Descolonizando o código: Projetos comunitários unem saberes ancestrais à programação e IA

Iniciativas partem do conhecimento de comunidades tradicionais para criar tecnologias voltadas ao bem viver, subvertendo as lógicas das big techs
No LABCÔCO, em Olinda, comunidades tradicioanis lideram a criação de games sobre cultura afro-brasileira. Foto: Arquivo Pessoal/LABCÔCO

Entre as florestas do Acre, os sertões do Maranhão, os terreiros de Olinda e as chapadas do Cerrado, comunidades tradicionais têm desenvolvido iniciativas populares, criativas e críticas das tecnologias digitais. No centro dessa rede de reinvenção digital estão projetos como o Contos de Ifá, que utiliza a linguagem dos games para difundir a mitologia afro-brasileira e combater o racismo religioso. Há também a Arandu, inteligência artificial desenvolvida por mulheres indígenas para a salvaguarda de saberes ancestrais, e o Tô no Mapa, aplicativo que auxilia povos tradicionais no automapeamento de suas terras. 

Enquanto o debate sobre inteligência artificial e algoritmos, por exemplo, no Brasil, costuma se concentrar nos danos e no aprofundamento das desigualdades de raça, gênero e classe, essas iniciativas transformam códigos, dados e softwares em instrumentos para a defesa de modos de vida indígenas, negros, ribeirinhos, afro-religiosos e quilombolas.

Longe dos grandes centros, projetos como o Contos de Ifá, Arandu e Tô no Mapa mostram que, no lugar do racismo algorítmico, existem as gambiarras tecnológicas para lutar por justiça e bem-viver. Apontam que, não existem apenas os discursos de ódio, mas também novos imaginários e afetos que podem ser despertados. E revelam que, apesar de todo um histórico presente e passado de roubo de dados, conhecimentos ancestrais e energia vital, os cuidados digitais podem ser desenvolvidos— protegendo diversas populações diante das violências que ocorrem nas plataformas.

A mitologia afro-brasileira gameficada 

Entre redes e raízes, as tecnologias sociais e digitais do Brasil nascem nos territórios, nas experimentações, nos encontros entre tradição e invenção comunitária. No Beco da Macaíba, o som que ecoa não vem apenas das caixas de som, mas do couro dos tambores que vibram no barracão logo ao lado. Em Olinda (PE), o solo de Pernambuco abriga uma tecnologia que desafia o silenciamento histórico imposto às religiões de matriz africana: o Contos de Ifá. Uma série de games roteirizados a partir da mitologia afro-brasileira. O projeto nasceu no coração do terreiro de matriz Nagô Ilê Axé Oxun Karê, dentro do Laboratório de Tecnologia e Inovação Cidadão, o LABCOCO.

Idealizado pela Ialorixá e ativista Mãe Beth de Oxum, em parceria com os educadores Ricardo Brasileiro e Ricardo Ruiz, filhos de santo do terreiro na época, o projeto surgiu da necessidade de promover espaço fértil para as identidades negras e para construir educação digital dentro do território. Desde 2010, a iniciativa não apenas cria jogos; mas conecta a juventude negra ao universo da programação e do design. 

Para Daniel Luis, atual coordenador do laboratório que começou no projeto ainda criança, a tecnologia ainda é um horizonte distante para quem vem de comunidades periféricas. “Eu, como jovem negro de periferia, vejo a tecnologia muito longe da minha realidade. Imagine para quem não tem contato com design, programação, roteirização de um vídeo, um game? Se o governo não se move, a gente traz a política pública para não perder nossos jovens”, afirma.

Sob a coordenação de Daniel e Priscila Albuquerque, o laboratório mostra que ancestralidade não é passado, mas método: ao longo desses anos, já transformou a trajetória de cerca de 600 pessoas. O projeto é um exemplo em educação popular: a mediação técnica é feita pelos jovens do bairro que, nos últimos anos, ocuparam as universidades em cursos de Ciência da Computação e agora compartilham esses saberes com toda a comunidade. Para Mãe Beth, o diferencial está na inteligência comunitária e no poder de quem faz: no Contos de Ifá, jovens, crianças e mulheres de comunidades tradicionais dominam a programação, o roteiro e o designer. Elas não são apenas usuárias da tecnologia; elas são as donas da ferramenta.

