura popular no país está contribuindo para a manutenção dos saberes e para a salvaguarda dos patrimônios culturais.

“Nós trazemos os nossos netos, os nossos filhos, a comunidade, os jovens para dentro da cultura, mesmo quando muita gente tem vergonha. A gente está conseguindo conectar a comunidade com a nossa história, com o passado, o presente, com esse futuro que não nos pertence, mas se a gente não organizar ele, se esses mestres — que somos nós — não contarmos a história, a gente não vai conseguir levantar.”

O histórico da Teia

No ano de 2004, durante o primeiro governo Lula, o debate sobre direitos culturais no Brasil ganhou maior tração quando foi instituído o Programa Cultura Viva, atualmente a mais importante política de base comunitária do Brasil. O programa, que tem transformado a cultura em um pilar para a transformação social, contribuindo com o desenvolvimento econômico nacional, foi o responsável pela criação dos Pontos e Pontões de Cultura espalhados pelo país, espaços comunitários que promovem as culturas populares a partir dos territórios. 

Naquele período, a ideia da criação de centros culturais com o objetivo de democratizar o acesso à cultura já estava entre as metas do governo federal há algum tempo, mas de um jeito bem diferente. Esses centros, pensados enquanto equipamentos arquitetônicos, seriam lugares onde se concentrariam manifestações culturais e artísticas abertas à comunidade. Contudo, isso não aconteceria sem que houvesse um incentivo à articulação dos espaços situados nos territórios em que a promoção da cultura já acontecia, há muito tempo, com força e continuidade. E esses espaços eram muitos, com uma variedade múltipla de atividades e debates sobre a cultura. 

Gilberto Gil, que à época estava à frente do Ministério da Cultura enquanto ministro, foi quem olhou para a cultura feita dentro dos territórios como um centro a ser incentivado, e não desarticulado. Conforme explica o sociólogo e Diretor da Política Nacional Cultural Viva (PNCV), João Pontes, a reflexão feita pelo ministério, na época, foi a de que, “ao invés então de construir os equipamentos, por que a gente não parte do princípio de que já existe, em cada território e em cada comunidade, grupos culturais que promovem o acesso da população aos bens e serviços culturais, que promovem a diversidade?”.

Espaço de articulação durante a Teia Nacional 2026 (Foto: Giba/MinC)

É desse pensamento que surgiu o Programa Cultura Viva. Ainda em seu discurso de posse, em janeiro de 2003, o então ministro da cultura trouxe a ideia do do-in antropológico, uma metáfora que propunha o massageamento dos pontos vitais, porém momentaneamente adormecidos do corpo da cultura brasileira para destravar energias criativas e descentralizar as políticas públicas do setor. Na base desse do-in (técnica oriental milenar de automassagem), estão os Pontos de Cultura. No primeiro edital do MinC voltado ao programa, cerca de 100 pontos foram contemplados e receberam fomento para suas atividades. 

“Eu diria que esses grupos [Pontos e Pontões de Cultura] estão fazendo um favor, porque eles estão cumprindo um direito do cidadão que é obrigação do Estado promover”, diz João. Para ele, um ponto de cultura está para o Sistema Nacional de Cultura (SNC) como um posto de saúde está para o SUS e como uma escola para o Sistema Nacional de Educação (SNE). “Só que a grande diferença é que, no caso da Cultura Viva, não são equipamentos públicos estatais, são os próprios grupos da sociedade civil executando a política pública”, completa.

Passados dois anos desde a criação do programa e da certificação da primeira leva de Pontos de Cultura, é realizada, em 2006, 1ª Teia Nacional, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. Com cerca de 400 pontos presentes, o tema da primeira edição foi Venha ver e ser visto. A primeira edição foi motivada pela vontade de reunir as pessoas envolvidas no Programa Cultura Viva, para que pudessem se conhecer e ser reconhecidos. Ao final do evento, o sentimento geral era o de que deveria haver uma participação maior dos Pontos e Pontões de Cultura nas políticas públicas da área. 

