Conheça músicas que mostram o DNA paraense do rock no Brasil

A história do rock no Pará mostra a inventividade musical da região, ao misturar o gênero ao brega, à guitarrada, ao carimbó e a ritmos caribenhos
O Brega Paraense é um dos ritmos que caracteriza a mistura e a história do rock no Pará. Foto: Bruno Cruz/ Agência Pará

Este artigo de opinião é uma parceria entre o Nonada e a Agência Carta Amazônia

Há rock dos bons no Pará. Esse ritmo — ou modo de vida, para alguns — chegou a estas terras por caminhos inesperados, em parte semelhantes aos percorridos em seu país de origem, os Estados Unidos. Como quase tudo na cultura, o rock nasceu de um amálgama de estilos musicais, sobretudo das experiências da população negra estadunidense, entre igrejas, guetos, clubes e comunidades. Depois, foi apropriado, popularizado e multiplicado por muitos artistas brancos — mas essa última parte já é outro debate.

Talvez quem hoje ouça Nirvana, Legião Urbana, Metallica, Queen, Skank ou qualquer outra vertente do rock não saiba que o termo “rock and roll” surgiu depois que o novo ritmo já era tocado em guitarras elétricas. A expressão se popularizou nos Estados Unidos a partir do trabalho do jornalista e radialista Alan Freed, que, no início dos anos 1950, apresentava em Cleveland, Ohio, um programa que reunia jovens brancos e negros para ouvir black music, especialmente rhythm and blues.

Freed passou a chamar de rock ‘n’ roll aquele som que misturava elementos do blues, do country e do gospel. A expressão, porém, já era uma gíria utilizada pela população negra estadunidense, relacionada tanto ao movimento da dança quanto a uma conotação sexual. O termo acabou batizando um gênero que já vinha sendo construído por artistas negros e teve entre suas grandes precursoras Sister Rosetta Tharpe, cantora, compositora e guitarrista que, ainda nos anos 1940, incorporou à música gospel uma maneira revolucionária de tocar guitarra elétrica. Seu trabalho influenciaria artistas como Chuck Berry, um dos nomes fundamentais da formação do rock.

Naquele momento, portanto, o rock era profundamente marcado pela música negra. Mas o gênero alcançaria outra dimensão quando artistas brancos passaram a incorporá-lo e, sobretudo, quando Elvis Presley começou a cantar, dançar e rebolar diante das câmeras de televisão. Seus gestos, considerados escandalosos para os padrões da época, ajudaram a transformar aquele som em um fenômeno de massa.

Desde os anos 50, há registros da presença das aparelhagens em bailes e clubes sociais de Belém. Foto: Reprodução

E o que tudo isso tem a ver com o rock no Pará? Muita coisa.

Quando o gênero chegou ao Brasil, trazido pelos discos, pelo rádio e, posteriormente, pela televisão, encontrou uma cultura musical que também estava em permanente transformação. Elvis, Beatles, Beach Boys e Rolling Stones influenciaram uma geração de artistas brasileiros, principalmente a partir dos anos 1960. Na televisão, esse movimento ganhou um nome que acabaria se confundindo com o próprio rock para boa parte do público brasileiro: Jovem Guarda.

Exibido pela TV Record a partir de 1965, o programa era apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa e reunia artistas como Os Incríveis e Renato e Seus Blue Caps. A Jovem Guarda tornou-se um fenômeno cultural ao popularizar uma vertente do rock brasileiro ligada ao iê-iê-iê, à sonoridade da primeira fase dos Beatles, à música romântica e à cultura jovem internacional.

Mas a Jovem Guarda não era sinônimo de todo o rock produzido no Brasil. Outras vertentes seguiam caminhos próprios e, muitas vezes, só seriam reconhecidas como parte do rock nacional décadas depois. O movimento, porém, ajudou a transformar comportamentos, roupas, cabelos, linguagem e a relação da juventude urbana brasileira com a música.