Toda a arquitetura digital não está desconectada da cultura desses territórios e parte do sistema milenar de Ifá, um sofisticado sistema divinatório da tradição Iorubá que atua como oráculo para orientar o destino das comunidades. Sua estrutura é composta por um corpo literário de 256 capítulos, chamados de Odús, que guardam um número infinito de versos, os Itans. Para Mãe Beth, são esses saberes não só são tecnologias, mas atuam como fundamentos que regem a vida de povos tradicionais. Para ela, o conceito eurocêntrico de “inovação” tem afastado o povo de terreiro das discussões sobre tecnologias digitais, funcionando como um equívoco histórico.  

“A gente tem a tecnologia como princípio. Eu sou filha de Oxum, mas sou filha de Ogum. Minha ancestralidade mais antiga se materializa num ferreiro, no Orixá, que desenvolveu a forja e que nos ensina sobre estratégias de sobrevivência. Na mata, tem toda uma diferença você estar com um facão para lutar contra as intempéries”, explica a Ialorixá.

Ela evoca a força de Ogum, sob a ótica da cosmologia afro-brasileira, como força ancestral do domínio da técnica: aquele que transforma o ferro em tecnologia, a ferramenta que permite plantar, construir, defender e existir em sociedade. Para a líder do LABCOCO, tecnologia não é somente o digital. “A tecnologia não é algo que surgiu agora com as Big Techs. Não vamos cair nesse papo. Não precisa ser rico, milionário ou estar nos grandes centros urbanos para desenvolver tecnologia. As tecnologias mais antigas são os nossos tambores”. 

Tradicionalmente, cabe aos Babalaôs e Ialorixás memorizar e interpretar os Odús para cuidar de dilemas da vida cotidiana. No LABCOCO, essa estrutura lógica foi transposta para o código: o game não apenas se baseia nos Odús, ele gamifica as próprias narrativas do oráculo, para ensinar valores das religiões afro-brasileiras. A metodologia de desenvolvimento segue, portanto, um tempo próprio, ancestral, que as tecnologias do Vale do Silício desconhecem. Tudo começa com a consulta ao oráculo, que define qual Odu e quais Itans vão guiar a história. Só depois desse direcionamento é que a juventude entra em cena. Enquanto os adolescentes codificam, as crianças da comunidade criam os desenhos que darão rosto aos personagens. No final, o toque do couro dos tambores do terreiro vira a trilha sonora dos jogos.

Um exemplo dessa aplicação prática é o game Odoya, inspirado na figura de Iemanjá. Nele, a narrativa ancestral e lúdica é usada para enfrentar a poluição marinha em Olinda, transformando o jogo em uma ferramenta de denúncia contra o racismo ambiental e o descaso com as águas da cidade. 

Para Mãe Beth, as tecnologias desenvolvidas no Contos de Ifá também permitem a restauração da alegria e do bem-viver. Ela recorda que, na mitologia ancestral africana, na ausência de festas e celebrações, os tambores foram trazidos à Terra para curar a tristeza da humanidade. “A tecnologia para a gente era o tambor e ainda é até hoje. É a partir dessa célula rítmica que a gente se comunica e gera alegria. A tecnologia tem que fazer sentido para o nosso bem-viver ”, pontua a Ialorixá.

No LABCOCO, as metodologias ágeis se curvam aos saberes de Orixá. Essa forma de fazer materializa o que pesquisadores chamam de tecnodiversidade, provando que a tecnologia carrega as visões de mundo de quem a cria. Enquanto o modelo das Big Techs impõe uma lógica única de lucro e eficiência, o código em Olinda é guiado por outras cosmovisões. “Entregaram a comunicação do nosso país às Big Techs e ao projeto neopentecostal. Hoje, quem programa no Brasil é a ‘playboyzada’ branca e rica. A gente tem que fazer a nossa própria matrix: povo negro, quilombola e de terreiro”, convoca Mãe Beth.

A experiência da comunidade fala, portanto, de poder – ou, de soberania digital. Jovens, crianças e lideranças desenvolvem as suas próprias soluções para gerir plataformas que respeitem suas culturas e identidades.  Como explica Nin la Croix, Fomo de Oxulufã e integrante do LABCOCO, esse processo de construção de soberania e de uso crítico da tecnologia não começa na programação, mas na educação. “Acho que uma das coisas que a gente faz enquanto laboratório, para cuidar dessa proteção de dados, é primeiro de tudo essa educação de base. É mostrar para a galera que as inteligências artificiais são papagaios repetidores de bancos de dados que não nos representam por uma questão de racismo estrutural”. 