Em resposta a esse sentimento, no ano seguinte, a 2ª Teia, realizada em Belo Horizonte e com o tema Tudo de todos, sediou o 1º Fórum de Pontos de Cultura. Durante o Fórum, foi criada a Comissão Nacional dos Pontos de Cultura. “A Teia tem essa relevância política, seja do ponto de vista organizativo da rede, das suas representações, seja da política da afirmação das pautas”, destaca João.

 Em 2008, em Brasília, o tema foi Iguais na diferença. Em 2010, realizada em Fortaleza, o tema foi Tambores digitais. Diversidade foi o tema da 5ª Teia Nacional, realizada em Natal. Depois dessa edição, levaria 12 anos até que o próximo encontro nacional da Cultura Viva acontecesse. 

Programação artística durante a Teia Nacional 2026 (Foto: Gib/MinC)

A passagem do tempo não implicou apenas na mudança dos temas das Teias, como também incidiu, através das movimentações e reivindicações dos Pontos de Cultura, em maiores investimentos na política de Cultura Viva. “A gente já chegou a quase um bilhão de reais nesses três anos de governo do presidente Lula, com a Ministra Margareth Menezes, que é incomparável a qualquer outro momento. Para se ter uma noção, nos primeiros dez anos da Cultura Viva, foram fomentadas 3.500 iniciativas de Pontos e Pontões de cultura. Nesses três anos, nós fomentamos mais de 23 mil, referentes a esses quase um bilhão de reais”, ressalta João. 

A operação desse recurso nas 27 unidades federativas do país é possibilitada através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Segundo o Diagnóstico Econômico Cultura Viva, oficialmente lançado no primeiro dia da 6ª Teia, a maior fonte de acesso a recursos para financiamento público de projetos e atividades culturais pelos Pontos e Pontões de Cultura vem de editais municipais fomentados pela política. 

Outro dado indicado pelo Diagnóstico é o de que apenas 5,2% desses grupos acessaram os recursos da Lei Rouanet entre março de 2023 e fevereiro de 2025, revelando a dificuldade de acesso ao recurso por parte dos agentes da Cultura Viva. Para João Pontes, as desigualdades, a elaboração de projetos e o contato com iniciativas privadas são os principais entraves para uma virada de chave nesse cenário. 

“O prestígio social e econômico que um grupo cultural de base comunitária tem é diferente do que tem um grupo consolidado. Mas em termos de qualidade estética, certamente a gente [Cultura Viva] tem muita qualidade. Nós temos a necessidade de reestruturação dos mecanismos de fomento no Brasil. O incentivo fiscal ainda reproduz um modelo concentrador nas grandes cidades de Rio e São Paulo, e mesmo nelas, nos bairros onde estão os mercados financeiros, onde estão as grandes empresas”, contextualiza.  

Centro de articulação política

Nas salas e nos auditórios do SESC Praia Formosa, as discussões tratavam do avanço e da consolidação das políticas da Cultura Viva nos diferentes setores e instâncias governamentais. Mariana Botelho é diretora da Associação Mucuri Cultural, ponto de cultura com 18 anos de atuação no Vale do Mucuri, Minas Gerais, e participou do Fórum dos Pontos de Cultura. Sua atuação é voltada aos contextos de territórios rurais e ao acesso de direitos culturais pelas populações do campo. Ela participa ativamente da construção das políticas públicas no Estado, tendo integrado o Conselho Estadual de Política Cultural e a Comissão Mineira de Pontos de Cultura.

Uma das pautas que levou do seu território para o evento foi o contexto de escassez hídrica e de eventos climáticos extremos que vivem. Entre 2025 e 2026, ela participou da criação do Protocolo da Cultura, criada pelo Pontão Território Rurais e Cultura Alimentar, um documento que orienta os agentes em relação às mudanças climáticas e os desastres ambientais. 

