Resenha: Thaís Seganfredo
Fotos: Anselmo Cunha 

Há pouco mais de 40 anos, uma música mexia com as estruturas de poder de um país, criticando acidamente uma ditadura militar e alertando o povo contra os retrocessos sociais. Poderia muito bem ser no Brasil, mas nesse caso, estamos falando de “Zombie”, do nigeriano Fela Kuti. Filho de um diretor de escola e de uma líder feminista, aos 30 anos ele foi para os Estados Unidos, onde entrou em contato com a cultura e os movimentos sociais diaspóricos americanos, como os Panteras Negras, para depois voltar a sua terra, onde criou o afrobeat, gênero musical que mistura jazz, funk e percussão africana.

Em 1976, ele lançou “Zombie”, cuja letra satirizava os seguidores que obedeciam sem pensar ao autoritário Olusegun Obasanjo, música que se tornou rapidamente popular no país e levou o regime a invadir sua residência (declarada por ele de República Kalakuta) e a assassinar sua mãe.

Zumbis não vão se você não mandá-los ir
Zumbis não param se você não mandá-los parar
Zumbis não voltam se você não mandá-los voltar
Zumbis não pensam se você não mandá-los pensar
Mande-os irem em linha reta – marchem, marchem, marchem
Sem cérebros, sem senso – marchem, marchem, marchem.
(“Zombie”, 1976)
 

Foto: Anselmo Cunha/Nonada

De volta ao Brasil, no cenário atual no qual um admirador da ditadura militar pode ser nosso próximo presidente,  o afrobeat de Kuti foi o ponto de partida que uniu os músicos da Bixiga 70 por volta de 2011. A big band paulistana vem, a cada novo disco, aprofundando a complexidade de referências trazidas da música diaspórica (jazz, dub, funk e ritmos sulamericanos) e pavimentando o novo cenário da música instrumental brasileira.

Se nos dois primeiros álbuns, era marcante a herança afro-brasileira com toques de ritmos como carimbó e ijexá, por exemplo, as experiências transatlânticas do grupo – já nessa altura uma das mais reconhecidas bandas brasileiras no cenário internacional – vem resultando em composições mais experimentais, como visto no álbum Quebra-Cabeça, com referências até mesmo da Índia. O disco mostra também um amadurecimento do coletivo, em sua coletividade e individualidade de cada integrante. Isso porque ele é fruto de uma criação coletiva, um mosaico teoricamente caótico de referências trazidas de cada um, mas que na prática faz todo o sentido, quase como se os músicos do Bixiga fossem alquimistas da música, misturando e aperfeiçoando elementos.

Foto: Anselmo Cunha/Nonada

Foi para mostrar esse caldeirão que a banda se apresentou no último sábado (6), no bar Opinião, em Porto Alegre, em um show que colocou todo mundo pra dançar na véspera das fatídicas eleições. E não foi por acaso que “Primeiramente” abriu a apresentação, um manifesto a la Rage Against the Machine cujo videoclipe traz imagens de protestos de movimentos sociais, antirracistas e feministas no Brasil e no mundo, e ainda o momento histórico quando diversas etnias indígenas ocuparam o Congresso. Já nessa música, o guitarrista Cris Scabello externalizou o sentimento (esperamos que) unânime de toda a plateia: “Fora fascista do caralho!”, além de Marielle vive, Lula Livre e Ele Nao, também bandeiras defendidas na noite.  Na travessia do coletivo, uma constante marca o coletivo: o posicionamento político contra o retrocesso social, herdado também do pai do afrobeat.

Antes do Bixiga entrar, porém, quem estava no palco era a Trabalhos Espaciais Manuais, uma dos grupos mais queridos da cena musical independente de Porto Alegrense, que subiu muito cedo ao palco, às 20h10, com a casa ainda vazia. Pouco a pouco, no entanto, o público foi chegando e não foi difícil, como já é costume, se render facilmente ao groove da TEM.  Além de novas faixas, os sucessos “Caçada ao Lagarto Real” e “Farofa De Banana (TuMaracá)” levantaram a pista, que já estava mais cheia mais para o final do show. Ainda teve espaço para o integrante João Pedro Cé lembrar a importância de combater o fascismo e fazer um coro de Ele Não com o público. Em um momento no qual o Rio Grande do Sul nos envergonha em tantos aspectos políticos e sociais, foi um orgulho ter uma banda nesse nível de qualidade tocando antes do Bixiga 70.  A TEM vai lançar, no dia 24 de outubro, no Salão de Atos da Ufrgs, o videoclipe de “Manobra De Dobra Em Urano”. Outra que também faria jus a noite é a Ọ̀ṣẹ́ẹ̀túrá (Africa’n​Jazz), coordenado pelo músico nigeriano Ìdòwú Akínrúlí.

Uma parte da TEM. Fotos: Anselmo Cunha 

Voltando ao Bixiga 70, depois de “Primeiramente”, a banda empilhou outras composições do Quebra-Cabeça, como a homônima, tão densa quanto dançante, e a etérea “4 Cantos”. Do álbuns mais antigos, teve muito nordeste (como numa homenagem antecipada a região que nos daria esperança no Brasil no dia seguinte) com o ijexá na indispensável “Deixa a Gira Girá”, de autoria do grupo Os Tincoãs, do álbum II( 2013) e “Mil Vidas” (2015), que vai da latinidade ao pífano. E teve ainda a coreografada e seguida pelo público “100% 13” (2015),  na qual sintetizador e metais dividem o brilho.

Mas é claro que também teve destaque pra todos os instrumentistas em outros momentos do show, na banda formada por Cris Scabello (guitarra), Cuca Ferreira (saxofone e flauta), Daniel Nogueira (saxofone e flauta), Daniel Gralha (trompete), Décio 7 (bateria), Douglas Antunes (trombone), Marcelo Dworecki (baixo), Mauricio Fleury (teclado e guitarra) e Rômulo Nardes (percussão). Um dos momentos mais aplaudidos, aliás, foi o duo protagonizado por Décio 7 e Rômulo sozinhos no palco, na percussão. O amadurecimento do coletivo é visível também na condução do show, e foi de Mauricio Fleury uma das falas mais importantes da noite, por exemplo: “A gente tem que se juntar e cada um fazer o seu caminho com muito respeito, a gente não sabe o que vai dar amanhã e a gente não pode esmorecer nem se calar nem brigar entre nós. o caminho é a coletividade e não baixar a cabeça”, pediu.

Foto: Anselmo Cunha/Nonada

E foi nessa pegada de esperança e luta que a apresentação foi chegando ao final, com a carimbozeira “Kalimba” (2013) e a versão do Bixiga 70 de “A Morte do Vaqueiro”, que faz uma inversão da melancolia para a catarse, homenageando o mestre e (nunca é demais lembrar) nordestino Luiz Gonzaga. Uma escolha simbólica do peso do nordeste na cultura e na sociedade brasileira, que sofrem com o preconceito e com a intolerância, resultou até mesmo, no dia 7 de outubro, depois das eleições, no assassinato do capoeirista e mestre Moa do Katendê após ele se declarar contrário a Jair Bolsonaro. Vida longa à cultura popular brasileira.  

Foto: Anselmo Cunha/Nonada
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