No laboratório do Beco da Macaíba, o oráculo e as autoridades religiosas são, então, formas de conhecimento tão legítimas quanto qualquer padrão ocidental. Ali, os futuros possíveis passam, inevitalmente, pela autonomia de cada povo em desenhar seus caminhos tecnológicos.

O desenvolvimento do game Contos de Ifá não apenas se baseia nos Odús, ele gamifica as próprias narrativas do oráculo para ensinar valores das religiões afro-brasileiras. Foto: Arquivo/LABCOCO

Uma IA a partir da oralidade

Enquanto as tecnologias hegemônicas seguem lógicas de extração e discriminação, coletivos como o Desvelar, dedicado ao controle democrático da tecnologia, alertam: as inteligências artificiais não são neutras. Elas espelham os interesses de quem as programa, reproduzindo violências étnicas e o apagamento de saberes milenares.

A Arandu, inteligência artificial desenvolvida por mulheres indígenas, é lançada oficialmente em 2025, chega com outra proposta. O nome, que em tupi-guarani significa “sabedoria”, já diz ao que veio. Desenvolvida em parceria com a ONG Recode, organização social de democratização da tecnologia, a IA não foi treinada por robôs, mas por memórias locais, diálogos coletivos e saberes vinculados à natureza e ao território. 

Na prática, a rede que integra a plataforma Círculos Indígenas é um grande encontro de vozes que atravessa o mapa do Brasil. Mulheres dos povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Guajajara, Terena, Apurinã, Juruna (Yudjá), Wapichana, Boe Bororo e Kaxinawá utilizam a plataforma para dialogar sobre pautas fundamentais: de conflitos de terras e práticas religiosas a negócios de empreendedorismo e legado familiar. 

Para Júlia Tainá, descendente Manchineri do Acre e participante do projeto, a Arandu é o ponto onde o código encontra a ancestralidade para desenvolver produções colaborativas e cooperativas de plataforma. “É o passado e o futuro caminhando juntos. Estamos usando as tecnologias do nosso futuro para dar voz à ancestralidade que nos trouxe até aqui, de uma forma ética e responsável com os nossos territórios”, afirma.

Em entrevista ao Nonada, Júlia ressaltou que, mais do que uma ferramenta técnica, a Arandu funciona como um “território digital livre”. Ali, a expansão da rede e a presença digital não significam uma nova invasão ou roubo predatório de dados. Nela, mulheres indígenas da Bahia ao Tocantins, de Roraima a Santa Catarina, resguardam suas culturas e fortalecem redes de empreendedorismo.

Diante das barreiras estruturais de acesso à tecnologia e aos meios de comunicação que os povos originários enfrentam historicamente no Brasil, a plataforma surge como uma tecnologia de cuidado, de pertencimento e de memória viva.  Para Tainá, a Arandu também está se tornando uma biblioteca ancestral. “Meu sogro fala: ‘tenho medo de que a nossa história se perca’. Para os nossos mais velhos, há uma urgência de que nossas memórias sejam registradas e preservadas, independentemente de situações políticas. Nós não estamos deixando que contem a nossa história; nós estamos contando a nossa história.”

Mulheres indígenas à frente do código

Essa soberania também se traduz na infraestrutura: Hermon, da equipe da Recode, explica que houve um ciclo de encontros e formações para que essa rede de mulheres desenvolvesse uma base de dados e programasse uma arquitetura de plataforma com autonomia e consciência cultural. O objetivo foi, desde o início, driblar preconceitos e distorções que as IAs convencionais costumam produzir, silenciando vozes negras, invisibilizando saberes tradicionais e transformando cultura em dado explorável. Outro aspecto fundamental, reforçado por Júlia e detalhado por Hermon, é que o acesso é protegido por uma gestão de códigos validada pelas lideranças locais.

“Cada líder possui uma quantidade de códigos que ela vai passar para validação das pessoas com quem ela tem relacionamento e se sente segura”, explica. É um mecanismo que subverte a lógica de vigilância das plataformas, substituindo a escala massiva das plataformas por uma rede de confiança, proximidade e autonomia.”

Para Joana Varon, diretora da Coding Rights — organização que defende os direitos humanos no mundo digital através do feminismo interseccional —, a retomada das tecnologias exige quebrar o distanciamento técnico que nos foi imposto. “Construiu-se no imaginário essa ideia de que tecnologia é uma coisa complicada, que você tem que ser engenheiro da computação ou um especialista. Na verdade, somos todos hackers. Esses conhecimentos de agir no coletivo, de comunicar e de pensar o que é ético servem para o debate da tecnologia”, analisa Joana. 