Encontros dos Pontos de Cultura Indígenas durante a Teia Nacional (Foto: Filipe Araújo/MinC)

Segundo Mariana, a retomada da Teia é fundamental para “desadormecer” a Política Cultura Viva. Contudo, a gestora critica a metodologia de condução do fórum, especificamente a não leitura e aprovação do regimento pela plenária, o que impediu discussões e aprimoramentos importantes sobre a política e a organização dos pontos de cultura. “Perdemos a oportunidade de pensar de modo coletivo essa revisão metodológica”, avalia. 

  “A discussão aqui é como ficará a Cultura Viva para os próximos 10 anos. Nós nos mantivemos a duras penas no território. Digo, a rede mineira, em particular, porque é a que estou mais próxima, mas foi uma rede que resistiu apesar da não incidência de políticas públicas”

Para Mariana, o aumento expressivo de pontos de cultura certificados, também torna necessário a revisão da própria lei. “O fato de passarmos de algumas centenas de pontos de cultura para 16 mil pontos não é pouca coisa. Isso tudo muda o perfil da rede, o modo como esses pontos são certificados, o modo como eles atuam”, reflete. 

A formulação do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas também foi um dos temas centrais da articulação política da Teia. O documento formulado durante três dias de GT reúne propostas e diretrizes debatidas para subsidiar o início de uma nova fase de discussão, com participação de órgãos do governo federal, ministérios e demais instituições envolvidas na formulação da política. 

Nos debates, estiveram presentes diversas organizações, como o Comitê de Cultura do Acre, a Associação Xingu, a União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a  Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).

Na Teia, aconteceu também a eleição de novos delegados estaduais e a aprovação da ampliação dos grupos temáticos da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), que passou de 22 para 25 GTs. Entre os segmentos aprovados estão Cultura e Infância, Internacionalização das Raízes Tradicionais, Matrizes Africanas e Capoeira. Um dos GTs acompanhados pelo Nonada foi o de Matrizes Africanas, em que representantes de diferentes tradições afro-religiosas debateram e articularem estratégias específicas para as distintas expressões culturais afro-brasileiras. 

Na ocasião, Mãe Beth de Oxum reafirmou a importância de políticas específicas para os povos de terreiro ao ler uma carta escrita em conjunto durante o encontro. “Nós defendemos a presença estruturante dos povos de matriz africana no espaços de governança da Política Nacional Cultura Viva. Não reivindicamos presença episódica, ou simbólica. Reivindicamos participação permanente, qualificada nos processos de formulação, implementação, monitoramento e avaliação das políticas públicas de cultura”, dizia o documento. 

Desfile de moda durante a Teia Nacional 2026 (Foto: Foto: Julia Faé/MinC)

Em outro momento, um desfile de moda reuniu representantes das matrizes africanas em círculo, em um dos palcos da Teia, mostrando como as indumentárias, os símbolos, as características de cada rito mudam de acordo com cada região. Lideranças do Candomblé, do Batuque, do Tambor de Mina, do Ifá, da Umbanda e de outras tradições, mostravam, mais uma vez, a pluralidade do Brasil.

Mestres: educadores do Brasil

Nos distintos prédios do SESC Praia Formosa, era possível encontrar dezenas de histórias de agentes da cultura que transformam seus próprios territórios. Vestido com uma camiseta que estampava do Ateliê de Tambores, Mestre Sagrilo promove a educação a partir da cultura popular e afro-brasileira desde antes da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino das culturas afro-brasileiras e africanas nas instituições de ensino básico. No início dos anos 2000, ele criou o projeto Instrumentarte, no município de Serra, no Espírito Santo, com o intuito de levar instrumentos do Congo a crianças de 1 e 2 anos. 

A invenção é uma característica dos mestres. Como método de aprendizagem para as crianças, Sagrilo também desenvolveu toadas que contam histórias do estado. A tradição das paneleiras do Espírito Santo viu música para ele ao transformar a história em versos: O barro do Molembá / Em Goiabeira vira panela, o barro do Molembá /Em Goiabeira vira panela / Nela fazemos buquê de carruze e pirão.