O curioso é que, por aqui, muitos daqueles artistas não eram chamados pelas grandes massas simplesmente de roqueiros. Eram identificados como integrantes da Jovem Guarda. O próprio termo “rock nacional” demoraria a se consolidar no imaginário popular. Mesmo artistas que não se enquadravam naquele movimento, como Raul Seixas e Os Mutantes, só seriam reconhecidos de maneira mais ampla como parte de uma cena nacional de rock em outro momento, especialmente a partir da explosão do rock brasileiro nos anos 1980.

O Brasil além de Rio de Janeiro e São Paulo.

Longe do eixo Sudeste, o rock também era produzido, tocado e consumido. Só que, muitas vezes, recebia outros nomes. Em diferentes regiões, artistas influenciados por Elvis, Beatles, Rolling Stones e pela música romântica nordestina não eram necessariamente identificados como roqueiros. Em muitos casos, eram classificados como “bregas”.

A palavra, durante muito tempo, foi utilizada de maneira pejorativa para designar uma produção musical popular, associada às camadas pobres e às regiões afastadas dos grandes centros culturais do país. E é aí que a história começa a ficar interessante.

O que é mais brega: as roupas apertadas de Reginaldo Rossi ou as de Elvis Presley? Porque, no início da carreira, Reginaldo se vestia como Elvis. E por que Rossi é chamado de brega e Roberto Carlos não, se os dois compartilhavam referências, sonoridades e até características vocais semelhantes nas décadas de 1960 e 1970?

Talvez porque, no Brasil, a classificação de um gênero musical nunca tenha dependido apenas da música. Também tem a ver com classe social, região, cor, acesso aos meios de comunicação e com quem ocupa o centro e quem permanece nas margens da indústria cultural.

O pernambucano, assim como tantos outros artistas posteriormente classificados como bregas, fazia uma música profundamente atravessada pelo rock ‘n’ roll. E esse som ganhou enorme popularidade justamente onde a indústria cultural do eixo Rio-São Paulo tinha menos força. Chegou às periferias, ao interior e às cidades amazônicas. Chegou também a Belém, onde encontrou uma juventude que não apenas consumiu aquela música, mas a transformou.

Foi nesse processo que aconteceu uma espécie de antropofagia musical nas periferias de Belém. A música nordestina, especialmente a pernambucana, encontrou as influências caribenhas que já circulavam pela Amazônia. Ritmos vindos do Caribe chegavam por sinais de rádio que alcançavam áreas onde as emissoras do Sudeste tinham pouca penetração e também por meio das fronteiras e das redes de comércio e contrabando que conectavam o Pará às Guianas e ao Caribe.

O compasso quatro por quatro, a dança inspirada no rock estadunidense das décadas de 1950 e 1960 —  especialmente o twist,  o romantismo da música popular nordestina e os ritmos caribenhos foram se misturando. O resultado foi uma música que tinha o rock em seu DNA, e que eram difundidos pelos rios e nas periferias, primeiro pelos sonoros, e depois pelas festas de aparelhagens e pelas rádios, até que o brega se tornasse o que é hoje.

Integrantes do Potentes do Brega animam as festas em Belém. Foto: Reprodução

Aqui, esse som virou outra coisa

O encontro de sonoridades ganhou  uma maneira própria de dançar, de tocar, de cantar e de ocupar a cidade. O que em outros lugares era visto como uma música menor tornou-se, em Belém e em outras partes da Amazônia, uma das principais expressões culturais das classes populares desse território.

Essa história chegaria mais tarde a um de seus pontos mais conhecidos com Chimbinha. Além de guitarrista virtuoso e produtor de sucesso do brega paraense, ele soube perceber uma questão fundamental do mercado musical brasileiro: para que um ritmo regional ultrapassasse suas fronteiras, talvez precisasse ser apresentado ao país com outro nome. Assim, o brega ganhou uma nova embalagem nacional: o Calypso —  ritmo que também faz parte da salada cultural que é o brega paraense.