Ela defende que a tecnologia é comunitária, e não um domínio exclusivo das Big Techs ou da branquitude: “Temos que ir lá e abrir, e fuçar, e quebrar, porque faz parte do aprendizado. Precisamos hackear essa lógica capitalista para construir as nossas alternativas”.

Reunião de mulheres dos povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Guajajara, Terena, Apurinã, Juruna (Yudjá), Wapichana, Boe Bororo e Kaxinawá para o desenvolvimento do projeto. Foto: Arquivo Pessoal

Criações intergeracionais 

Se a internet e o digital são espaços em disputa, o aplicativo Tô no Mapa mostra que a tecnologia pode (e deve) proteger comunidades tradicionais. São quilombolas, agricultores familiares e povos que mantêm o modo de vida preservado: quebradeiras de coco, geraizeiros, vazanteiros e comunidades de fecho de pasto.

A ferramenta nasceu de um diagnóstico de exclusão no Cerrado brasileiro: enquanto bases oficiais classificavam regiões habitadas como “vazios demográficos” para favorecer o agronegócio, lideranças territoriais sabiam que a vida pulsava ali. Lançado oficialmente em outubro de 2020, em plena pandemia, o projeto é fruto de uma coalizão entre o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e a Rede Cerrado.

O embrião da iniciativa surgiu como uma resposta ao avanço da chamada “última fronteira agrícola” do país: o Matopiba, região entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “A maior parte dessas comunidades está numa situação de vulnerabilidade fundiária significativa e guardam uma cultura riquíssima. Conservam a biodiversidade com serviços ecossistêmicos ajudando o Brasil todo e não são reconhecidas por isso”, relata Isabel Castro, engenheira florestal à frente da iniciativa.

Lideranças tradicionais realizam a validação do automapeamento territorial no Cerrado durante oficina do projeto Tô no Mapa. Foto: Arquivo Pessoal/IPAM

Com o propósito de auxiliar povos tradicionais a mapearem suas terras, o aplicativo se tornou uma ferramenta de proteção quando, no final de 2024, um alerta via WhatsApp partiu de Barra do Mamanguape, na Paraíba. Do outro lado da tela, uma liderança de pescadores acionava Isabel com um relato de resistência contra uma ofensiva que se repete em todo o litoral brasileiro: o cerco da especulação imobiliária e a tentativa de privatização de praias e manguezais.

Para ela, o projeto só ganhou força quando as próprias comunidades assumiram: “A demanda veio da Rede Cerrado, que nos disse: precisamos dar escala para esse mapeamento e ele não pode ser feito por terceiros’. Tem que ser a própria comunidade falando seu território”. 

Diante dessa ameaça, o protagonismo da população colocou a tecnologia a serviço da luta pelo direito à terra. Munidas de celulares com GPS, a comunidade passou a percorrer o chão do território para desenhar o polígono — o traçado exato da área que ocupam — no mapa digital da ferramenta. Surgida há mais de um século, a comunidade de Barra do Mamanguape compreende a terra e a natureza não como recurso ou mercadoria: são territórios vivos, de identidade e ciência ancestral.

Formada a partir da convivência entre descendentes de indígenas Potiguara e outros povos, a comunidade desenvolveu modos de vida baseados na pesca artesanal e no uso sustentável do rio Mamanguape. No entanto, o avanço desordenado do turismo e de empreendimentos privados tem atingido a fonte de renda e a tradição dessas famílias.

Para Isabel de Castro, o desenvolvimento da ferramenta, nos últimos seis anos, fortaleceu a demarcação desses territórios e incentivou a criação de redes de proteção: “A visibilidade agora é mais importante porque protege mais. A comunidade faz a sua autodeclaração territorial para reafirmar: ‘ei, eu tô aqui, e esse território eu uso de modo tradicional há muito tempo”.

O funcionamento da ferramenta reflete as realidades de regiões afastadas dos grandes centros ao funcionar totalmente sem internet. Na prática, o aplicativo é um espaço de encontro intergeracional. “É sempre bom ter o jovem que auxilia no manuseio do aplicativo e é fundamental ter o mais velho, a liderança, para falar as coisas, contar a história da comunidade”, descreve a pesquisadora.