Em um exemplo, o Mestre retrata a vocação dos agentes culturais de ensinar:  “Em uma música tem gastronomia, geografia e história”, destaca. Para ele, o fato de os mestres ensinarem as crianças colabora para que um conhecimento ancestral chegue nas famílias brasileiras “A criança repete, leva para casa, ensina os pais a cantar, explica de onde vem o barro, dá aula aula em casa. Essa é a ideia.”

O que começou com o Ensino Infantil, logo se expandiu para outras faixas etárias. Mestre Sagrilo começou, então, um projeto de levar mestres da cultura capixaba, da tradição das paneleiras e do Congo para ministrarem aulas nas escolas em Vitória. Ele já havia participado de outras Teias, desde a segunda, em Belo Horizonte. Ele considera que hoje a principal reivindicação é uma qualidade de vida melhor aos mestres: “Precisamos ser mais ouvidos e valorizados. Tem uns mestres não têm médico, plano de saúde. Precisamos cuidar mais dos nossos, porque daqui a pouquinho estão todos morrendo, sem serem reconhecidos no momento.”

Ele defende que a valorização dos mestres tem um impacto real na vida dessas pessoas. Um exemplo é uma situação que aconteceu alguns anos atrás com um ele, depois de um convidar o Mestre Reginaldo, mestre da banda de Congo Amores da Lua, para dar aulas em uma escola. “Ele estava muito doente na época, acamado. Quando eu passei na casa dele, e convidei ele para passar lá na escola, ele imediatamente levantou. Ele durou mais 10 anos de vida. Esse foi um momento maravilhoso”, lembrou emocionado. 

Se os delegados são aqueles que votam, discutem e decidem em nome de um grupo maior de pessoas, para o Mestre Dedé Veríssimo, de 77 anos,  da tradição Boi Calemba Pintadinho, os mestres da cultura são também  delegados, por natureza. Ele e seu grupo se apresentaram na programação da Teia reunindo dezenas de pessoas ao redor do grupo. Os olhares e as expressões confirmavam um brilho no olhar. 

Herdeiro de uma tradição de 123 anos, Mestre Dedé é a terceira geração de brincantes do Boi. Segundo ele, só se aprende a ser mestre da cultura popular com outro mestre. “Eu não aprendi só. Eu aprendi porque o outro mestre passou a me ensinar”. O grupo viajou de ônibus do Rio Grande do Norte ao Espírito Santo para participar do evento.

“Nós temos muito carinho de ver o boi se apresentar. O boi é como a criança e o dono também é uma criança”, conta ele. “Me sinto feliz de ouvir o som da minha cidade aqui, da minha capital. Eu já andei em várias cidades para ter a capacidade de receber esse boi”, conta. Há mais de 40 anos à frente do boi, o significado de ser mestre da cultura está na habilidade de comunicação com diferentes públicos. “Se um mestre errar, as pessoas vão perguntar a faculdade que ele fez. Então, o mestre é a mesma coisa, tem que ensinar bem, com capricho.”

Mestra Nadir (Foto: Anna Ortega/Nonada)

Com o estandarte da Paraíba em mãos e as fitas da indumentária esvoaçando ao vento, a coroa de mestra do Cavalo-Marinho firme no topo da fronte, Mestra Mirian desfila carisma e não disfarça a vontade de falar – e nem a de ser ouvida. O grupo único que tinha quando começou a atuar na expressão cultural típica do Sul da Paraíba e da Zona da Mata Norte de Pernambuco, já se multiplicou e hoje são nove. A continuidade do folguedo popular segue, circular. 