O nome ajudou a aproximar aquela música de uma identidade caribenha e tornou o gênero mais palatável para o mercado nacional. Mas trocar o nome não apaga a história. A banda Calypso também é herdeira dessa longa cadeia de misturas que conecta o rock estadunidense, a música negra caribenha e a música nordestina, ruminada e transformada num som e numa dança original. Afinal, misturar ritmos nunca fez do Skank uma banda menos digna de ser posta na prateleira do rock nacional. Chimbinha tampouco precisa reivindicar essa classificação. Além do mais, quando se olha para a genealogia da música, é impossível ignorar que o Calypso também pertence a essa linhagem, assim como o Manguebeat pernambucano, para citar outro exemplo regional que ganhou notoriedade além fronteira.

O próprio calypso original, gênero musical nascido em Trinidad e Tobago, carrega uma história de arte e resistência da população negra daquele país. É nesse sentido que o brega pode ser entendido como uma espécie de reconexão entre diferentes povos das margens. O rock saiu dos guetos negros dos Estados Unidos, atravessou fronteiras, foi apropriado pela indústria cultural, recebeu novos nomes, se metamorfoseou em outras vertentes e, em cada lugar, ganhou novos significados.

No Pará, ele deixou de ser apenas rock. Virou brega. Misturou-se ao carimbó, à música nordestina e aos ritmos do Caribe. Ganhou outra dança, outra guitarra, outra estética e outro público. E, ao fazer isso, tornou-se algo que já não cabia perfeitamente na definição original do gênero.Mas a história do rock no Pará não termina aí.

Muito pelo contrário. É em meio a essa história de misturas, apropriações e reinvenções que começa a surgir por aqui uma das cenas roqueiras mais impressionantes da América Latina — uma cena que, apesar de sua força e longevidade, ainda não recebeu o devido reconhecimento do grande público brasileiro, mas é reconhecido por quem consome e produz rock para além do mainstream

Embora o brega possa ser considerado uma vertente popular do rock, as outras variantes do gênero também foram e continuam sendo produzidas no Pará, com muita força a partir da década de 1980, já com influências do punk, do heavy metal, do new wave, mantendo misturas e referências a vários elementos da cultura amazônica. Pensando nesses cruzamentos sonoros, conheça 10 dicas para adentrar a história do rock paraense:

Brega, de Teddy Max

Tente ouvir o brega como rock, limpar o preconceito que porventura ainda lhe resta sobre o gênero popular, e verá que não é muito diferente de ouvir letras e melodias simples, como eram as músicas dos Beatles antes de Revolver. Há um número absurdo de exemplos que eu poderia dar de como o brega é também rock, mas, por uma questão afetiva, vou citar o santareno Teddy Max, que gravou pelo menos três discos de destaque. Mas,sem dúvida, sua obra-prima é “Ao Pôr do Sol“.

Aqui o destaque vai para o riff da guitarra, já fortemente influenciado pelo merengue e por outros ritmos caribenhos, a percussão e a melodia, que mantêm uma profunda conexão com o rock dos anos 1960, feito para dançar e ser sensual, com uma letra que alguns podem chamar de clichê, mas que eu adoraria que tivesse sido escrita para mim.

 Pecados de Adão, de Eloy Iglesias

A canção “Pecados de Adão“, de Eloi Iglesias, poderia perfeitamente ser confundida com um brega paraense. Mas, como foi lançada na década de 1980, acabou sendo incorporada no imaginário popular ao pop rock parauara.

O timbre de voz de Eloi lembra muito o de Cazuza. O ceceio charmoso também — quando a pessoa substitui o som do “s” pelo do “ch”. A letra é subversiva, sobretudo quando sabemos que foi composta por um ícone da luta LGBTQIA+, responsável por reformular a Festa da Chiquita e transformá-la na principal agenda trans e gay da Metrópole da Amazônia, realizada na véspera do Círio de Nazaré, um movimento considerado pioneiro no mundo.