Mais do que delimitar casas, o mapeamento registra a geografia viva: fontes d’água, matas nativas e pontos de coleta que antes eram invisíveis aos registros oficiais. O resultado fala por si só: os territórios automapeados no Cerrado mantêm, em média, 76% de sua vegetação nativa preservada. Enquanto diversos biomas sofrem com o avanço da fronteira agrícola, o modo de vida tradicional prova ser a tecnologia mais eficaz para a conservação da biodiversidade.

“A gente consegue mostrar o papel deles na conservação (…) onde a comunidade está, está totalmente preservada, desde 1985 até agora, e do lado totalmente já é tomada pelo agronegócio. Garantindo o território, a gente consegue garantir a conservação da biodiversidade, das florestas”, diz Isabel.

Essa tradução da memória em dados também permite romper com a rigidez das categorias públicas e governamentais. Ou seja, no Tô no Mapa as comunidades podem, se assim quiserem, se autodeclararem pertencentes a mais de um segmento.Essa autonomia surge como resposta à urgência: o relatório mais recente da iniciativa revela que 52,9% das comunidades cadastradas enfrentam conflitos territoriais — ou seja, uma em cada duas comunidades.

Segundo os dados do IPAM, as principais causas são as brigas pela posse da terra (28%) e o cerceamento do acesso à água (18%). Para garantir o peso jurídico dessas informações, o aplicativo uniu forças à Plataforma de Territórios Tradicionais, uma iniciativa do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) do Governo Federal.

O impacto já é concreto: em Barra do Mamanguape, o registro foi reconhecido pelo Ministério Público Federal (MPF) como prova legítima para frear desmatamentos e impedir que cartórios oficializassem vendas de terrenos tradicionais sem consulta prévia.

Uso do aplicativo Tô no Mapa para registro de dados e proteção de territórios tradicionais. Foto: Arquivo Pessoal/IPAM.

Romper com as lógicas das plataformas

Se, por um lado, as tecnologias têm se conectado a lutas por justiça climática, racial e territorial, por outro lado, também têm aberto novos espaços de violências.

É o que alerta Mariana Gomes, Mona Nkisi do Terreiro Junçara Kongo e idealizadora da Conexão Malunga, plataforma de discussão do uso das tecnologias da comunicação para emancipação, ancorada nos saberes afro-brasileiros. Para ela, o debate sobre “progresso’’ e “inovação” muitas vezes encobre perspectivas capitalistas e racistas das tecnologias dominantes que não foram desenhadas para respeitar modos de vida orientados à ancestralidade.

“As comunidades tradicionais, de forma geral, têm sido alçadas como acessórios, tanto discursivos quanto participativos”. Mariana aponta que, enquanto empresas internacionais enxergam essas populações como a “próxima fronteira” de dados, nacionalmente o desafio é entender que tecnologias ancestrais são radicalmente diferentes das tecnologias digitais.

Como mulher de terreiro e pesquisadora de ciberativismo negro, Mariana afirma que um banho de folha, um borí, uma reza pertencem à gestão das comunidades tradicionais, ou seja, são fruto de seu poder e criação cultural. O que torna essencial que saberes e ritos milenares e sofisticados não sejam capturados pela lógica das plataformas: “Há uma dimensão do invisível, do culto e do sagrado em que a tecnologia não deve interferir”, segundo ela.

Mariana ressalta que as decisões sobre tecnologia sempre foram tomadas à revelia dessas populações, o que torna o ambiente digital um chão de areia movediça: enquanto o mercado mira em pessoas pobres, negras e periféricas como o próximo grande público ou “bilhão” a ser incluído digitalmente, os projetos de expansão tecnológica focam quase exclusivamente na infraestrutura — como o alcance de satélites em áreas remotas. 

Porém, essa conectividade que promete acesso a direitos básicos, como educação e saúde, nem sempre vem acompanhada de segurança para ocupação da internet. “Nesse próximo bilhão, quem não foi conectado são as populações marginalizadas ou, no caso do Brasil, as comunidades tradicionais, grupos que sofrem também com perseguições étnicas e de outras ordens”, alerta a pesquisadora. Sem as devidas diretrizes de proteção, a entrada e ocupação das plataformas digitais, por exemplo, não só expõe essas populações a discriminações, mas as torna reféns de ações de domínio, controle e exploração através da tecnologia.