“Há um começo, um meio e um começo de novo, porque a gente tem que estar sempre se renovando, se reestruturando para dar o melhor”, defende a mestra. Para ela, a magia do Cavalo-Marinho é entrar dentro do personagem mascarado que assume durante o espetáculo sincrético, que une tradições católicas, como a celebração do nascimento do menino Jesus; ancestralidades africanas, como a Umbanda; e vivências indígenas, representadas pela tradição da Jurema Sagrada. 

Mestra Nadir Cruz, coordenadora do Boi da Floresta, do quilombo urbano de Liberdade, no Maranhão, também entende a importância das renovações. Com a sua indumentária e máscara de Cazumbá (figura mística e folclórica do Bumba-meu-boi que se encarrega da espiritualidade e da limpeza energética do território) em mãos, a mestra explica que a expressão cultural, na comunidade onde atua, desempenha um papel importante na reintegração social de populações marginalizadas.

“O Boi da Floresta é um elemento de transformação, já que está localizado em uma periferia onde todas as mazelas sociais estão presentes. O Bumba-meu-boi é utilizado para a ressocialização de pessoas que estão com alguma dificuldade, seja neurológica ou emocional, seja pelo uso indevido de alguma coisa”, destaca. 

Além do trabalho indireto enquanto assistência social, a expressão cultural também é uma fonte de economia para o território. Todo o trabalho de confecção das indumentárias e máscaras presentes na manifestação é feito a mão por artesãs e artesãos locais. “Isso é convertido em recurso financeiro para o artesão. É geração de trabalho e renda. É isso o que o Bumba-meu-boi ensina: os seus saberes, salvaguardando a tradicionalidade, mas também trabalhando e movimentando a economia local.”

A busca por novos direitos

GT Ruralidades durante a Teia Nacional (Foto: reprodução)

            Um dos exemplos de mobilização política realizada nos dias da Teia foi a entrega e divulgação de uma carta-manifesto da delegação do Baixo Amazonas à ministra da Cultura, Margareth Menezes, com 17 reivindicações voltadas ao fortalecimento das políticas culturais na região amazônica. A carta foi elaborada de forma coletiva durante o Tarrafa Cultural: Encontro de Pontos e Pontões de Cultura do Baixo Amazonas. 

O manifesto pede, entre outros pontos., a implementação do Fator Amazônia em todos os editais, o mapeamento de manifestações culturais não urbanas na região do Baixo Amazonas, a instituição da Política Estadual Cultura Viva no Pará e a destinação de recursos dos Fundos de Adaptação e Mitigação Climática para iniciativas culturais. 

Outra carta que circulou nos dias de evento, impressa em papel, foi a Carta de Mestres da Cultura Popular Tradicional Capixaba. O texto pedia por três ações, sintetizadas pelos organizadores de “RIR” — reconhecer, incluir e remunerar. O documento reforça a necessidade de aprovação da Lei dos Mestres, ainda em tramitação no Congresso Nacional. 

A sustentabilidade também foi um dos temas principais de discussão entre Fóruns e GTS. Segundo Mariana Botelho, não há como refletir sobre a continuidade da política sem atualizar e garantir o bem viver daqueles que produzem cultura. “Os pontos de cultura estão em territórios em que não conseguimos captar como produtoras grandes. É importante que a política continue existindo e que a gente consiga garantir minimamente a existência dela dentro da estrutura”, defende. 

No último dia da programação, um cortejo de diferentes artistas tomou as ruas de Santa Cruz, distrito de Aracruz. A rota foi curta: uma volta na quadra. O movimento, porém, foi grande e uma espécie de síntese dos seis dias do encontro: uma confluência de sons e de localidades. Na primeira fila do cortejo, saíram os Guerreiros do povo Tupiniquim. No meio, as bandas de Congo, as Ialorixás, os brincantes. Como diz Nego Bispo, referenciado em diversos momentos do encontro, “somos começo, meio e começo”. O sentimento da Teia foi esse: estar no meio do Brasil. 

*A equipe do Nonada viajou a Aracruz a convite do Ministério da Cultura.

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