A música é deliciosa. O ritmo é marcante. Os backing vocals são inesquecíveis. Só esses elementos já bastariam para credenciá-la como uma das mais importantes obras da música amazônica. Quando a gente se dá conta da poesia subversiva, conectada ao desejo gay, ela vira puro suco de rock ‘n’ roll, de um artista que segue fazendo música de ótima qualidade, misturando rock com outros ritmos e à sua irreverência revolucionária.

Reginaldo Rossi vestido de Elvis na década de 70. Foto: Reprodução

Belém, Pará, Brasil

Certa vez, Renato Russo lamentou a permanência da atualidade de letras de protesto como “Que País É Este”, composta ainda durante a ditadura civil-empresarial-militar. Desde 1978, ela continua assustadoramente contemporânea.

O mesmo pode ser dito de “Belém, Pará, Brasil“, provavelmente o maior hino do rock paraense. É muito difícil alguém que viveu naquela época não saber pelo menos o refrão de cor, especialmente pelo grito de protesto que ele representa contra o preconceito de parte do Brasil contra a Amazônia urbana. A música foi lançada quando a cena roqueira da capital vivia um de seus momentos mais efervescentes, no início da década de 1990, ela representou uma espécie de culminância de uma produção local impressionante. Havia inúmeras bandas excelentes, muitas das quais sequer chegaram a gravar discos, mas eram amplamente consumidas pelo público.

Para se ter uma ideia, existiu em Belém um festival chamado Rock 24 Horas, que teve três edições. Se tivesse durado 48 horas, provavelmente ainda assim haveria uma banda boa sobrando para tocar. Essa cena foi descrita brilhantemente pelo jornalista Ismael Machado, o Bill, que também fez parte dela e a registrou no excelente livro “Decibéis sob Mangueiras”, lançado em 2004 pela Grafinorte.

Delinquentes

Há mais de quarenta anos em atividade, Delinquentes é um dos grandes ícones do punk rock brasileiro. O lendário vocalista Jayme Katarro, principal letrista da banda, é o único integrante que permanece desde a formação original.

Alguns anos depois de ajudar a fundar o grupo, ele viu os Raimundos misturarem punk com música nordestina. Só que ele já fazia isso há algum tempo em Belém. Elementos da cultura amazônica atravessam toda a obra da banda. Nas mãos e na voz de Jayme, até o carimbó virou hardcore.

Se você gosta de bandas como Sepultura, Ratos de Porão e Inocentes, e ainda não conhece Delinquentes, talvez essa aqui seja uma ótima dica para se conectar ao rock na Amazônia.

O pioneiro heavy metal paraense no Brasil

Quando Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin e outras bandas começavam a revolucionar o rock mundial com o heavy metal, alguns adolescentes paraenses decidiram criar a própria versão daquele universo.

Foi assim que Roosevelt “Bala” Cavalcante (vocal), Pedro Valente (guitarra), André Chamon (bateria) e Leonardo Renda (teclados) iniciaram um projeto chamado Pinngo D’Água.

Pouco tempo depois nasceu a Stress, primeira banda brasileira a lançar um álbum inteiramente dedicado ao heavy metal.

O disco homônimo, assim como os trabalhos posteriores, traz letras em português. Isso pode soar estranho para quem está acostumado a ouvir Angra, Crypta e outras bandas brasileiras de metal cantando em inglês.

Mas ouvir a Stress decretando que “Heavy Metal é a Lei“, levando esse som para um público apaixonado e abrindo caminho para todo um cenário que viria depois, é compreender por que essa banda ocupa um lugar tão importante na história do rock brasileiro.