Longe de assumir posições binárias que tratam as tecnologias como divindades libertadoras, ou como demônios manipuladores, o Conexão Malunga acredita no uso desses dispositivos e espaços de forma socialmente sensível, isto é: avaliando suas consequências por perspectivas de classe, gênero e raça. Além disso, de forma responsável e colaborativa, desenvolvem projetos como o Rotas para Liberdade, onde dialogam sobre a vigilância tecnológica contra populações vulneráveis.

Cuidado digital no centro

A urgência desses cuidados é amparada por números que revelam a ofensiva do racismo religioso no ambiente digital. No Brasil, esse tipo de violência é histórica e institucionalizada, promovendo há décadas a repressão e a criminalização de rituais afro-brasileiros e indígenas, por exemplo. O ataque não é apenas à crença, mas principalmente ao modo negro de organizar a vida dessas tradições. 

Segundo a pesquisa “Respeite o meu terreiro”, desenvolvida pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) junto ao Ilê Omolu Oxum, o racismo religioso já atingiu 76% dos terreiros entrevistados. Desse total, mais da metade (52%) sofreu agressão ou assédio especificamente na internet.

As plataformas digitais como Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e X são o cenário de 87% desses ataques online, que se manifestam através de discursos de ódio e fake news. Esses dados reforçam que a presença e o uso das famosas “redes sociais’’ precisa ser estratégica e ética, preservando os valores e as perspectivas que sustentam as tradições. 

Campanhas como “Não Exponha o Sagrado em Redes Sociais”, da Federação das Religiões Afr-brasileiras (AFROBRAS) têm ganhado força para conscientizar comunidades de Umbanda, Jurema Sagrada, Candomblé, Batuque, Tambor de Mina e Quimbanda sobre impactos das plataformas digitais para  a vida cotidiana de terreiro. Em seus canais, a instituição convoca toda sociedade civil a resguardar a tradição oral, o vínculo comunitário, o segredo – e não compreendê-los somente como fundamentos religiosos, mas estratégias de sabedoria digital para proteger corpos, memórias e conhecimentos vinculados ao território e à natureza.

Essa sabedoria digital se manifesta na prática cotidiana do LABCOCO. Daniel Luis recorda que, no desenvolvimento dos jogos, a equipe técnica precisou aprender que o código não é soberano sobre o rito. “Muitas vezes a gente trabalhava a parte técnica e ainda não tinha o conhecimento de alguns princípios da espiritualidade que não podiam ser mostrados. Teve uma vez que apresentamos um jogo com um símbolo sagrado, e Mãe Beth disse: não  vamos retratar esse símbolo. Daí, tivemos que reformular o roteiro seguindo os fundamentos religiosos.”

Essa fronteira entre o que se compartilha e o que se resguarda é o que movimentos sociais, educadores, produtores de saberes e lideranças têm chamado de cuidados digitais. Mariama Gomes alerta que a segurança na internet não deve ser apenas técnica, mas “integral e holística” , entendendo que racismo digital afeta a integridade física, a saúde mental, o corpo cultural e as identidades de tradições ancestrais. 

Em diálogo, Joana Veron também ressaltou que para que as tecnologias sirvam às demandas populares, oficinas, aulas e outras ações educativas “devem ser com quem pensa direito, sociologia, antropologia, comunicação”. Bons exemplos são o Instituto Sumaúma, o Nzinga Coletivo de Mulheres Negras e o Instituto Omó Nanã. Em 2025, as organizações levaram o ciclo formativo “Cuidados Digitais e Bem-estar na Internet’’ a comunidades tradicionais cruzando ensinamentos dos Orixás Exu, Oxossi, Oxum e Ogum com orientações sobre direitos tecnológicos. Para Mariana Gomes e as pesquisadoras envolvidas, redesenhar o futuro digital no Brasil exige mais do que inclusão: exige ruptura. Exige reprogramar valores, disputar imaginários e devolver à tecnologia seu sentido comunitário.

Como resume Mãe Beth de Oxum, o objetivo final não é apenas o domínio técnico, mas a preservação da vida. “O que a gente traz é o bem-viver, a harmonia com a natureza e outra perspectiva de sociedade. Nossa matriz dá condição de um outro sentimento, que não é o poder das Big Techs, mas o aquilombamento”, afirma.

Ao final, as experiências do Contos de Ifá, da Arandu e do Tô no Mapa, apontam para comunidades que estão construindo outras lógicas, outros códigos e outras redes — todas com raiz, memória e território.

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