A banda de rock e heavy metal paraense Madame Saatan teve início em 2003. Foto: Divulgação

Madame Saatan

Posso estar errado, mas, dentro daquilo de que tomei conhecimento, Madame Saatan é a banda de rock paraense que mais alcançou relevância nacional.

Com um som pesado, misturando também elementos da música da Amazônia, Sammliz (vocal), Ícaro Suzuki (baixo), Ed Guerreiro (guitarra) e Ivan Vanzar (bateria) lançaram álbuns e videoclipes que ultrapassaram os limites, já extensos, da Região Norte. Foram presença constante na MTV durante a segunda metade dos anos 2000.

Suzana Flag

Em 1944, quando o rock ainda era um embrião, o autoproclamado reacionário Nelson Rodrigues escrevia “Meu Destino é Pecar”, folhetim publicado diariamente nas páginas de O Jornal. A autora Suzana Flag, pseudônimo do profícuo e ironicamente revolucionário autor de crônicas, peças teatrais e romances.

A estratégia foi elaborada quando Nelson foi contratado por Assis Chateaubriand, que anos depois fundaria a TV Tupi e levaria as novelas para a TV, ajudando a consolidar em um dos maiores produtos de massa do mundo.

Cerca de cinquenta anos depois de Suzana Flag tornar-se um fenômeno cultural, uma banda de Castanhal, na região metropolitana de Belém, adotou para si o mesmo nome, revelando desde sempre seu apreço pela literatura, pela cultura pop e pela música.

Durante quase um ano, o primeiro álbum da banda, não por acaso intitulado Fanzine, foi produzido de forma artesanal no quintal de Joel Melo, conhecido como  Joel Flag (guitarra e voz).

Algum tempo depois, ele, Susanne May (vocal), Elder Effe (baixo e vocais) e Daniel Coutinho (bateria) se apresentariam por todo o Brasil, apareceriam com frequência na MTV e se tornariam uma das bandas paraenses de maior reconhecimento fora da região.

Localmente, podemos dizer que ela foi uma das responsável pela segunda grande febre do rock na região, principalmente pela efervescência de várias bandas locais de excelente qualidade. Sintomaticamente, nessa época surgiu um dos mais longevos festivais da Amazônia, o Se Rasgum, que hoje corretamente apresenta uma ampla variedade de estilos no line up, mas que originalmente foi um festival de rock independente amazônico.

A Banda Suzana Flag foi um dos nomes centrais da cena de rock de Belém nos anos 2000. Foto: Reprodução

O som da banda é leve, pop, e remete tanto às origens do rock quanto ao brega e a outras sonoridades paraenses. Com razão, a banda participou do tributo a Odair José, organizado pelo selo Allegro Discos, interpretando “Vida que Não Para“.

Foi justamente essa participação que inspirou todo este texto que agora vos escrevo.

Também foram a primeira banda de heavy metal a se apresentar no Teatro da Paz, um dos mais importantes do Brasil.Eu diria que o álbum Peixe-Homem, lançado em 2011 pelo selo Doutromundo Discos, é uma obra-prima.

Não bastassem as canções clássicas e viscerais, a banda também construiu uma assinatura audiovisual impressionante. Destaco videoclipes como “Devorados“, gravado na Vila da Barca – uma das periferias mais emblemáticas e combativas do Brasil, e “Vela“, gravado durante o Círio de Nazaré. Ambos dirigidos pela renomada cineasta paraense Priscila Brasil.

Atualmente, a banda encontra-se em hiato, após Sammliz, uma das maiores vocalistas do metal latino-americano, decidir dedicar-se à carreira solo. Ainda há apresentações especiais aqui e ali, mas, felizmente para nós, existe um vasto acervo da banda disponível na internet.

O Festival de Música Amazônica, em Belém, em 2024. Foto: Amarilis Marisa / Agência Belém


Buscapé Blues

Era véspera do Círio de Nazaré, em outubro de 2012 ou 2011, quando presenciei, na Praça da República, em Belém, a segunda edição do Cirial, um festival de rock independente que costuma ocorrer no anfiteatro local.

Naquele dia, a homenageada era a Buscapé Blues, banda paraense que existe e resiste desde a década dos anos 1980, com extensa obra, embora nem toda registrada, misturando blues, rock, ritmos amazônicos e uma irreverência ácida única. É dela alguns dos maiores hinos do rock local, como “Oh Marambaia”.

Achei aquela homenagem maravilhosa porque a placa do evento havia sido pintada sobre um tecido TNT reaproveitado da edição anterior. Tudo a ver com o cenário de resistência e independência que marcou o rock dos anos 80 em Belém. Buscapé é a personificação dessa cena, que canta e berra cenários da periferia da capital paraense.

La Pupuña

Se você já ouviu a introdução de “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso, então você conhece alguma coisa das guitarradas. Já imaginou um gênero majoritariamente instrumental tornar-se um sucesso popular, sendo produzido por mestres das comunidades marajoaras e das periferias da Região Metropolitana de Belém?

No Pará isso aconteceu, na década de 1980. As aparelhagens eram (e de certa forma ainda são) o principal veículo de difusão musical feita do povo da quebrada para o povo da quebrada. Foi assim que a guitarrada começou a ganhar espaço, tornando-se um movimento extremamente popular. Com o passar do tempo, porém, o ostracismo atingiu esses mestres autodidatas que dominavam a guitarra e fundiam a lambada, o merengue e outros ritmos caribenhos a outros amazônicos, em especial o carimbó.

Foi então que Félix Lobato, um dos músicos e produtores mais importantes da música paraense, quando era estudante de música da UFPA, desenvolveu, em 2004, uma pesquisa sobre esse movimento.

Félix não apenas ajudou a resgatar a visibilidade e o devido reconhecimento de gênios como os mestres Vieira, Laurentino e Aldo Sena, como também participou da fundação de uma das bandas mais importantes da Amazônia: La Pupuña. A banda passou a definir seu estilo como guitarrada progressiva.

O termo era uma brincadeira com o rock progressivo, especialmente pela admiração dos integrantes por bandas como Pink Floyd, mas também uma forma de mostrar que a guitarrada podia dialogar com diferentes universos musicais sem perder sua identidade.

O grupo desenvolveu muitos trabalhos incríveis, mas meu predileto é Charque Side of the Moon, um trocadilho com a palavra “charque”, presente no linguajar popular paraense com uma conotação sexual, em uma releitura amazônica do lendário The Dark Side of the Moon.

Tropikal Punk – a união dos notáveis

Há um sem-número de bandas que já existiram — e continuam existindo — na cena roqueira paraense e amazônica. Só das que eu conheço, e considero maravilhosas, são pelo menos umas vinte. Mas gostaria de encerrar esta lista falando da Tropical Punk, que neste ano lançou seu álbum homônimo.

Ela sintetiza o melhor de toda esta lista e da história que tentei contar sob meu ponto de vista, por reunir originalmente uma verdadeira seleção de roqueiros da Amazônia: o vocalista Ruy Montalvão (Coletivo Rádio Cipó e Mangabezo), o guitarrista Márcio Maués (Pig Malaquias), o baixista Vlad Cunha (Pig Malaquias, Mangabezo e Norman Bates), Jacob Franco (Renegados e Projeto Secreto Macacos), nos efeitos, vocais e synth, e o mais jovem de todos, o baterista Renato Damaso (Semente de Maçã).
Jacob acabou saindo da formação antes da gravação do álbum homônimo, que reúne elementos da cultura amazônida, peso, denúncia e ancestralidade rebelde cabana em seu DNA, uma significativa amostra de que o rock segue vivo na Amazônia, misturando guitarras distorcidas com guitarrada, brega, carimbó, merengue, aparelhagem, música eletrônica e tudo aquilo que mexe corpos e mentes por esses lados.

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